"GEISEL, GOLBERY E FIGUEIREDO
JANEIRO Figueiredo submete-se a uma cirurgia da coluna no Rio. Não passa
o cargo a Aureliano Chaves. Restabelecendo-se, posa para uma fotografia no
jardim da casa de saúde, prostrado. Tancredo vai visitá-lo. Geisel não vai.
Golbery diz que não procura Geisel. Argumenta que mesmo não tendo
apoiado Tancredo abertamente, Geisel será responsável pelo que vier a
acontecer: “Se der certo, muito bem, os louros irão para ele, mas se houver
um desastre, não é justo que venha dizer que nada tinha a ver com isso”.
Numa entrevista, Figueiredo pede aos 70% dos brasileiros que apoiam
Tancredo (“o povão”) “que me esqueçam”.
José Sarney, vice-presidente eleito, encontra-se com Geisel.
MARÇO Com Tancredo internado, Figueiredo recusa-se a passar a faixa
presidencial a José Sarney, deixa o palácio por uma porta lateral, pega o avião e
vai para o apartamento de um amigo no Rio.
Numa conversa, Figueiredo prevê que se Tancredo não resistir “Sarney não
governa” e o desfecho seria o retorno dos militares ao poder.
ABRIL Durante o velório de Tancredo no palácio do Planalto, Geisel e Ulysses
Guimarães cumprimentam-se. Figueiredo não comparece.
Com o fim da ditadura, Geisel, Golbery e Figueiredo afastam-se da vida
pública.
POLÍTICA
JANEIRO Na madrugada da ceia do Réveillon, Tancredo sente-se mal. Sua
irmã, a religiosa Esther, diz que ele precisa ver um médico. Ele responde: “O
SNI vai saber e vão aproveitar”. Dias depois fica febril, liga para seu médico
mineiro e pede um antibiótico oral.
Tancredo Neves é eleito presidente da República por 480 votos contra 180
de Paulo Maluf. Cita o poeta francês Verlaine e diz que recebe a vitória “com
êxtase e terror”. Realizam-se comícios-festas em várias cidades.
Tancredo diz ao médico Renault Mattos Ribeiro que sente dores na virilha.
Tancredo embarca para uma viagem para Itália, França, Portugal, EUA,
México e Argentina. Durante sua passagem por Washington, tem uma dura
conversa com o secretário de Estado, George Shultz. Diz que pretende fazer
um governo de austeridade, honrando os compromissos do país, mas se os
bancos se fecharem as consequências serão imprevisíveis.
MARÇO Tancredo Neves deverá tomar posse no dia 15, uma sexta-feira. No
dia 12, seu estado de saúde se agrava. Na noite de 14, é levado às pressas para o
Hospital de Base, em Brasília, e é submetido à primeira cirurgia.
José Sarney é empossado na Presidência da República, com o ministério de
Tancredo.
No dia 20, Tancredo passa por uma nova cirurgia. Uma semana depois, posa
para uma foto num cenário maquiado. No dia seguinte, é transferido para São
Paulo e vai para a terceira cirurgia.
O Alto-Comando do Exército caroneia o general Newton Cruz na lista de
promoções à quarta estrela e ele é transferido automaticamente para a
reserva.
ABRIL No dia 2, ocorre a quarta cirurgia de Tancredo. Até o dia 12, mais três.
Em 21 de abril, Dia de Tiradentes, é anunciada a morte de Tancredo Neves.
Depois de ser velado em Brasília e Belo Horizonte, ele é sepultado em São João
del Rei (MG).
AGOSTO A deputada Bete Mendes acusa o coronel Carlos Alberto Brilhante
Ustra de tê-la torturado no DOI de São Paulo. O ministro do Exército, general
Leonidas Pires Gonçalves, informa que mantém sua confiança em Ustra.
OUTUBRO Morre o ex-presidente Médici.
ECONOMIA E SOCIEDADE
JANEIRO Realiza-se o primeiro show Rock in Rio.
O FMI diz que não discutirá com o governo brasileiro a sua sétima carta de
intenção. Prometia 60% de inflação no ano.
Em sua primeira entrevista coletiva como presidente eleito, Tancredo diz
que dívida “se paga com dinheiro, não se paga dinheiro com fome, miséria e
desemprego”.
FEVEREIRO O diretor-geral do FMI congela os entendimentos com o Brasil.
Em visita ao Brasil, o banqueiro americano David Rockefeller visita
Tancredo e responde à sua frase sobre a dívida externa: “Dívida é dívida e seu
conceito não varia”.
MARÇO Num dos primeiros atos do novo governo, o Banco Central intervém
no Grupo Brasilinvest, do paulista Mario Garnero. Ele fora um dos mais
destacados líderes empresariais da ditadura.
ABRIL O ministro da Fazenda, Francisco Dornelles, reabre as negociações da
dívida externa com o FMI e os bancos. Ela está em US$ 103 bilhões.
No circuito do Estoril, em Portugal, Ayrton Senna consegue sua primeira
vitória na Fórmula 1.
JUNHO Estreia na TV Globo a novela Roque Santeiro, de Dias Gomes. Ela fora
vetada pela Censura em 1975.
Identificados os restos mortais do criminoso nazista Josef Mengele. Ele
morrera em 1979 em São Paulo e fora sepultado com a identidade falsa com
que vivia.
JULHO O Peru decreta moratória de sua dívida externa.
AGOSTO Francisco Dornelles deixa o Ministério da Fazenda e Sarney coloca
em seu lugar o empresário Dilson Funaro.
NOVEMBRO Jânio Quadros é eleito prefeito de São Paulo, derrotando
Fernando Henrique Cardoso.
DEZEMBRO O ministro Dilson Funaro indica aos bancos credores que o Brasil
pode entrar no caminho da decretação de uma moratória. Em fevereiro de
1986 cumpriria a promessa.
O ano termina com a inflação (IGP-DI) em 235% e o PIB cresce 7,85%."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016.
