"A eleição de Tancredo estava assegurada. Ele tinha três problemas: a crise
econômica, com uma inflação que chegara a 224%; a dívida externa, de 91
bilhões de dólares; e o desconforto físico, o mesmo que sentira meses antes.
Da crise econômica, cuidaria pessoalmente. Para isso decidira colocar no
Ministério da Fazenda seu sobrinho, Francisco Dornelles. Conhecia-o desde
menino, nomeara-o para seu gabinete na Secretaria de Fazenda de Minas
Gerais aos 24 anos e levara-o para Brasília como seu secretário particular
quando se tornou primeiro-ministro. Dornelles chefiava a Receita Federal
desde 1979 e fora mantido no cargo por Delfim Netto, mesmo depois que se
tramou uma degola dos tancredistas em cargos importantes. Era o seu mais
categorizado intermediário para quaisquer conversas, sobretudo com
militares.
Na noite do Réveillon, Tancredo sentiu-se mal, e dias antes da eleição o
desconforto físico voltou. Teve febre e telefonou para o médico Garcia de
Lima, que lhe receitou o antibiótico Keflex por via oral. Dias depois, viu
Tancredo em Brasília, mas não conseguiu examiná-lo direito. Nem ele nem o
chefe do Departamento Médico da Câmara, Renault Mattos Ribeiro, que o
atendia há anos, a quem se queixou de uma dor na região pubiana.2
Homem de poucos gestos, Tancredo sentava-se de maneira esquisita,
como se estivesse reclinado. Agora mantinha a mão sobre a virilha direita,
como se pressionasse a barriga. Numa viagem a Porto Alegre, subiu as
escadarias do palácio Piratini amparado. No Rio, durante um breve percurso
até o automóvel, a cena repetiu-se. Como tinha o hábito de caminhar de
braço dado com outra pessoa, nada parecia haver de anormal. Paulo Maluf e o
SNI sabiam que sua saúde não ia bem, mas não sabiam exatamente o que ele
tinha.3 Nem ele.
(...)
No dia 15 de janeiro de 1985, em clima de comemorações semelhantes às das
vitórias da Copa do Mundo, Tancredo de Almeida Neves foi eleito presidente
da República. Derrotou Maluf por 480 votos contra 180. Depois de cinco
generais e duas juntas militares, estava acabada a ditadura e um civil
retornaria à Presidência da República. (O deputado José Camargo, que
apresentara uma emenda constitucional prorrogando o mandato de
Figueiredo, apoiara a candidatura de Andreazza e se passara para o bloco
malufista, votou em Tancredo.) Multidões foram às ruas e em Belo Horizonte,
num episódio que talvez nunca tivesse acontecido, bisou-se uma cantoria do
Hino nacional. Chovia em Brasília e centenas de pessoas abrigavam-se debaixo
de uma bandeira brasileira de 250 metros quadrados.4
Faltavam exatos dois meses para a posse e Tancredo ocupou-se por duas
semanas viajando pelo mundo. Viu o papa, o rei da Espanha, os presidentes de
Itália, França, Estados Unidos e Argentina, mais o poeta argentino Jorge Luis
Borges. Eram todas visitas ritualísticas. O choque veio no encontro com o
secretário de Estado americano, o empresário George Shultz. Tancredo já o
encontrara num amplo café da manhã realizado na embaixada brasileira.
Também havia conversado por meia hora com o presidente Ronald Reagan,
na Casa Branca. Até então, cumprira uma agenda banal. Reagan (74 anos dali
a cinco dias) e Tancredo (75 anos dali a um mês) chegaram a trocar piadas
sobre o presidente italiano Sandro Pertini (89 anos completos).5
(...)
Tancredo formou um ministério no qual se percebiam três eixos. No
primeiro, estavam os quatro ministros que, na sua maneira de ver, realmente
contavam. Colocou o general Leonidas Pires Gonçalves no Exército; Francisco
Dornelles na Fazenda; entregou o Gabinete Civil a seu amigo pessoal José
Hugo Castello Branco; e o Ministério da Justiça ao deputado Fernando Lyra.
