quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Os Presidentes - parte I

"Tancredo Neves morreu no dia 21 de abril de 1985, depois de sete cirurgias. Sua agonia foi agravada por procedimentos médicos discutíveis e mentiras públicas que alimentaram a esperança do país. Os três principais jornais brasileiros noticiaram dez vezes que ele teria alta.1 Depois da segunda cirurgia, a assessoria de Tancredo distribuiu fotografias nas quais ele aparecia sorridente, de robe e echarpe de seda, sentado num sofá ao lado da mulher, cercado por cinco médicos, todos felizes. O que parecia ser uma echarpe era um lenço de sua mulher, Risoleta Neves, usado para esconder os tubos que estavam no pescoço de Tancredo, conectados a frascos escondidos embaixo do sofá.2 Morto, Tancredo provocou um episódio simbólico da grande conciliação que conseguira: durante seu velório, no palácio do Planalto, Ernesto Geisel e Ulysses Guimarães cumprimentaram-se. Risoleta Neves morreu em 2003, aos 86 anos. O neto de Tancredo, Aécio, foi deputado, governador de Minas Gerais, senador e candidato à Presidência da República em 2014.
Com a eleição de Tancredo, o Brasil saiu do ciclo de governos militares que se impuseram na América Latina na segunda metade do século XX. Fez isso depois da Argentina e do Uruguai, antes do Chile e do Paraguai. Fechado o ciclo, haviam morrido no continente pelo menos 50 mil pessoas. No Brasil, em torno de quinhentas. Dezenas de milhares de proscritos voltaram à política e aos palácios. No Brasil, o professor Fernando Henrique Cardoso, considerado um “destacado” comunista3 em 1964, foi ministro das Relações Exteriores e da Fazenda. Em 1994 elegeu-se presidente da República, reconduzido em 1998. Foi sucedido por Luiz Inácio Lula da Silva, um ex-operário, preso por 32 dias em 1980. Em 2011 ele passou a Presidência a Dilma Rousseff, que militara em organizações armadas e cumprira uma sentença de dois anos de prisão. Em seu governo, Dilma criou a Comissão Nacional da Verdade para estudar os crimes da ditadura. Esse gesto
estimulou a proliferação de comissões que voltaram aos porões do regime e esclareceram alguns de seus crimes. Dilma foi reeleita em 2014. Dez dos ministros de Lula passaram por prisões, sete deles por militarem em organizações clandestinas. No ministério de Dilma entraram quatro exprisioneiros políticos, entre eles uma ex-companheira de cela.4 Em 2001, o presidente Fernando Henrique Cardoso criou uma Comissão de Anistia para reparar danos causados a vítimas da ditadura. Em treze anos, ela aprovou 35 mil pedidos com indenizações que somaram 3,4 bilhões de reais.5
Na conciliação brasileira, ao contrário do que sucedeu em outros países do continente, nenhum militar ou civil foi responsabilizado por crimes ocorridos durante a ditadura. Dois signatários do AI-5 voltaram ao governo depois da redemocratização. Jarbas Passarinho foi ministro da Justiça durante o governo de Fernando Collor de Mello. Hélio Beltrão, outro signatário do AI-5, foi presidente da Petrobras no governo Sarney.
No Chile, o general Augusto Pinochet, que se tornou um símbolo da espécie, em 1990 entregou o poder ao civil Patricio Aylwin. Haviam se passado dezesseis anos da morte do presidente Salvador Allende. Em 1998 Pinochet foi preso em Londres, porém livrou-se de um pedido de extradição para a Espanha porque uma junta médica considerou-o incapaz. Voltou ao Chile e morreu em 2006, aos 91 anos. Viveu o suficiente para assistir à eleição de Michelle Bachelet para a Presidência do Chile. O pai de Bachelet, general da Força Aérea, morrera na prisão meses depois do golpe militar. Ligadas clandestinamente ao Partido Socialista, ela e a mãe foram presas em 1975. Exilaram-se na Austrália e, depois, na Alemanha comunista.
A democracia voltou à Argentina em 1983, com a posse de Raúl Alfonsín, um advogado que defendera presos políticos e passara por uma breve prisão. O general Juan Carlos Onganía, que derrubou o presidente civil Arturo Illia em 1966, viu-se deposto por outro golpe quatro anos depois. Em fevereiro de 1995 foi posto em prisão domiciliar por duas semanas e morreu meses depois. O general Jorge Rafael Videla, que comandou, entre 1976 e 1981, a mais sangrenta das ditaduras do período, foi condenado à prisão perpétua em 2010 e morreu na cadeia três anos depois, aos 87 anos. Dois de seus sucessores, os generais Leopoldo Galtieri e Reynaldo Bignone também foram a julgamento. Galtieri morreu em prisão domiciliar, em 2003. Bignone foi condenado a 23 anos de cadeia em 2014.
No Uruguai, o general Gregorio Álvarez, ditador de 1981 a 1985, foi condenado a 25 anos de prisão em 2009. No ano seguinte, viu a ascensão à Presidência de seu país de Jose Mujica, o militante tupamaro Pepe, Ulpiano ou Facundo, que tomou seis tiros e conseguiu fugir da cadeia duas vezes. Recapturado, passou mais de dez anos no cárcere, onze deles numa solitária. O general paraguaio Alfredo Stroessner, o mais longevo dos ditadores militares sul-americanos (1954-1989), foi deposto por seu braço direito e exilouse no Brasil, onde viveu praticamente recluso numa mansão de Brasília. Morreu em 2006, aos 93 anos, e foi sepultado sem honras militares."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016. P. 33-336

Sem comentários:

Enviar um comentário