Personagens do Brasil
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017
1984
"JANEIRO A Folha de S.Paulo começa a publicar a programação da campanha das Diretas. Só para janeiro anuncia vinte eventos. Leitão de Abreu prevê a derrota de Maluf no Colégio. Comício das Diretas em Curitiba. Grande comício das Diretas na praça da Sé, em São Paulo.
FEVEREIRO Comício em Belo Horizonte.
ABRIL Comício das Diretas no Rio. A multidão canta Caminhando, música proibida em 1968.
Comício no Anhangabaú, em São Paulo, o maior da história. No Brasil, estima-se que 4 milhões de pessoas já tenham ido às ruas pedindo eleições
diretas. Brasília é colocada sob o regime de medidas de emergência. Suspende-se
direito de reunião e impõe-se censura parcial à imprensa. O comandant
militar do Planalto, general Newton Cruz, bota sua tropa na rua e sai
montando um cavalo branco.
Numa sessão que durou dezessete horas, a Câmara rejeita a emenda Dante
de Oliveira. Tem 298 votos, mas faltam-lhe 22.
MAIO Antonio Carlos Magalhães diz a Tancredo que se Maluf ganhar a
convenção do PDS ele o apoia no Colégio Eleitoral.
A campanha das Diretas-Já transforma-se em Tancredo-Já.
Tancredo anuncia que disputará a Presidência.
A convenção do PDS escolhe Paulo Maluf. Derrotado, Andreazza não o
apoia, e Antonio Carlos Magalhães, seu principal articulador, embarca na
candidatura de Tancredo.
SETEMBRO Tancredo encontra-se com o ministro do Exército, general
Walter Pires.
OUTUBRO Tancredo diz que teme um golpe, “gesto inconsequente desse
general Newton Cruz”.
NOVEMBRO Tancredo é avisado de que o general Newton Cruz perderá o
comando da tropa de Brasília.
O Tribunal Superior Eleitoral decide que na eleição presidencial de janeiro
os delegados não estarão presos à fidelidade partidária. É o fim de Maluf.
DEZEMBRO Novo comício na praça da Sé. Festeja-se antecipadamente a
vitória de Tancredo. Na ponta do lápis, ele já tem maioria no Colégio Eleitoral.
O poderoso empresário Antonio Gallotti, um dos fundadores do IPÊS, na
noite do Réveillon: “É uma sorte que depois de vinte anos a gente saia dessa
com o Tancredo”."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016
FEVEREIRO Comício em Belo Horizonte.
ABRIL Comício das Diretas no Rio. A multidão canta Caminhando, música proibida em 1968.
Comício no Anhangabaú, em São Paulo, o maior da história. No Brasil, estima-se que 4 milhões de pessoas já tenham ido às ruas pedindo eleições
diretas. Brasília é colocada sob o regime de medidas de emergência. Suspende-se
direito de reunião e impõe-se censura parcial à imprensa. O comandant
militar do Planalto, general Newton Cruz, bota sua tropa na rua e sai
montando um cavalo branco.
Numa sessão que durou dezessete horas, a Câmara rejeita a emenda Dante
de Oliveira. Tem 298 votos, mas faltam-lhe 22.
MAIO Antonio Carlos Magalhães diz a Tancredo que se Maluf ganhar a
convenção do PDS ele o apoia no Colégio Eleitoral.
A campanha das Diretas-Já transforma-se em Tancredo-Já.
Tancredo anuncia que disputará a Presidência.
A convenção do PDS escolhe Paulo Maluf. Derrotado, Andreazza não o
apoia, e Antonio Carlos Magalhães, seu principal articulador, embarca na
candidatura de Tancredo.
SETEMBRO Tancredo encontra-se com o ministro do Exército, general
Walter Pires.
OUTUBRO Tancredo diz que teme um golpe, “gesto inconsequente desse
general Newton Cruz”.
NOVEMBRO Tancredo é avisado de que o general Newton Cruz perderá o
comando da tropa de Brasília.
O Tribunal Superior Eleitoral decide que na eleição presidencial de janeiro
os delegados não estarão presos à fidelidade partidária. É o fim de Maluf.
DEZEMBRO Novo comício na praça da Sé. Festeja-se antecipadamente a
vitória de Tancredo. Na ponta do lápis, ele já tem maioria no Colégio Eleitoral.
O poderoso empresário Antonio Gallotti, um dos fundadores do IPÊS, na
noite do Réveillon: “É uma sorte que depois de vinte anos a gente saia dessa
com o Tancredo”."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016
Os Ministros de Tancredo
Francisco Dornelles deixou a Fazenda cinco meses depois. Mais tarde foi ministro da Indústria e Comércio e do Trabalho. Elegeu-se senador em 2007 e vice-governador do Rio de Janeiro em 2014. Olavo Setubal saiu do Itamaraty em 1986 e voltou a comandar o banco Itaú. Morreu em 2008, aos 85 anos. Sob a direção de seu filho Roberto, o Itaú tornou-se o maior banco privado do país.
Fernando Lyra ficou menos de um ano no Ministério da Justiça. Elegeu-se deputado federal. Publicou um livro de memórias (Daquilo que eu sei — Tancredo e a transição democrática) e morreu em 2013.
Waldir Pires deixou o Ministério da Previdência em 1986 para disputar o governo da Bahia. Venceu, mas renunciou ao cargo, candidatando-se à Vice- Presidência da República na chapa de Ulysses Guimarães, em 1989. Deixou o PMDB e disputou em 2002, sem sucesso, uma cadeira no Senado pelo PT. Com a eleição de Lula, em 2002, foi nomeado para a chefia da Controladoria- Geral da União e para o Ministério da Defesa.
Pedro Simon ficou no Ministério da Agricultura até 1986, quando disputou o governo gaúcho, com sucesso. Tornou-se um dos líderes do PMDB, elegendose quatro vezes senador. Deixou a vida parlamentar em 2015. Roberto Gusmão, que fora um dos principais articuladores da campanha de Tancredo em São Paulo, deixou o Ministério da Indústria e Comércio em 1986 e voltou para São Paulo, onde passou a dividir seu tempo com a fazenda Santa Ignácia, em Ribeirão Preto.
