segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A Construção de Tancredo - parte 1

"Diretas Já
A caciquia da oposição paulista estava na sala VIP do Aeroporto de Congonhas,
em São Paulo, a caminho de Maceió, onde seria sepultado o senador Teotônio
Vilela. O “Menestrel das Alagoas” fora um quadro liberal dentro da ditadura,
migrara para o PMDB e tornara-se um infatigável defensor da anistia, da
moratória da dívida externa e da eleição direta. À sua simpatia pessoal somara
uma comovente luta contra o câncer. Percorrera o país já sem cabelos,
apoiado numa bengala, visitando presídios, até a morte, em novembro de 1983.
Definia-se como “um doido manso que perdeu o rumo do hospício”.1 Numa
roda, estavam Lula e a cantora Fafá de Belém. Noutra, Ulysses Guimarães.
Quando o governador Franco Montoro chegou, Lula estendeu-lhe a mão sem
dirigir-lhe a palavra.2 Dias antes, o presidente do PT tentara assumir a
liderança da mobilização popular na campanha das diretas com um comício
na praça fronteira ao estádio do Pacaembu, em São Paulo. Em outra ocasião,
Lula reunira ali 100 mil pessoas.3 Agora, juntara uma plateia de 15 mil. Na
narrativa do repórter Ricardo Kotscho, “esperava-se chegar mais gente, não
chegava”.4 O PT mostrara a força de sua militância e também o limite de sua
capacidade de mobilização. Convidado, Montoro não fora ao comício,
preferindo ficar no Jockey Club para ver o páreo do prêmio Governador do
Estado. Pudera. Pelo rádio era informado de que seu nome e o de seu partido
eram sistematicamente vaiados.5
Se o Planalto e o PDS estavam estilhaçados e sem comando, o PMDB
unira-se. Graças à coreografia da rivalidade de Ulysses com Tancredo, o
partido entrara na campanha pelas diretas com lideranças intercambiáveis.
Ulysses acreditava que conseguiria aprovar a emenda Dante de Oliveira e,
nesse caso, seria o candidato do partido à Presidência. Tancredo duvidava do
futuro da emenda. Calculava que a oposição poderia contar com cinquenta
votos da bancada do governo, mas precisava de pelo menos oitenta dissidentes
para chegar aos dois terços exigidos às emendas constitucionais. Olhava
adiante, para o Colégio Eleitoral de 686 votos, onde a maioria elegeria o
próximo presidente.
(...)
Na véspera do comício do Pacaembu, Franco Montoro reunira-se com seis
governadores e lançara sua campanha pela eleição direta. Tivera um forte
estímulo. A imprensa acompanhava a proposta com ceticismo em relação à
sua viabilidade ou mesmo com desconfiança, pela possibilidade de uma vitória
de Leonel Brizola. Essa armadura fora rompida em dezembro. Octavio Frias de
Oliveira, dono da Folha de S.Paulo, decidiu jogá-la na campanha pelas diretas. O
jornal já endossara a ideia havia alguns meses, com um editorial curto, quase
rotineiro, na segunda página.8 Na edição do domingo, 18 de dezembro (cerca
de 250 mil exemplares de tiragem), publicou outro, no alto de sua capa.
Perguntava: “Como explicar a letargia vergonhosa na qual afundam as
oposições, paralisadas entre as ideias e as vantagens, incapazes de traduzir
palavras em atos?”.9 A Folha lançara-se numa campanha que marcaria sua
história. Não se tratava mais de noticiar os fatos do dia, mas de lutar pela ideia.
Desde o dia 2 de dezembro, o jornal publicava no alto da primeira página um
texto curto (com foto) de alguma personalidade defendendo a eleição direta.
Começou com o jurista Gofredo da Silva Teles. Seguiram-se o cantor Gilberto
Gil, a modelo Bruna Lombardi, o presidente da Volkswagen, Wolfgang Sauer, o
escritor Gilberto Freyre, o cantor Erasmo Carlos, o palhaço Arrelia e até
mesmo Plínio Correa de Oliveira, fundador da organização católica Tradição,
Família e Propriedade. Na edição de 24 de dezembro, um Papai Noel.10 Em
janeiro, a Folha deu outro passo, publicando com frequência o Roteiro das
Diretas, um calendário de eventos da campanha, à semelhança das
programações de cinemas e teatros. Num só dia, listou vinte eventos
organizados para o mês em onze estados, indicando o nível de organização
que o PMDB dera à campanha. Ulysses iria a oito capitais e Montoro
compareceria a dez manifestações em municípios paulistas.11
O primeiro grande comício aconteceu em Curitiba. Juntou 50 mil pessoas
(5% da população) em clima de festa.12 Dos prédios do Centro da cidade caíam
papéis picados. Antes do meio-dia, as barraquinhas que vendiam material de
propaganda esgotaram o estoque de camisetas com o slogan da campanha:
“Diretas Já”. No palanque, Ulysses, Tancredo e o governador José Richa.
Faltavam Lula e Brizola, mas lá estavam astros de novelas, como Raul Cortez e
Dina Sfat, a linda atriz de Macunaíma. O apresentador do comício era Osmar
Santos, cuja voz confundia-se com a narração das grandes partidas de futebol.
