"A hora de Tancredo
Tudo se acabou na quarta-feira, 26 de abril. Votada noite adentro, faltaram 22
votos à emenda Dante de Oliveira e ela foi ao arquivo. Tivera 298 votos, 54
deles vindos do PDS. Para evitar marchas e comícios em Brasília, Figueiredo
colocara a Capital Federal sob medida de emergência, proibindo manifestações
e censurando as transmissões de rádio e televisão a partir da cidade.
Novamente, coube ao general Newton Cruz comandar a tropa.
Frustrando milhões de pessoas, a derrota da emenda somou-se à ruína
econômica e às divisões irremediáveis ocorridas no arco de interesses formado
em 1964. O projeto de “conservarmos o poder até 1991” estava condenado.1
Essa circunstância podia ser percebida na reação do general Geisel diante da
fotografia da multidão na Candelária: “Eu me rendo”.2 Tomadas ao pé da letra,
as três palavras poderiam dar a impressão de que o ex-presidente aceitava a
eleição direta. Não era o caso. Até o fim de seus dias ele foi um adversário
renitente do sufrágio universal para a escolha dos governantes, em qualquer
país, em qualquer época. Geisel capitulava em relação ao projeto de poder. Ele
sabia que dificilmente Aureliano venceria a convenção do PDS e que a
estação seguinte chamava-se Tancredo Neves. Não a apoiava, apenas a
aceitava, rendendo-se.
A mesma aritmética que prenunciara a derrota da emenda apontava para
a possibilidade de vitória de um candidato da oposição no Colégio Eleitoral. Lá,
bastaria uma dissidência muito menor que aquela verificada na votação da
Dante de Oliveira e Tancredo seria o novo presidente da República. Para isso,
duas condições eram necessárias: o governo devia continuar dividido e a
oposição, unida. Aconteceram as duas. Na volta da viagem em que
acompanhara o marido ao Marrocos e à Espanha, Dulce Figueiredo negou o
cumprimento a Vivi Chaves, mulher do vice-presidente.3 O distanciamento
entre o general e seu vice tornara-se perigosamente pessoal. O apoio de
Figueiredo a Aureliano ficava implausível e o de Aureliano a Maluf, impossível.
Restava, enfraquecida, a candidatura de Mário Andreazza. Antonio Carlos
Magalhães, seu principal articulador, percorreu as poucas centenas de metros
da avenida Atlântica que separavam seu hotel do edifício onde vivia Tancredo
Neves. A agenda do encontro foi prática:
Tancredo: “Se eu contar com o apoio da Bahia, largo o governo e saio
candidato à Presidência”.
ACM: “Se Andreazza perder a convenção, você terá o meu apoio”.4
Na véspera da votação da emenda Dante de Oliveira, Figueiredo dissera a
um deputado que “Tancredo Neves é um nome confiável para a conciliação
nacional”.5 Fiel ao seu estilo, o presidente patrocinava também uma emenda
constitucional tornando direta uma eleição presidencial que seria realizada
em 1988. Até lá, o país seria governado por um presidente eleito pelo Colégio.
Para o senador José Sarney, presidente do PDS, a situação era clara: “O
candidato do Figueiredo é ele mesmo. Ele brigou com Aureliano, não ajuda o
Andreazza, tem horror ao Maluf. (…) Quem sobra? Ele”.6
Ao saber que Tancredo emergia como o grande negociador de uma
transição, Lula atacou a ideia: “A proposta de Tancredo não é de governo de
transição coisa nenhuma. É uma proposta de transação”.7 Por coincidência,
colocara no debate a palavra trazida para o léxico político nacional em 1855
pelo deputado e jornalista Justiniano José da Rocha (1811-1862), num panfleto
intitulado “Ação; Reação; Transação”. Ele exaltava a política de conciliação do
marquês de Paraná, que tirava o Império do ferrolho das paixões da Regência:
“Na luta eterna da autoridade com a liberdade, há períodos de ação, períodos
de reação, por fim períodos de transação em que se realiza o progresso do
espírito humano e se firma a conquista da civilização”.8
Lula tinha razão, começara a transação. Tancredo era um admirador de
Paraná e de sua conciliação, mas a transação dependia da divisão irremediável
do governo. Sarney garantira a Heitor Ferreira que Aureliano romperia com o
PDS, retirando sua candidatura.9 [Veja o documento] Se isso acontecesse, o
passo seguinte seria dar seu apoio a Tancredo.
