"rivalidade de Ulysses Guimarães e Tancredo Neves foi uma
das mais belas e construtivas da história nacional. Tinham formação
semelhante e origens diferentes. Um, mineiro, era produto do poder. O outro,
paulista, estivera nele apenas no fugaz interlúdio parlamentarista. Seis anos
mais moço, Ulysses fizera toda a sua carreira na Câmara dos Deputados. Era
um conciliador de poucos votos, num partido inexpressivo em seu estado, e
nunca disputara uma eleição majoritária. Magro, precocemente calvo, sempre
pareceu ter alguns anos a mais. Lacerda apelidara-o de “Ramsés”, pela
semelhança que via na múmia do faraó.1 Em 1963, Ulysses redigira uma
emenda constitucional que permitia a imediata eleição indireta de um vicepresidente
para acompanhar João Goulart pelo resto de seu mandato.2 Era
coisa de quem temia outra coisa.
Na crise dos primeiros meses de 1964, Ulysses estava no bloco parlamentar
que a um só tempo apoiava Goulart e distanciava-se dele. Essa era também a
posição de Juscelino Kubitschek. Em dois episódios, juntara-se à nova ordem.
Nos dias seguintes à deposição de Goulart, participara da redação de um
projeto de Ato Institucional a ser submetido aos ministros militares, para
posterior aprovação pelo Congresso. Nele propunha-se que as cassações de
direitos políticos durassem quinze anos.3 Como JK, Ulysses votara em Castello
Branco. Três anos depois, quando o MDB decidiu abster-se na votação que
elegeria o sucessor do marechal, condenou a posição, argumentando que a
indicação de um candidato, mesmo sabendo-se que não poderia prevalecer,
seria útil para mobilizar o partido.4 Se tivesse havido uma conciliação com os
oposicionistas moderados do MDB, ele poderia ter ido para o secretariado do
governador de São Paulo.5 A radicalização de 1968, contudo, levou-o para as
portas do presídio Tiradentes, em São Paulo, pedindo a libertação dos jovens
presos durante o congresso da UNE de Ibiúna.6 Com o AI-5, seu nome esteve
junto ao de Tancredo Neves e de Petrônio Portella numa lista de candidatos à
cassação do mandato.7
Quando o Santos Futebol Clube ainda não tinha Pelé, Ulysses foi
presidente de sua subsede paulistana. Em 1970, caiu-lhe no colo a presidência
do MDB.8 O titular, general Oscar Passos, um senador obscuro pelo Acre, não
conseguiu reeleger-se e ele estava na vice. O partido era menor que o Santos
de 1942. A bancada de sete senadores do MDB cabia num elevador, e a da
Câmara, com 87 deputados, não alcançara o terço necessário para tomar
iniciativas na rotina parlamentar. Caíra abaixo da exigência mínima
estabelecida para a criação de novos partidos (21 senadores e 140 deputados).
Como já existia, continuaria existindo.
Ulysses equilibrava-se entre a maioria moderada do MDB, que garantia a
sobrevivência institucional do grupo, e a minoria aguerrida e autodenominada
“autêntica”, que lhe garantia a sobrevivência eleitoral. Tornara-se uma figura
nacional em 1973, quando aceitou ser candidato à Presidência da República
na eleição que ungiria o general Ernesto Geisel. Na sua definição, era um
“anticandidato”.
Em 1974 o MDB adquiriu a força do Santos, elegendo dezesseis senadores.
Como Tancredo, Ulysses preferira disputar com segurança a reeleição como
deputado. O desempenho dos candidatos superara suas melhores expectativas
e o governo, sem o controle de dois terços do Congresso, perdera a autonomia
para reformar a Constituição. Ademais, era certo que na eleição seguinte, em
1978, o MDB capturaria o controle do Senado. Como tinha vinte senadores,
bastaria que elegesse outros catorze num pleito em que seriam escolhidos 44,
pois a disputa envolveria duas cadeiras em cada estado.