No segundo eixo, pôs os aliados a quem devia o êxito da articulação que o
elegera. Aureliano Chaves foi para o Ministério de Minas e Energia, Antonio
Carlos Magalhães para o das Comunicações, o general Ivan de Souza Mendes
para o SNI e Olavo Setubal para o Itamaraty (uma surpresa para quem
esperava vê-lo no comando da economia). Compensou a escolha de ACM
dando duas pastas ao PMDB baiano; e a do banqueiro paulista, entregando a
pasta do Trabalho ao advogado Almir Pazzianotto, que surgira anos antes
como defensor e negociador dos metalúrgicos do ABC. Roberto Gusmão, o
secretário de Governo de Franco Montoro, que se tornara um de seus
principais articuladores, foi para a Indústria e Comércio. Era uma equipe que
tinha a marca das confianças e desconfianças de Tancredo. O senador
Fernando Henrique Cardoso, presidente do PMDB paulista, foi colocado num
lugar honroso, porém inexistente: o de líder do governo no Congresso.13
Em mais um movimento da coreografia de sua rivalidade com Ulysses
Guimarães, Tancredo assegurou-lhe a presidência da Câmara dos Deputados e,
consequentemente, a da Assembleia Nacional Constituinte, que logo seria
convocada. Isso e mais a manutenção da presidência do PMDB. O “Senhor
Diretas” tornava-se o político mais poderoso do país, depois dele.
A José Sarney coube apenas a Vice-Presidência. Ele absorveu sem
reclamação a escolha de Renato Archer, seu rival na política maranhense,
para a pasta de Ciência e Tecnologia. Absorveu até mais. No início de março,
recebera sua cota de convites para a posse e pedira um reforço. Foi-lhe
negado.14
Uma semana antes da festa da posse, sabia-se que Tancredo estava febril.
Tinha dores no abdômen e sua mulher contaria que “a coisa vinha e ia…”.15
Como sempre, ele não falava de sua saúde, não se queixava e não tinha
médico particular. Automedicava-se e, quando precisava, mantinha sua fé nos
antibióticos receitados por Garcia de Lima. Na manhã de 12 de março, terçafeira,
um colaborador viu que ele subia uma escada com alguma
dificuldade.16 À noite, Aécio Neves, secretário particular do avô, telefonou
para Renault Mattos Ribeiro, chamando-o à granja do Riacho Fundo. Seria um
resfriado, talvez gripe. Renault examinou Tancredo na manhã seguinte. Ao
apalpar-lhe a barriga, ele reagiu.
Nesse momento começou a construção de uma tragédia. Tancredo sabia
que o mal-estar, as febres ocasionais e as dores eram coisa velha e haviam sido
controlados com uma medicação paliativa. Faltavam 48 horas para a sua posse
e parecia razoável esperar. Segundo o depoimento de Renault, naquela manhã
ele advertiu que o problema era sério e talvez Tancredo devesse ser
internado.17 Combinaram que ele iria a um centro radiológico e faria exames
em segredo. Jornalistas perguntaram a Renault por que ele aparecera na
granja; ele disse que Tancredo tinha uma faringite.18 Era mentira. Horas
depois, quando o repórter Antônio Britto, porta-voz do futuro governo, foi
combinar a cobertura da reunião ministerial que deveria ocorrer no domingo,
ouviu de Aécio: “Fica quieto, mas pode ser que essa reunião não aconteça”.
Além disso, começou-se a trabalhar no enxugamento do discurso que
Tancredo faria ao ser empossado pelo Congresso.19
À noite, Tancredo e Renault saíram em segredo para os exames. A
radiografia mostrou que na barriga de Tancredo havia uma área inflamada,
com uma placa de pus.20 Concluiu-se que podia ser apendicite ou qualquer
outra coisa. Podia ser qualquer outra coisa, menos apendicite, pois Tancredo
tivera o apêndice extraído havia cinquenta anos.21
Procurou-se manter a notícia entre os familiares. Com isso, começou
também a blindagem do quadro clínico dentro do círculo de relações
profissionais de Renault. Na manhã de quinta-feira, o médico chamou ao seu
gabinete o cirurgião Pinheiro Rocha, seu colega de serviço. Mostrou-lhe o
hemograma de Tancredo: 13.400 leucócitos (um mau número, porém melhor
que os 18 mil de junho). Seguiram para o Riacho Fundo. O presidente eleito
estava deitado e piorara. Pinheiro Rocha disse-lhe que precisava ser operado
imediatamente, mas Tancredo insistia: só depois da posse.22 Às 19h30, a taxa
de leucócitos subiu para 15 mil. Por via das dúvidas, teve início uma operação
destinada a isolar um dos centros cirúrgicos do Hospital de Base de Brasília.