Sarney tentou evitar que isso acontecesse propondo uma prévia dentro do
PDS. Votariam dirigentes municipais, estaduais e federais, além de vereadores,
prefeitos e parlamentares, algo como 80 mil pessoas.10 Era provável que
Aureliano prevalecesse. O presidente do PDS conversou com Leitão de Abreu e
teve o sinal verde de Figueiredo.
(...)
Tancredo estava febril havia uma semana. Quando Garcia de Lima o
examinou, tinha uma temperatura de quarenta graus. Prescreveu-lhe uma
injeção (aplicada por Risoleta) e combinaram que no dia seguinte ele faria
alguns exames. O hemograma mostrou que sua taxa de leucócitos estava em
18 mil (o triplo do normal), com desvio para a esquerda, apontando para uma
infecção bacteriana. Tinha sangue e pus na urina e a ausência de cólicas
indicou tratar-se de uma infecção urinária. O médico receitou-lhe oitenta
miligramas de garamicina a cada oito horas.20
Na história nacional houve momentos em que atitudes individuais mal
calculadas provocaram resultados imprevistos e desastrosos. Em maio de 1945,
Getulio Vargas estimulou o “queremismo”, que lhe permitiria ser candidato à
própria sucessão, disputada por um general e um brigadeiro. Cinco meses
depois foi deposto pela tropa. Em 1961, Jânio Quadros renunciou à Presidência
julgando ser impossível que se desse posse ao vice-presidente, João Goulart.
Aconteceu exatamente isso. A persistência com que Figueiredo permitiu que
continuasse no baralho a carta de sua prorrogação repetiu esse tipo de
comportamento. Ele queria ser a crise e seu remédio. Para isso não tinha a
rua, que pedira a eleição direta, como não tinha a convenção do PDS,
controlada por Maluf. Também não tinha a máquina. “Se tivéssemos um
pouco de governo, ainda faríamos alguma coisa. Mas está a zero”, dizia Delfim
Netto.21
Talvez tivesse a tropa. Também não. Geisel encontrara-se com Aureliano
Chaves no apartamento do ex-ministro Armando Falcão. Na cena, o exministro
da Justiça incluiu dois expressivos figurantes. Estavam lá, apenas
para mostrar que lá estavam, Roberto Marinho, o dono das Organizações
Globo, e o general Reynaldo Mello de Almeida. Velho amigo de Geisel, dos
tempos de tenente, fora comandante do I Exército durante seu governo e
operador militar nas horas tensas da queda do ministro Sylvio Frota, em 1977.
Um emissário de Aureliano já procurara dois generais do Alto-Comando do
Exército. Eram Leonidas Pires Gonçalves e Ivan de Souza Mendes. Um
comandava o III Exército, a poderosa guarnição do Sul, cuja definição pela
posse de Jango determinara o desfecho da crise de 1961; o outro estava numa
diretoria burocrática de Brasília.
Leonidas tinha uma biografia típica da anarquia militar do século XX.
Ainda tenente, em 1945, acompanhara o general Álcio Souto na cena final da
deposição de Getulio Vargas. Durante a crise da renúncia de Jânio, Leonidas e
Ivan eram majores na Casa Militar, comandada por Geisel, de onde
interceptavam ligações telefônicas para João Goulart.22 Em 1964, dias antes da
assembleia de sargentos no Automóvel Clube, ambos foram ao apartamento
do general e propuseram-lhe um plano para impedir a reunião, bloqueando
ruas e retendo militares nos quartéis. O general recusou a oferta, pois achava
melhor que a reunião se realizasse e que Jango comparecesse.23 Na nova
ordem, Ivan viu-se nomeado prefeito de Brasília, cargo que logo abandonou,
pois não queria se meter em política.24 Diferiam no temperamento. Ivan era
retraído, modesto, homem de gabinete. Leonidas era um general de filme.
Num Exército onde a média faz a fama, ofendia-a pela estampa e pelo
desembaraço. Era considerado um oficial vaidoso. Golbery justificava-o: “É um
homem bonito, bem casado com uma mulher bonita. Se não fosse vaidoso
seria burro”.25
Ivan chefiara o gabinete de Geisel na Petrobras e de lá fora para o de seu
irmão, Orlando Geisel, no Ministério do Exército. Em 1974, Leonidas
comandara o Estado-Maior de Reynaldo Mello de Almeida. Ambos conviveram
com a máquina repressiva. Ivan, no comando da Região Militar do Pará,
assistira a operação de queima de arquivo da guerrilha do Araguaia. Leonidas,
no Rio, tivera o DOI da Barão de Mesquita sob sua jurisdição. Ambos sabiam o
que acontecia no porão e entendiam que os militares estavam numa batalha.