O general Leonidas Pires Gonçalves permaneceu no Ministério do Exército durante todo o governo de Sarney. Manteve os quartéis em ordem, encerrando um período de anarquia militar iniciado com as revoltas do final do século XIX. Tornou-se o mais graduado defensor do aparelho repressivo da ditadura e, em 2014, encabeçou um manifesto de 27 generais de exército, todos da reserva, contra os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade. Morreu em 2015, aos 94 anos. Seu colega Ivan de Souza Mendes ficou na chefia do Serviço Nacional de Informações até 1990. Morreu em 2010, aos 87 anos. Numa de suas raras entrevistas, defendeu o governo de Lula. (O SNI foi extinto no início do governo Collor.)"
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016. p. 356-357.
Os políticos - continuação
"Orestes Quércia elegeu-se governador de São Paulo em 1986 e fez seu sucessor. Depois disso perdeu todas as eleições que disputou. Em 2010, quando morreu, tinha um patrimônio declarado de 117 milhões de reais.15
(...)
A política brasileira renovou-se decisivamente depois das eleições de 1982, que refletiram as consequências da anistia. Franco Montoro assumiu o governo de São Paulo e, deixando o cargo, elegeu-se deputado federal em 1994. Reeleito em 1998, morreu em 1999, no exercício do mandato.
Mário Covas, cassado em 1968, elegeu-se deputado federal, foi nomeado prefeito de São Paulo e tornou-se o senador mais votado da eleição de 1986. Governou o estado paulista com dois mandatos, de 1995 a 2001, quando um câncer afastou-o do cargo. Morreu em 2001. Rompidos com o então governador Orestes Quércia, Montoro, Fernando Henrique Cardoso, Covas e José Serra abandonaram o PMDB, fundando o PSDB. O ciclo iniciado em 1983 com a posse de Montoro deu ao PMDB-PSDB de São Paulo 35 anos de poder,período só comparável ao do Partido Republicano durante a República Velha. Geraldo Alckmin, o vice-governador que assumiu no lugar de Covas, tornou-se o paulista que por mais tempo ocupou o cargo.
José Serra, secretário de Planejamento de Montoro, elegeu-se deputado federal em 1986. O ex-presidente da UNE, que se exilara na Bolívia, no Chile e nos Estados Unidos, tornou-se ministro do Planejamento e da Saúde no governo de Fernando Henrique Cardoso. Foi prefeito e governador de São Paulo. Elegeu-se duas vezes para o Senado, a última em 2014. Concorreu duas vezes à Presidência, sem sucesso.
(...)
Ulysses Guimarães tornou-se por poucos anos o político mais influente do país. Promulgou a Constituição de 1988 e manteve uma forte e conflituosa ascendência sobre o governo de Sarney. Candidatou-se à Presidência da República em 1989, mas a associação de seu nome a um governo ruinoso deixou-o com apenas 4,7% dos votos na eleição vencida por Fernando Collor. Como deputado, juntou seu prestígio à campanha pelo impedimento do jovem presidente. Morreu em 1992, aos 76 anos, num desastre de helicóptero. Estava com a mulher, Mora. Seu corpo nunca foi encontrado."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016. P. 354-356.Os políticos
"Miguel Arraes, deposto do governo de Pernambuco em 1964, retornou ao
palácio pelo voto. Depois de catorze anos de exílio vividos na Argélia, elegeu-se
deputado federal em 1982. Em 1987, aos setenta anos, voltou ao palácio do
Campo das Princesas, de onde os militares o tiraram na tarde de 1o de abril. Foi
eleito novamente em 1994, pelo Partido Socialista. Morreu em 2005. Arraes foi
o único político deposto em 1964 que deixou uma duradoura base política. Seu
neto, Eduardo Campos, governou Pernambuco e disputava a Presidência da
República em 2014 quando morreu num acidente aéreo. Leonel Brizola, que
governara o Rio Grande do Sul e fora cassado quando era deputado pelo estado
da Guanabara, elegeu-se governador do Rio de Janeiro em 1982 e em 1990.
Candidato à Presidência da República em 1989, não conseguiu chegar ao
segundo turno, derrotado por Fernando Collor e Lula, a quem chamaria de
“sapo barbudo”. Em 1994 foi candidato a presidente e ficou em quinto lugar.
Quatro anos depois disputou a Vice-Presidência na chapa encabeçada por
Lula e derrotada por Fernando Henrique Cardoso. Morreu em 2004, aos 82
anos.
(...)
Paulo Maluf disputou sem sucesso o governo de São Paulo em 1986 e
elegeu-se prefeito da capital em 1992. Voltou quatro vezes para a Câmara
Federal. Ficou preso durante 41 dias em 2005. Por solicitação do governo dos
Estados Unidos, seu nome está entre os procurados pela Interpol. Um estudo
do Banco Mundial listou-o como um exemplo de caso internacional de
corrupção. Foi acusado de ter internado 200 milhões de dólares no paraíso
fiscal da ilha de Jersey, no Canal da Mancha. É o mais destacado político civil
formado na ditadura com assento no Congresso. Na eleição municipal de São
Paulo de 2012 apoiou o candidato petista Fernando Haddad.
José Maria Marin, vice-governador eleito indiretamente na chapa de Maluf,
governou São Paulo de maio de 1982 a março de 1983. Em 1986 e 2002
disputou sem sucesso uma cadeira de senador. Em 2012, tornou-se presidente
da Confederação Brasileira de Futebol. Três anos depois, foi preso na Suíça e
extraditado para os Estados Unidos, onde, em 2015, foi colocado em prisão
domiciliar enquanto responde a um processo por corrupção e lavagem de
dinheiro.
O almirante Faria Lima, que administrou a fusão dos estados do Rio de
Janeiro e da Guanabara, deixou a vida pública e morreu em 2011, aos 93 anos.
