"Passados doze anos, o Milagre se fora e, pior, a economia não podia ir. O país quebrara, chegando a ser necessário um telefonema de Figueiredo ao presidente Ronald Reagan, pedindo-lhe que o governo americano cobrisse a conta do Banco do Brasil em Nova York. Foi atendido e recebeu uma carta de Reagan, breve e direta: “Tenho a satisfação de lhe informar que conseguimos acomodar o assunto que discutimos recentemente. Isso foi conseguido no espírito de amizade que estou certo de que certamente será duradouro”. O general respondeu lembrando que “os problemas econômicos enfrentados pelo Brasil tem conotações globais e (...) a cooperação internacional é o melhor instrumento para a salvaguarda de interesses comuns”.2
(...)
Num truque eleitoral, o Planalto mudara a legislação, vinculando os votos de alto a baixo. Quem votasse num candidato a governador deveria votar na chapa do mesmo partido para senador, deputado federal e deputado estadual. Pensava-se que os candidatos mais próximos das bases eleitorais atrairiam as preferências para as escolhas majoritárias. Em alguns estados isso funcionou, em outros teve efeito contrário — os governadores puxaram os deputados estaduais. No balanço, produziu um desastre que o Planalto não previra. Diante da mudança, o Partido Popular extinguiu-se fazendo uma fusão com o novo PMDB e, com isso, a ele retornou Tancredo Neves. Perdeu-se a origem da ideia. Pela lógica, teria partido do Gabinete Civil. Sucessivas inconfidências atribuíram-na ao SNI.
Olhando-se para os grandes números, o regime saiu derrotado do pleito. A oposição recebera 25,3 milhões de votos em disputas pelos governos estaduais, contra 17,9 milhões dados ao PDS. Graças às manipulações, das eleições resultaram três situações. Na primeira, essencial para a manutenção do projeto de “conservarmos o poder efetivo até 1991”,4 o partido do governo preservou a maioria no Colégio Eleitoral que escolheria seu sucessor. Sozinho, teria a maioria dos 686 votos.5 Na segunda, manteve-se próximo da maioria no Congresso, com 235 das 479 cadeiras na Câmara, assegurando também o controle do Senado.6 Na terceira, pela primeira vez em dezoito anos,
governadores de partidos da oposição assumiriam, em março de 1983, a administração de dez estados. Entre eles, São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Rio de Janeiro. Das três novidades, essa era a única que mexia com o poder.
A eleição de dez governadores oposicionistas representou o fim do mais longo período de centralização administrativa da história republicana. Nesses estados concentravam-se 59% da população, 75% da produção nacional e 72% da arrecadação federal.7 Uma oposição que estivera amarrada à miséria de discretas doações amigas passaria a administrar orçamentos bilionários, bancos estaduais e grandes empresas estatais de energia e telefone. Os bancos dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais superavam em depósitos o Banco do Brasil. São Paulo era dono da VASP, a segunda maior empresa aérea do país. As verbas publicitárias controladas por esses governadores rompiam o monopólio da propaganda que ajudara a lustrar o regime."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016.
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