Ivan diria que “ou a gente acabava com os comunistas ou eles acabavam com
a gente”.26 Leonidas defenderia o aparelho repressivo lembrando que o surto
terrorista das organizações armadas pretendia transformar o Brasil num
“Cubão”.27
(...)
Tancredo tinha a rua e o PMDB. Seis dos sete governadores do PDS já
haviam anunciado que não apoiariam Maluf.30 Nos cálculos de Aureliano, o
partido do governo tinha sessenta dissidentes.31 Haviam se fechado duas
contas. Maluf mostrava-se imbatível na convenção do PDS e Tancredo
tornara-se imbatível no Colégio Eleitoral. Em poucos meses, sem sair do lugar,
o governador de Minas tornara-se o candidato de todos. Quando Aureliano
encontrou-se com Geisel, tinha no bolso uma carta de Tancredo
comprometendo-se a formar um governo com representação de todas as
forças que o apoiassem.32 O ex-presidente foi a Brasília, numa derradeira
tentativa para conseguir uma definição de Figueiredo. Conversaram por três
horas, e nada.33 Informado por Leitão de Abreu que Maluf não desistiria,
Aureliano telefonou para Tancredo: “Nossa aliança está selada. O vice em sua
chapa será o Sarney”.34
Para quem combatera o regime, e mesmo para quem fora para a rua pelas
diretas, a dose era cavalar. Tancredo colheria o vice no jardim da ditadura. A
biografia de Sarney não tinha momentos de independência, como os do
senador Daniel Krieger em 1968, mostrando a Costa e Silva que conduzia o país
para um confronto institucional, nem de expresso abandono dos “escrúpulos
de consciência”, como Jarbas Passarinho durante a reunião que baixou o AI-5.
Chegara ao Congresso na década de 1950 com apenas 25 anos. Suave nos
modos, culto, inesquecível pelos enormes bigodes. Por pouco não fora ministro
da Educação de Jango.35 Em 1965 elegera-se governador do Maranhão,
encarnando um sentimento de renovação. (Sua posse foi filmada num
documentário dirigido por Glauber Rocha.) Amigo de escritores, tinha uma
cadeira na Academia Brasileira de Letras e cometia seus próprios poemas e
contos. (“De repente o tempo estava podre e tinha cheiro de garapa”, escreveu
em Marimbondos de fogo.)36 Quando prevalecia, orgulhava-se de ser um bom
político; quando fracassava, atribuía a ruína ao poeta que tinha na alma. Em
1974 estivera praticamente escolhido para governar de novo o estado, mas fora
abatido em voo pelo general Milton Tavares de Souza. Geisel não o estimava,
Golbery não lhe dava importância, Petrônio Portella não lhe fazia
confidências.
Sarney era um renitente coadjuvante. Jamais se afastara do governo, mas
mantinha-se longe de suas crises. No dia 11 de outubro de 1977, quando estava
claro que Geisel e o general Sylvio Frota iam para um choque, dizia apenas
que “um dos dois vai ter que sair”. Frota saiu no dia seguinte.
Mestre das pequenas gentilezas, operava na máquina do poder. No início
do governo de Figueiredo, propusera que a presidência da Arena controlasse
um banco de dados com todos os pedidos de parlamentares atendidos pelo
governo.37 Meses antes da eleição de 1982, a título de “lembrança”,
encaminhara a Leitão de Abreu uma proposta audaciosa: “Um congelamento
de preços por determinado período, de modo efetivo e punitivo”.38 [Veja o
documento]
Não havia motivo para malquerê-lo, mas também não havia motivo para
querê-lo. Tinha uma panela em cada boca do fogão. Opusera-se à emenda das
diretas, mas seu filho votara a favor.39 O deputado malufista Edison Lobão,
sua cria na política maranhense, contra. Enquanto Maluf crescia, não o
hostilizava. Dias depois da sua unção para a vice, posou para a capa da revista
Veja tendo ao fundo uma fotografia de Tancredo Neves ao estilo dos retratos
oficiais que se veem em repartições públicas.40 Anos antes, quando o senador
Teotônio Vilela lhe disse que deixaria o partido do governo, indo para o PMDB,
classificou o gesto de “um ato de boemia intelectual”.41 Deu o mesmo pulo,
sem poesia. Considerando-se a desimportância do cargo, Sarney não
incomodava. Representava como ninguém a essência unificadora da
candidatura de Tancredo: o ex-presidente do partido do governo na Vice-
Presidência da chapa da oposição."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016. P. 293-303
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