Não se sabe o rumo que tomou a caixa em que guardava as interceptações
telefônicas que coordenou na crise de 1961, quando servia com Geisel na Casa
Militar da Presidência.
O ex-governador mineiro Aureliano Chaves ficou no Ministério de Minas e
Energia durante o governo de Sarney. Foi candidato a presidente em 1989 e
teve votação desprezível. Retirou-se da vida pública, mas, em 2002, como
crítico das privatizações ocorridas durante o governo de Fernando Henrique
Cardoso, apoiou a candidatura de Lula. Morreu aos 74 anos, em 2003.
(...)
Antonio Carlos Magalhães, ministro das Comunicações de Sarney, não
conseguiu eleger seu candidato em 1986, mas prevaleceu quatro anos depois,
voltando ao governo e restabelecendo o poder do “carlismo” no estado da
Bahia. Em 1994 elegeu-se senador. Em 2001, renunciou ao mandato por ter
violado o painel eletrônico de votações. Morreu em 2007, aos 79 anos. Antonio
Carlos Junior, seu filho e suplente, assumiu a cadeira. Luís Eduardo, seu outro
filho, chegou à presidência da Câmara e era um possível candidato a
presidente da República, quando morreu de enfarte, aos 43 anos, em 1998.
Antonio Carlos Magalhães Neto (filho de Junior) tornou-se seu herdeiro
político e por três vezes elegeu-se deputado federal. Em 2012 elegeu-se
prefeito de Salvador.
(...)
No Maranhão, Roseana Sarney, filha do presidente, conseguiu quatro
mandatos de governadora, dois pelo PMDB. Em Sergipe e no Ceará, elegeramse
Albano Franco e Lúcio Alcântara, filhos dos ex-governadores Augusto Franco
e Waldemar Alcântara. No Rio Grande do Norte, José Agripino Maia, filho do
governador Tarcísio Maia (1975-1979) e primo em segundo grau do governador
Lavoisier Maia (1979-1983), elegeu-se em 1982 e 1990.
Marco Maciel, indicado governador de Pernambuco por Geisel em 1978, foi
escolhido para o Ministério da Educação por Tancredo e remanejado por
Sarney, um ano depois, para a chefia do Gabinete Civil. Elegeu-se três vezes
para o Senado. Foi líder da bancada do governo de Fernando Collor e por duas
vezes foi eleito para a Vice-Presidência da República na chapa de Fernando
Henrique Cardoso."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016. P. 350-353
palácio pelo voto. Depois de catorze anos de exílio vividos na Argélia, elegeu-se
deputado federal em 1982. Em 1987, aos setenta anos, voltou ao palácio do
Campo das Princesas, de onde os militares o tiraram na tarde de 1o de abril. Foi
eleito novamente em 1994, pelo Partido Socialista. Morreu em 2005. Arraes foi
o único político deposto em 1964 que deixou uma duradoura base política. Seu
neto, Eduardo Campos, governou Pernambuco e disputava a Presidência da
República em 2014 quando morreu num acidente aéreo. Leonel Brizola, que
governara o Rio Grande do Sul e fora cassado quando era deputado pelo estado
da Guanabara, elegeu-se governador do Rio de Janeiro em 1982 e em 1990.
Candidato à Presidência da República em 1989, não conseguiu chegar ao
segundo turno, derrotado por Fernando Collor e Lula, a quem chamaria de
“sapo barbudo”. Em 1994 foi candidato a presidente e ficou em quinto lugar.
Quatro anos depois disputou a Vice-Presidência na chapa encabeçada por
Lula e derrotada por Fernando Henrique Cardoso. Morreu em 2004, aos 82
anos.
(...)
Paulo Maluf disputou sem sucesso o governo de São Paulo em 1986 e
elegeu-se prefeito da capital em 1992. Voltou quatro vezes para a Câmara
Federal. Ficou preso durante 41 dias em 2005. Por solicitação do governo dos
Estados Unidos, seu nome está entre os procurados pela Interpol. Um estudo
do Banco Mundial listou-o como um exemplo de caso internacional de
corrupção. Foi acusado de ter internado 200 milhões de dólares no paraíso
fiscal da ilha de Jersey, no Canal da Mancha. É o mais destacado político civil
formado na ditadura com assento no Congresso. Na eleição municipal de São
Paulo de 2012 apoiou o candidato petista Fernando Haddad.
José Maria Marin, vice-governador eleito indiretamente na chapa de Maluf,
governou São Paulo de maio de 1982 a março de 1983. Em 1986 e 2002
disputou sem sucesso uma cadeira de senador. Em 2012, tornou-se presidente
da Confederação Brasileira de Futebol. Três anos depois, foi preso na Suíça e
extraditado para os Estados Unidos, onde, em 2015, foi colocado em prisão
domiciliar enquanto responde a um processo por corrupção e lavagem de
dinheiro.
O almirante Faria Lima, que administrou a fusão dos estados do Rio de
Janeiro e da Guanabara, deixou a vida pública e morreu em 2011, aos 93 anos.
Não se sabe o rumo que tomou a caixa em que guardava as interceptações
telefônicas que coordenou na crise de 1961, quando servia com Geisel na Casa
Militar da Presidência.
O ex-governador mineiro Aureliano Chaves ficou no Ministério de Minas e
Energia durante o governo de Sarney. Foi candidato a presidente em 1989 e
teve votação desprezível. Retirou-se da vida pública, mas, em 2002, como
crítico das privatizações ocorridas durante o governo de Fernando Henrique
Cardoso, apoiou a candidatura de Lula. Morreu aos 74 anos, em 2003.
(...)
Antonio Carlos Magalhães, ministro das Comunicações de Sarney, não
conseguiu eleger seu candidato em 1986, mas prevaleceu quatro anos depois,
voltando ao governo e restabelecendo o poder do “carlismo” no estado da
Bahia. Em 1994 elegeu-se senador. Em 2001, renunciou ao mandato por ter
violado o painel eletrônico de votações. Morreu em 2007, aos 79 anos. Antonio
Carlos Junior, seu filho e suplente, assumiu a cadeira. Luís Eduardo, seu outro
filho, chegou à presidência da Câmara e era um possível candidato a
presidente da República, quando morreu de enfarte, aos 43 anos, em 1998.