Haviam se passado 48 horas desde o momento em que Aécio Neves
telefonara a Renault informando-o de que o avô não se sentia bem. O
presidente eleito, com um quadro abdominal grave, preservava o sigilo de seu
estado mantendo-se sob os cuidados de um médico que o examinava com
regularidade, mas a quem não confiava seus padecimentos (o mal-estar de
junho só fora detalhado a Garcia de Lima, que, por sua vez, foi mantido fora
dessa crise). Renault já havia contado o segredo a Ulysses Guimarães, que
ficara em copas.23 Até então, para todos os efeitos, Tancredo continuava com
faringite. Guardadas as diferenças entre os dois casos clínicos, o sigilo e a
blindagem da equipe médica replicavam agosto de 1969, quando também se
passaram mais de 48 horas até que o marechal Costa e Silva, abatido por uma
isquemia cerebral, fosse examinado por um neurologista, no Rio de Janeiro.
Até o momento em que chegou ao Hospital de Base, Tancredo foi o agente
ativo da procrastinação que agravou seu estado. Costa e Silva, sem voz, foi um
agente passivo.
A blindagem do quadro clínico de Tancredo tinha uma origem e embutia
uma consequência. A origem estava na sua preocupação, ou de qualquer leigo
que lidasse com o problema, de aguentar até o fim da noite de sexta-feira,
quando já teria vestido a faixa presidencial. Ele aguentara as crises de junho e
de janeiro, poderia aguentar mais essa. Não se consultaram outros
especialistas e o cirurgião Pinheiro Rocha fez questão de escalar todos os
profissionais que porventura viessem a ser chamados.24
Nessas 48 horas Tancredo poderia ter recebido assistência e
aconselhamento de quaisquer médicos do país. Quanto ao sigilo, já se fora.
Durante uma festa, o professor João Leitão de Abreu soube que Tancredo
estava diante da possibilidade de uma “cirurgia iminente” e, ao voltar para
casa, avisou o presidente Figueiredo.25
Na manhã de quinta-feira, véspera da posse, os leucócitos de Tancredo
chegaram a 17 mil, mas manteve-se a sua programação oficial. Indo a uma
missa, teve dificuldade para se levantar do banco da catedral. Parecia cansado.
À sua esquerda, José Sarney observava-o e notou que ele se movia com
dificuldade, sobretudo ao ajoelhar-se para a comunhão. O vice-presidente
eleito fora avisado pouco antes por Renault de que Tancredo tomaria posse e
seria internado logo depois: “Dentro de uma semana ele estará muito bem. É
uma crise de apendicite”. Hipocondríaco e depressivo, Sarney estava com a
pressão a dezenove por dez e tomara um comprimido de Quinidine. Não
contou o segredo nem a Marly, sua mulher.26
(...)
O hospital transformou-se num pandemônio. Médicos desentenderam-se.
Tancredo deveria ser operado no segundo andar, mas acabou indo para o
centro cirúrgico do subsolo. O cirurgião teve que passar em casa porque
esquecera os óculos.30 A operação começou à 1h10 de sexta-feira e terminou
às 2h45. Na sala da cirurgia a equipe de dez médicos coabitava com pelo
menos seis curiosos, entre eles Antonio Carlos Magalhães, um senador e um
deputado (todos diplomados em medicina).31
Ao final, os médicos Renault, Pinheiro e Gustavo Arantes emitiram o
primeiro boletim oficial, anunciando que fora removido do intestino de
Tancredo um divertículo de Meckel, “com abscesso em formação”.32 Seria um
episódio menor, semelhante a uma apendicite, mas não era verdade. O
relatório da cirurgia informa que essa era uma hipótese entre três:
“Divertículo de Meckel? Leiomioma? Linfoma?”. Linfoma seria um câncer.
Leiomioma, um tumor benigno. Era um leiomioma, mas essa informação
obrigaria os médicos a usarem a palavra maldita: “tumor”. Ficou-se, assim,
benignamente, com um diagnóstico falso.33
Às 7h25, os mesmos médicos informaram que desde as 5h30 Tancredo fora
transferido para a sala de recuperação, “tendo conversado com os médicos que
o estão atendendo”.34 Nunca houvera faringite, não era possível que fosse
apendicite e o divertículo de Meckel fora uma precipitação inofensiva. Dessa
vez era uma mentira pior. Nas anteriores, mascarava-se um problema
relacionado com o diagnóstico. Agora, mentia-se a respeito da situação do
paciente no hospital.