Essa situação fez com que em maio de 1975 Ulysses e o deputado Thales
Ramalho, secretário-geral do MDB, fossem convidados para um encontro
secreto com Golbery. A conversa durou várias horas. O general traçou um
panorama no qual seriam feitas reformas políticas que resultariam no fim do
AI-5. Acenou com a negociação de uma anistia e deixou implícita a ideia de
uma reorganização partidária. Seu principal objetivo era abrir o canal de
entendimento com o MDB, pois sem isso o projeto não poderia andar.9
De toda a conversa, sobrou para Ulysses a sua essência: a implosão do
bipartidarismo. Em outras palavras, a destruição de sua liderança. Com três ou
mais partidos, o governo rearticularia sua força parlamentar condenando o
MDB a ser um grande partido, porém, mais um. O encontro foi mantido em
sigilo, mas Ulysses detonou a iniciativa num episódio que pareceu
inexplicável. Respondeu a um discurso de Geisel com uma nota na qual o
chamava de “honrado”, para atingi-lo com uma acrobática referência ao
ditador de Uganda, um sargentão balofo, larápio e exibicionista: “É óbvio que a
oposição não iria importar o modelo adotado por Idi Amin Dada, pois nada mais
ultrapassado do que governo baseado na força”.
Estava queimada a ponte.
Com essa inflexão, Ulysses e Tancredo deixaram de percorrer caminhos
paralelos. Não se pode dizer que fossem antagônicos, mas Ulysses seguia um
curso que pressupunha o colapso da ditadura, enquanto Tancredo esperava
que ela acabasse numa negociação. Quando, nenhum dos dois sabia.
Thales Ramalho, conhecedor da política nacional e fino observador das
almas humanas, dizia que “Tancredo e Ulysses dançam de acordo com uma
coreografia que só eles conhecem”. Foi com essa coreografia que os dois
dançaram nos anos decisivos de 1983 e 1984. Haviam se separado, sem
recriminações.
Quando organizou o Partido Popular, Tancredo dissera que “o meu PMDB
não é o de Miguel Arraes”. Ulysses dizia que o PP seria um partido de
banqueiros. Sem responder publicamente, Tancredo queixou-se por telefone.
Lembrou ao amigo que um deputado resgatara o texto de um substitutivo que
Ulysses apresentara em 1964 ao projeto de lei de greve, prevendo penas de seis
meses a um ano para quem promovesse, participasse ou insuflasse
paralisações ilegais. Tranquilizou-o, informando que aplacara o deputado,
mantendo a lembrança do substitutivo no silêncio do arquivo. Não existia
deputado algum.10
Tancredo e Ulysses acabaram por aliar-se novamente, graças à desastrosa
manobra do Planalto que vinculou os votos para o pleito de 1982. Ulysses,
equilibrando-se à esquerda, mantinha o comando do partido e entregaria a
Miguel Arraes uma de suas vice-presidências. Tancredo, aceitando a chapa do
rival, colocou na secretaria-geral o paranaense Afonso Camargo, que, vindo do
PDS era — heresia maior — “senador biônico”, produto do “Pacote de Abril”.11
Um defendia a convocação de uma Constituinte. O outro também, mas
cuidara sobretudo de sua campanha para o governo de Minas Gerais. Ambos
denunciavam a essência ilegítima da candidatura de Figueiredo, mas nenhum
dos dois arregimentara-se na campanha do general Euler Bentes.
Eleito governador de Minas, Tancredo não era mais um cardeal da
oposição moderada, era o dono das chaves do segundo maior estado da
Federação. Não há testemunho de que, aos 72 anos, planejasse fazer do
palácio da Liberdade um trampolim para o Planalto. Uma candidatura à
Presidência exigiria que renunciasse ao mandato para ir buscar
aventurosamente a maioria num Colégio Eleitoral de maioria governista.
Pelas regras do jogo, o próximo presidente sairia do PDS. Poderia ser Paulo
Maluf, governador de São Paulo, Mário Andreazza, ministro do Interior, ou
mesmo o vice-presidente Aureliano Chaves. Se as regras fossem outras, sabese
lá quais, o PMDB teria seu candidato: Ulysses Guimarães"
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016.



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