Antonio Carlos Magalhães Neto (filho de Junior) tornou-se seu herdeiro
político e por três vezes elegeu-se deputado federal. Em 2012 elegeu-se
prefeito de Salvador.
(...)
No Maranhão, Roseana Sarney, filha do presidente, conseguiu quatro
mandatos de governadora, dois pelo PMDB. Em Sergipe e no Ceará, elegeramse
Albano Franco e Lúcio Alcântara, filhos dos ex-governadores Augusto Franco
e Waldemar Alcântara. No Rio Grande do Norte, José Agripino Maia, filho do
governador Tarcísio Maia (1975-1979) e primo em segundo grau do governador
Lavoisier Maia (1979-1983), elegeu-se em 1982 e 1990.
Marco Maciel, indicado governador de Pernambuco por Geisel em 1978, foi
escolhido para o Ministério da Educação por Tancredo e remanejado por
Sarney, um ano depois, para a chefia do Gabinete Civil. Elegeu-se três vezes
para o Senado. Foi líder da bancada do governo de Fernando Collor e por duas
vezes foi eleito para a Vice-Presidência da República na chapa de Fernando
Henrique Cardoso."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016. P. 350-353
Os empresários - financiadores e apoiadores
"Passado meio século, desfizeram-se alguns dos grandes grupos industriais e
financeiros de 1964, inclusive aqueles que pertenciam aos empresários que
organizaram o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, o IPÊS, onde se
agruparam empresários e militares que se opunham ao governo de João
Goulart. Seu presidente, João Baptista Leopoldo Figueiredo, dirigiu inúmeras
empresas, entre as quais a Scania, onde se deu a primeira grande greve
operária de 1978. Participou dos conselhos do banco Itaú, da Pirelli e da
Siemens. Morreu em 1989, aos 79 anos. (Gilson Menezes, o operário que
desencadeou a greve da Scania, elegeu-se prefeito de Diadema em 1983, pelo
PT, e em 1987, pelo PSB.)
Antonio Gallotti, o ativo presidente da Light, viu suas empresas serem
estatizadas e, posteriormente, privatizadas. Redirecionou os interesses da
companhia para o ramo de investimentos e continuou ativo nos bastidores do
poder, mantendo sua influência e seu bom humor até a morte, em 1986, aos
78 anos.
Augusto Trajano de Azevedo Antunes, dono da Caemi, a maior mineradora
privada do país, morreu em 1996, aos 89 anos. Suas empresas, administradas
pelos netos, foram passadas à Vale. Durante a campanha das diretas, num
telefonema a Golbery, Antunes disse-lhe que seria necessário rearticular as
forças que haviam mobilizado em 1964. Depois de desligar, o general
comentou: “Para quê? Para acabarmos chamando o Ulysses Guimarães?”.11
O aristocrático banqueiro Cândido Guinle de Paula Machado morreu em
2000, aos 82 anos. Do império de sua família, pouco restava. Sua participação
no Banco Boavista, que dirigia, fora vendida em 1997 por uma quantia
simbólica.
O Banco Mercantil de São Paulo, de Gastão Vidigal, foi vendido ao Bradesco
em 2002, e o Unibanco, de Walther Moreira Salles, incorporado ao Itaú, em
2007. Ambos morreram em 2001.
As três grandes empreiteiras da ditadura sobreviveram a ela até que, em
2014, foram apanhadas na Operação Lava-Jato. Sebastião Camargo, o “China”,
morreu em 1994, deixando seu império para três filhas. Com três anos de
escolaridade, não falava em público e cultivava discretamente suas relações
com o poder. A Camargo Corrêa foi a maior empreiteira do país de 1964 a
1985.12 Chegou a ser a maior do mundo. Administrada por executivos e
controlada pelos genros de Camargo, em 2014 seu presidente e seu vicepresidente
foram encarcerados e passaram a colaborar com as investigações
da Lava-Jato. Foram condenados a quinze anos de prisão, que cumpririam em
casa, com tornozeleiras eletrônicas. Roberto Andrade, fundador da Andrade
Gutierrez (Itaipu), morreu em 2006 e a empresa passou a ser dirigida por um
de seus filhos. Seu presidente foi preso em 2015 e meses depois a empresa
passou a colaborar com as autoridades. Norberto Odebrecht, fundador e mola
mestra da empreiteira que suplantou todas as demais, morreu em julho de
2014, aos 93 anos, meses antes do envolvimento de sua empresa nas
investigações da Lava-Jato. Seu neto Marcelo, que comandava o grupo, foi
preso em junho de 2015. Como Sebastião Camargo, Andrade e Odebrecht
raramente davam entrevistas, conduta que não foi seguida por seus
herdeiros.13
Durante a ditadura, algumas empreiteiras tiveram êxitos estelares, mas
revelaram-se cometas. Olacyr de Moraes, dono da Constran, tornou-se muitos
anos depois o maior plantador individual de soja do mundo. Ficou famoso por
circular acompanhado de lindas senhoras. Quebrou em 1996, vendeu sua
empresa em 2010 e morreu em 2015. A Metropolitana, dos irmãos Alencar,
arrendatária dos jornais Correio da Manhã e Última Hora, faliu em 1974.
Marcello Alencar foi por duas vezes prefeito do Rio de Janeiro e governador do
estado de 1995 a 1999. Morreu em 2014. A Mendes Júnior, comandada por
Murilo Mendes, tropeçou com seus grandes negócios no Iraque e sobreviveu
batalhando na Justiça. Em 2014 seu vice-presidente foi preso na Operação
Lava-Jato, que desmontou a rede de corrupção armada pelas grandes
empreiteiras em seus negócios com a Petrobras. Num julgamento de primeira
instância, foi condenado a dezenove anos de prisão.