Entre um discurso e outro, Carmen Costa cantou Carinhoso. O comício
acabou e o festejo continuou.13
Tancredo dissera em Curitiba que “a oportunidade do consenso já passou
há muito”, mas de Porto Alegre telefonou para Aureliano Chaves
cumprimentando-o por seu aniversário.14 Naquele dia, conversara com
Ulysses Guimarães no avião, informando-o de que se a emenda Dante de
Oliveira não passasse iria para o Colégio Eleitoral, nem que fosse para ter só
um voto.15
Em Salvador, Caetano Veloso e Gonzaguinha estiveram no palanque com
Ulysses, Tancredo e o ex-governador Roberto Santos, do PDS. Seguiram-se
manifestações em Vitória, Campinas e Rio Claro (SP). No Rio, realizou-se
apenas uma passeata, pela orla da praia. Coisa pequena para a tradição da
cidade.16 O governador Leonel Brizola saudou-a da janela de seu
apartamento, na avenida Atlântica, em Copacabana.
(...)
O apoio da população, medido pelo Instituto Gallup numa pesquisa
realizada em 185 cidades de 21 estados, chegara a 81%, contra 63% em 1980.18
Desde as primeiras mobilizações, nove comícios e passeatas haviam reunido
mais de 100 mil pessoas.19 O comício de São Paulo foi organizado por uma
comissão que coordenou uma equipe de sessenta pessoas, socorrida por cinco
agências de publicidade que firmaram a cor da campanha (amarelo) e seu
slogan (“Eu quero votar pra presidente”).20 Um laboratório distribuíra
adesivos e a rede de supermercados Carrefour anunciava suas “Diretas 84”,
uma “linha direta com o preço baixo”.21 O palácio dos Bandeirantes articulou
a adesão de 514 prefeitos e a organização de caravanas.22 Trens e metrô grátis,
quatrocentos policiais para proteger os manifestantes.23 A Paulistur instalou
duzentos alto-falantes.24 Foram espalhados pela cidade 1 milhão de cartazes e
5 milhões de panfletos.25 Pensou-se em tudo, até em evitar que os petistas
vaiassem Montoro. Para isso, combinaram que o governador subiria ao
proscênio ao lado de Lula.26 Alguns grupos chegaram na noite anterior para
ocupar os melhores lugares e o PC do B veio de madrugada, com trezentas
bandeiras vermelhas.27
Faltavam duas horas para o início da manifestação e já havia 50 mil
pessoas diante do palanque de 120 metros quadrados construído na escadaria
da Sé.
Chico Buarque de Hollanda cantou Apesar de você acompanhado pela
multidão. Fernanda Montenegro pediu a Figueiredo “anistia total para o povo
através das diretas”, entregou o microfone e foi chorar no fundo do palanque.
Estava todo mundo lá: Leonel Brizola, que meses antes apoiara a reeleição do
general Figueiredo, e alguns representantes do PDS. Moraes Moreira, com seu
“Frevo das diretas”, Milton Nascimento, Sonia Braga, Gilberto Gil e Regina
Duarte. Pelos prefeitos do PT falou o de Diadema, Gilson Menezes. Sete anos
antes, ele parara a Scania e no dia 1o de maio de 1968, naquela mesma praça,
ajudara a destruir o palanque de um comício armado em condomínio com o
Partido Comunista pelo governador Abreu Sodré. A esquerda brasileira, que se
dividira naquela ocasião, unira-se na Sé e, pela primeira vez em décadas,
juntara-se ao povo. Era a mesma praça onde, em 1975, um dispositivo da PM
procurara intimidar quem ia ao culto ecumênico pela memória de Vladimir
Herzog, assassinado no DOI do II Exército.
(...)
Tudo continuava na mesma. Figueiredo não se mexia, Maluf não recuava,
Andreazza sinalizava que não o apoiaria e Aureliano não apoiaria nenhum dos
dois. O Planalto costurava um impasse, mas Tancredo Neves costurava uma
solução. No início de março de 1984 ele já dissera a Thales Ramalho que
disputaria no Colégio Eleitoral. Para uma raposa como o deputado
pernambucano, isso não era novidade, mas a clareza permitia-lhe levar a
confidência ao professor Leitão de Abreu, com quem conversava
frequentemente. Daí a Figueiredo, bastava um passo.45
Se a emenda Dante de Oliveira fosse barrada, tanto Aureliano quanto os
governistas que não aceitavam Maluf disporiam de um nome de consenso, o
de Tancredo.46 O secretário-geral do PMDB, Afonso Camargo, atravessou a
praça dos Três Poderes e foi ao chefe do Gabinete Militar, general Rubem
Ludwig. À saída, disse que a aprovação da emenda era “quase impossível”, pois
se passasse na Câmara, cairia no Senado. (Aritmeticamente, sua conta estava
certa, mas a tradição ia na direção oposta.) Ulysses, ao saber do encontro,
calou-se.47 A esse movimento da mão direita de Tancredo correspondeu
outro, com a esquerda. Encontrou-se com Miguel Arraes e, ao fim da
conversa, ficou entendido que o PMDB voltara a ser o partido dos dois."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016. P. 283-291

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