Logo depois da cirurgia, Pinheiro e Renault estavam com a família de
Tancredo quando foram chamados pelo anestesista. O paciente tivera uma
parada respiratória. O relatório da Unidade de Terapia Intensiva informou
que, ao ser extubado, Tancredo tivera um colapso, “necessitando ser ventilado
por cerca de 30 minutos, quando voltou a respirar normalmente. (…) Deu
entrada na UTI às 5h10”.35 Essa seria a primeira complicação pós-operatória
de Tancredo, acompanhada pela primeira falsificação de seu quadro. A freira
Esther, sua irmã, madre superiora do Convento das Vicentinas do Rio e
enfermeira-chefe do hospital da ordem, disse a Francisco Dornelles: “Tancredo
morre”.36
* * *
Durante a madrugada de 15 de março de 1985, a restauração democrática
brasileira viveu sua maior crise e superou-a de maneira exemplar. Ao contrário
do que sucedera em agosto de 1969, quando o marechal Costa e Silva ficou
incapacitado e o país foi jogado num período de anarquia militar, todos os
personagens agiram buscando a normalidade, numa situação de inédita
anormalidade. Quem foi dormir cedo esperava assistir à posse de Tancredo às
nove da manhã, diante da nação em festa, da presença do vice-presidente dos
Estados Unidos e de dezenas de delegações estrangeiras. Quem acordou tarde
soube que José Sarney tomara posse. O país parou, acompanhando a agonia do
arquiteto da transição.
(...)
Figueiredo detestava Sarney e Aureliano, mas isso não era suficiente para
que se ausentasse do melhor momento de sua vida pública: a entrega do poder
a um civil. Em diversos momentos, o cavalariano estourado tomou, ou deixou
de tomar, decisões que corroeram sua biografia. Em sua última entrevista
como presidente, expôs a profundidade de seu ressentimento, que ia muito
além da malquerença a Sarney e Aureliano: “O povão que poderá me escutar
será talvez os 70% dos brasileiros que estão apoiando o Tancredo. Então desejo
que eles tenham razão, que o doutor Tancredo consiga fazer um bom
governo para eles. (...) Que ele dê a eles o que não consegui. (...) E que me
esqueçam”.42
Sarney foi empossado com toda a pompa. Terminara o maior processo de
conciliação da história nacional e na cena faltava Tancredo Neves, o sujeito
da frase, seu arquiteto e moderador. Pensava-se que deixaria o hospital nos
próximos dias. Até lá, o país seria dirigido por um presidente que não vivera,
nem viveria, um só dia na oposição.
O ministro da Fazenda, Francisco Dornelles, fora o chefe da Receita
Federal no governo que terminava. O das Relações Exteriores, Olavo Setubal,
era um banqueiro que governara a cidade de São Paulo e por pouco não
chegara a governador do estado. Os ministros de Minas e Energia (Aureliano
Chaves), da Educação (Marco Maciel) e das Comunicações (Antonio Carlos
Magalhães) haviam sido governadores de seus estados e dissociaram-se do
governo havia poucos meses. O dos Transportes, Afonso Camargo, há poucos
anos.
Os mais poderosos ministros militares, Leonidas Pires Gonçalves (Exército)
e Ivan de Souza Mendes (SNI), haviam sido oficiais diretamente envolvidos na
deposição de João Goulart e generais que nunca deixaram de defender a
máquina repressiva do regime. Um estudo do professor Ben Ross Schneider
mostraria que, num universo de 125 cargos relevantes da administração
federal, a taxa de sobrevivência dos quadros do governo de Figueiredo fora de
60%, a maior já registrada.43
A conciliação de Tancredo mudava o país quando era vista pelo outro lado,
o dos que militavam na restauração democrática. O ministro da Justiça
(Fernando Lyra) viera da ala mais combativa do MDB. Aluizio Alves
(Administração), José Aparecido de Oliveira (Cultura) e Renato Archer
(Ciência e Tecnologia) haviam sido cassados."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016. P. 315-327
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