Os dois maiores bancos privados do país no século XXI, o Itaú, de Olavo
Setubal, e o Bradesco, de Amador Aguiar, eram pequenas instituições na
primeira metade do XX. Amador Aguiar morreu em 1991, aos 86 anos.
Raramente falou em público. Ao contrário de Walther Moreira Salles (ministro
da Fazenda do gabinete parlamentarista de 1961) e de Olavo Setubal (prefeito
nomeado de São Paulo de 1975 a 1979), jamais ocupou cargo público. Sua
marca pode ser percebida quando se vê que Laudo Natel, um dos diretores do
Bradesco, governou São Paulo duas vezes (1966-1967 e 1971-1975) sem nunca
ter recebido um voto.
Eugênio Gudin, o patriarca dos economistas brasileiros, viveu até 1986,
tendo completado cem anos sempre evitando beber água. Só vinho. Pery Igel,
principal acionista do grupo Ultra, que a ALN jurou de morte por ajudar o
aparelho repressivo, morreu de causas naturais em 1998.
Ivan Hasslocher, o publicitário que adquiriu fama organizando o IBAD,
deixou o país depois da deposição de Jango. Viveu entre os Estados Unidos, a
Inglaterra e a Suíça. Morreu em Houston, em 2000.14 A Engesa, empresa de
material bélico fundada pelo engenheiro José Luiz Whitaker Ribeiro, tornou-se
exportadora de armas, com negócios no Iraque. Fabricava os blindados Urutu,
famosos por sua presença em mobilizações militares contra manifestações
políticas. Faliu em 1993.
Luis Eulálio de Bueno Vidigal Filho, o interlocutor de Lula em 1977, presidiu a
Federação das Indústrias de São Paulo de 1980 a 1986 e dá nome ao seu
edifício-sede, na avenida Paulista. Sua empresa, a Cobrasma, faliu em 1993.
José Papa Junior ficou na presidência da Federação do Comércio de São
Paulo de 1969 a 1984. Em 2000 o Banco Lavra, de propriedade de sua família,
entrou em liquidação extrajudicial. Mario Garnero, presidente da Associação
Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores durante as greves de 1979,
teve decretada a liquidação extrajudicial de seu banco, Brasilinvest, em 1985.
Dos signatários do Manifesto dos Oito, publicado pela Gazeta Mercantil em
junho de 1978, defendendo o regime democrático e a livre-iniciativa, dois
continuaram à frente de grupos industriais poderosos.
Antonio Ermírio de Moraes disputou sem sucesso o governo de São Paulo em
1986 e morreu em 2014, aos 86 anos. A fortuna de sua família foi estimada em
12,7 bilhões de dólares. Jorge Gerdau, cujo complexo siderúrgico tornou-se um
dos maiores do país, foi colocado em 2011 por Dilma Rousseff à frente de uma
Câmara de Gestão, que definhou. Claudio Bardella continuou na presidência do
conselho de sua empresa. (O empresário Paulo Francini, que levou Lula ao
escritório de Bardella para negociar o fim da primeira greve do ABC, é diretor
da Fiesp.) Paulo Villares, comandante da indústria que leva o nome de sua
família, administrou o desmembramento e a venda da empresa. O
metalúrgico Luiz Inácio da Silva trabalhava na Villares quando se tornou
dirigente sindical. Severo Gomes elegeu-se senador pelo PMDB em 1982. Sua
empresa de têxteis quebrou. Morreu em 1992, com a mulher, Henriqueta, no
helicóptero em que estava Ulysses Guimarães. José Mindlin vendeu o controle
da indústria Metal Leve e dedicou-se a cuidar de sua biblioteca. Dela, cerca de
60 mil volumes foram doados à Universidade de São Paulo. Morreu em 2010,
aos 95 anos.
Das lideranças de guildas empresariais da ditadura, só Guilherme Afif
Domingos fez carreira. Presidiu a Associação Comercial de São Paulo de 1982
até 1987 e, novamente, de 2003 a 2007. Elegeu-se deputado federal e foi
constituinte de 1988. Candidatou-se sem sucesso à Presidência da República e
ao Senado. Em 2010 elegeu-se vice-governador de São Paulo e em 2013 foi
nomeado para a Secretaria da Micro e Pequena Empresa da Presidência da
República."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016.
financeiros de 1964, inclusive aqueles que pertenciam aos empresários que
organizaram o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, o IPÊS, onde se
agruparam empresários e militares que se opunham ao governo de João
Goulart. Seu presidente, João Baptista Leopoldo Figueiredo, dirigiu inúmeras
empresas, entre as quais a Scania, onde se deu a primeira grande greve
operária de 1978. Participou dos conselhos do banco Itaú, da Pirelli e da
Siemens. Morreu em 1989, aos 79 anos. (Gilson Menezes, o operário que
desencadeou a greve da Scania, elegeu-se prefeito de Diadema em 1983, pelo
PT, e em 1987, pelo PSB.)
Antonio Gallotti, o ativo presidente da Light, viu suas empresas serem
estatizadas e, posteriormente, privatizadas. Redirecionou os interesses da
companhia para o ramo de investimentos e continuou ativo nos bastidores do
poder, mantendo sua influência e seu bom humor até a morte, em 1986, aos
78 anos.
Augusto Trajano de Azevedo Antunes, dono da Caemi, a maior mineradora
privada do país, morreu em 1996, aos 89 anos. Suas empresas, administradas
pelos netos, foram passadas à Vale. Durante a campanha das diretas, num
telefonema a Golbery, Antunes disse-lhe que seria necessário rearticular as
forças que haviam mobilizado em 1964. Depois de desligar, o general
comentou: “Para quê? Para acabarmos chamando o Ulysses Guimarães?”.11
O aristocrático banqueiro Cândido Guinle de Paula Machado morreu em
2000, aos 82 anos. Do império de sua família, pouco restava. Sua participação
no Banco Boavista, que dirigia, fora vendida em 1997 por uma quantia
simbólica.
O Banco Mercantil de São Paulo, de Gastão Vidigal, foi vendido ao Bradesco
em 2002, e o Unibanco, de Walther Moreira Salles, incorporado ao Itaú, em
2007. Ambos morreram em 2001.
As três grandes empreiteiras da ditadura sobreviveram a ela até que, em
2014, foram apanhadas na Operação Lava-Jato. Sebastião Camargo, o “China”,
morreu em 1994, deixando seu império para três filhas. Com três anos de
escolaridade, não falava em público e cultivava discretamente suas relações
com o poder. A Camargo Corrêa foi a maior empreiteira do país de 1964 a
1985.12 Chegou a ser a maior do mundo. Administrada por executivos e
controlada pelos genros de Camargo, em 2014 seu presidente e seu vicepresidente
foram encarcerados e passaram a colaborar com as investigações
da Lava-Jato. Foram condenados a quinze anos de prisão, que cumpririam em
casa, com tornozeleiras eletrônicas. Roberto Andrade, fundador da Andrade
Gutierrez (Itaipu), morreu em 2006 e a empresa passou a ser dirigida por um
de seus filhos. Seu presidente foi preso em 2015 e meses depois a empresa
passou a colaborar com as autoridades. Norberto Odebrecht, fundador e mola
mestra da empreiteira que suplantou todas as demais, morreu em julho de
2014, aos 93 anos, meses antes do envolvimento de sua empresa nas
investigações da Lava-Jato. Seu neto Marcelo, que comandava o grupo, foi
preso em junho de 2015. Como Sebastião Camargo, Andrade e Odebrecht
raramente davam entrevistas, conduta que não foi seguida por seus
herdeiros.13
Durante a ditadura, algumas empreiteiras tiveram êxitos estelares, mas
revelaram-se cometas. Olacyr de Moraes, dono da Constran, tornou-se muitos
anos depois o maior plantador individual de soja do mundo. Ficou famoso por
circular acompanhado de lindas senhoras. Quebrou em 1996, vendeu sua
empresa em 2010 e morreu em 2015. A Metropolitana, dos irmãos Alencar,
arrendatária dos jornais Correio da Manhã e Última Hora, faliu em 1974.
Marcello Alencar foi por duas vezes prefeito do Rio de Janeiro e governador do
estado de 1995 a 1999. Morreu em 2014. A Mendes Júnior, comandada por
Murilo Mendes, tropeçou com seus grandes negócios no Iraque e sobreviveu
batalhando na Justiça. Em 2014 seu vice-presidente foi preso na Operação
Lava-Jato, que desmontou a rede de corrupção armada pelas grandes
empreiteiras em seus negócios com a Petrobras. Num julgamento de primeira
instância, foi condenado a dezenove anos de prisão.
Os dois maiores bancos privados do país no século XXI, o Itaú, de Olavo
Setubal, e o Bradesco, de Amador Aguiar, eram pequenas instituições na
primeira metade do XX. Amador Aguiar morreu em 1991, aos 86 anos.
Raramente falou em público. Ao contrário de Walther Moreira Salles (ministro
da Fazenda do gabinete parlamentarista de 1961) e de Olavo Setubal (prefeito
nomeado de São Paulo de 1975 a 1979), jamais ocupou cargo público. Sua
marca pode ser percebida quando se vê que Laudo Natel, um dos diretores do
Bradesco, governou São Paulo duas vezes (1966-1967 e 1971-1975) sem nunca
ter recebido um voto.
Eugênio Gudin, o patriarca dos economistas brasileiros, viveu até 1986,
tendo completado cem anos sempre evitando beber água. Só vinho. Pery Igel,
principal acionista do grupo Ultra, que a ALN jurou de morte por ajudar o
aparelho repressivo, morreu de causas naturais em 1998.
Ivan Hasslocher, o publicitário que adquiriu fama organizando o IBAD,
deixou o país depois da deposição de Jango. Viveu entre os Estados Unidos, a
Inglaterra e a Suíça. Morreu em Houston, em 2000.14 A Engesa, empresa de
material bélico fundada pelo engenheiro José Luiz Whitaker Ribeiro, tornou-se
exportadora de armas, com negócios no Iraque. Fabricava os blindados Urutu,
famosos por sua presença em mobilizações militares contra manifestações
políticas. Faliu em 1993.
Luis Eulálio de Bueno Vidigal Filho, o interlocutor de Lula em 1977, presidiu a
Federação das Indústrias de São Paulo de 1980 a 1986 e dá nome ao seu
edifício-sede, na avenida Paulista. Sua empresa, a Cobrasma, faliu em 1993.
José Papa Junior ficou na presidência da Federação do Comércio de São
Paulo de 1969 a 1984. Em 2000 o Banco Lavra, de propriedade de sua família,
entrou em liquidação extrajudicial. Mario Garnero, presidente da Associação
Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores durante as greves de 1979,
teve decretada a liquidação extrajudicial de seu banco, Brasilinvest, em 1985.
Dos signatários do Manifesto dos Oito, publicado pela Gazeta Mercantil em
junho de 1978, defendendo o regime democrático e a livre-iniciativa, dois
continuaram à frente de grupos industriais poderosos.
Antonio Ermírio de Moraes disputou sem sucesso o governo de São Paulo em
1986 e morreu em 2014, aos 86 anos. A fortuna de sua família foi estimada em
12,7 bilhões de dólares. Jorge Gerdau, cujo complexo siderúrgico tornou-se um
dos maiores do país, foi colocado em 2011 por Dilma Rousseff à frente de uma
Câmara de Gestão, que definhou. Claudio Bardella continuou na presidência do
conselho de sua empresa. (O empresário Paulo Francini, que levou Lula ao
escritório de Bardella para negociar o fim da primeira greve do ABC, é diretor
da Fiesp.) Paulo Villares, comandante da indústria que leva o nome de sua
família, administrou o desmembramento e a venda da empresa. O
metalúrgico Luiz Inácio da Silva trabalhava na Villares quando se tornou
dirigente sindical. Severo Gomes elegeu-se senador pelo PMDB em 1982. Sua
empresa de têxteis quebrou. Morreu em 1992, com a mulher, Henriqueta, no
helicóptero em que estava Ulysses Guimarães. José Mindlin vendeu o controle
da indústria Metal Leve e dedicou-se a cuidar de sua biblioteca. Dela, cerca de
60 mil volumes foram doados à Universidade de São Paulo. Morreu em 2010,
aos 95 anos.
Das lideranças de guildas empresariais da ditadura, só Guilherme Afif
Domingos fez carreira. Presidiu a Associação Comercial de São Paulo de 1982
até 1987 e, novamente, de 2003 a 2007. Elegeu-se deputado federal e foi
constituinte de 1988. Candidatou-se sem sucesso à Presidência da República e
ao Senado. Em 2010 elegeu-se vice-governador de São Paulo e em 2013 foi
nomeado para a Secretaria da Micro e Pequena Empresa da Presidência da
República."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016.
Os expurgados de 1964
"Darcy Ribeiro (Casa Civil) foi para o Uruguai, retornou ao Brasil em 1968 e
acabou preso. Quando estava num quartel da Marinha, telefonou ao diretor
do Instituto do Patrimônio Histórico pedindo que cuidasse da restauração de
um portal do século XIX que via do camarote onde estava detido. Libertado,
exilou-se no Chile, onde colaborou com o presidente Salvador Allende. Em
1974, com um câncer de pulmão, foi-lhe permitido retornar ao Brasil.
Sobreviveu à doença e tornou-se vice-governador do Rio de Janeiro. Perdeu
uma eleição para governador e elegeu-se senador. Morreu em 1997, aos 74
anos.
Celso Furtado (Planejamento) deixou o Brasil e viveu no Chile, nos Estados
Unidos e na França. José Sarney nomeou-o embaixador da Comunidade
Europeia e, posteriormente, ministro da Cultura. Elegeu-se para a Academia
Brasileira de Letras e morreu em 2004, aos 84 anos.
Expedito Machado (Viação e Obras Públicas) e Oswaldo Lima Filho
(Agricultura) elegeram-se deputados federais depois da anistia. Wilson Fadul
(Saúde) disputou sem sucesso o governo de Mato Grosso do Sul e foi nomeado
vice-presidente do Banco do Estado do Rio de Janeiro.
(Araújo Castro, das Relações Exteriores, foi o único ministro de João
Goulart que permaneceu no serviço público, continuando uma bem-sucedida
carreira. Salvou-o da cassação o chanceler Vasco Leitão da Cunha, que
atenuou a fúria punitiva contra os quadros do Itamaraty. Foi discretamente
removido para a embaixada do Brasil na Grécia e, em 1968, tornou-se chefe da
representação do Brasil nas Nações Unidas. Em seguida, foi nomeado
embaixador em Washington, onde morreu em 1975, aos 56 anos. Estava no
posto durante a visita do presidente Médici aos Estados Unidos.)
Raul Ryff, influente secretário de imprensa de Jango, viveu no exílio até
1968. Ao retornar ao Brasil, voltou ao jornalismo, trabalhando como redator na
editoria Internacional do Jornal do Brasil. Nunca se afastou de João Goulart
nem recriminou seu governo. Morreu em 1989, aos 77 anos.
Depois da anistia, dois ministros de Jango filiaram-se ao partido do governo.
No governo Sarney, Abelardo Jurema (Justiça) foi diretor do BNDES e do
Instituto do Açúcar e do Álcool. Oliveira Brito (Minas e Energia) foi colocado
por Sarney na presidência da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco."
acabou preso. Quando estava num quartel da Marinha, telefonou ao diretor
do Instituto do Patrimônio Histórico pedindo que cuidasse da restauração de
um portal do século XIX que via do camarote onde estava detido. Libertado,
exilou-se no Chile, onde colaborou com o presidente Salvador Allende. Em
1974, com um câncer de pulmão, foi-lhe permitido retornar ao Brasil.
Sobreviveu à doença e tornou-se vice-governador do Rio de Janeiro. Perdeu
uma eleição para governador e elegeu-se senador. Morreu em 1997, aos 74
anos.
Celso Furtado (Planejamento) deixou o Brasil e viveu no Chile, nos Estados
Unidos e na França. José Sarney nomeou-o embaixador da Comunidade
Europeia e, posteriormente, ministro da Cultura. Elegeu-se para a Academia
Brasileira de Letras e morreu em 2004, aos 84 anos.
Expedito Machado (Viação e Obras Públicas) e Oswaldo Lima Filho
(Agricultura) elegeram-se deputados federais depois da anistia. Wilson Fadul
(Saúde) disputou sem sucesso o governo de Mato Grosso do Sul e foi nomeado
vice-presidente do Banco do Estado do Rio de Janeiro.
(Araújo Castro, das Relações Exteriores, foi o único ministro de João
Goulart que permaneceu no serviço público, continuando uma bem-sucedida
carreira. Salvou-o da cassação o chanceler Vasco Leitão da Cunha, que
atenuou a fúria punitiva contra os quadros do Itamaraty. Foi discretamente
removido para a embaixada do Brasil na Grécia e, em 1968, tornou-se chefe da
representação do Brasil nas Nações Unidas. Em seguida, foi nomeado
embaixador em Washington, onde morreu em 1975, aos 56 anos. Estava no
posto durante a visita do presidente Médici aos Estados Unidos.)
Raul Ryff, influente secretário de imprensa de Jango, viveu no exílio até
1968. Ao retornar ao Brasil, voltou ao jornalismo, trabalhando como redator na
editoria Internacional do Jornal do Brasil. Nunca se afastou de João Goulart
nem recriminou seu governo. Morreu em 1989, aos 77 anos.
Depois da anistia, dois ministros de Jango filiaram-se ao partido do governo.
No governo Sarney, Abelardo Jurema (Justiça) foi diretor do BNDES e do
Instituto do Açúcar e do Álcool. Oliveira Brito (Minas e Energia) foi colocado
por Sarney na presidência da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco."
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