segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A Construção de Tancredo - parte III

"A anarquia militar estava em qualquer lugar e, novamente, em lugar
nenhum. Na reunião do Alto-Comando, o general Eraldo Tavares de Lima,
comandante do I Exército, sob cuja jurisdição estava a poderosa Vila Militar,
interpelou Walter Pires sobre o episódio de Brasília e ele garantiu: “Gente do
meu gabinete não foi”. Newton Cruz, que estava na reunião, contaria: “Senti
um frio na espinha”. O CIE era um anexo do gabinete de Pires, e seu chefe, o
general Iris Lustosa, ouvira-o calado. “Se não tinham sido eles, tinha sido
eu.”12
Uma semana depois da ameaça pública de Pires, Tancredo foi ao seu
apartamento, na Barra da Tijuca. Não se conhece o teor da conversa, apenas
o seu momento decisivo, aquele em que Tancredo teria exposto ao ministro o
receio de que se tentasse um golpe militar: “Tenho que avisá-lo de que, se vier
o golpe, virá resistência e haverá derramamento de sangue”.13 É improvável
que essa frase tenha sido dita com essas palavras, estranhas ao estilo do suave
mineiro. Contudo, é certo que, à sua maneira, Tancredo disse a Walter Pires
exatamente isso, e dele recebeu a informação de que nada havia a temer.
Geisel recebeu Tancredo em seu escritório do Rio. Não lhe deu apoio, mas
deixou-se fotografar abraçando-o. Aconselhou-o a ficar longe dos quartéis.14
Enquanto os dois conversavam, um assessor de Tancredo recebeu um telex
com trechos do discurso que o ministro da Aeronáutica, Délio Jardim de
Mattos, fizera em Salvador, onde também haviam aparecido pichações ligando
o PCB a Tancredo: “A História não fala bem dos covardes e, muito menos, dos
traidores”.15 Aquele era o dia do aniversário de Antonio Carlos Magalhães.
Tinha a casa cheia, trancou-se no escritório e redigiu uma nota respondendo
a Délio: “Trair a Revolução de 1964 (…) é apoiar Maluf para presidente. Trair os
propósitos de seriedade e dignidade da vida pública é fazer o jogo de um
corrupto”.16 Pela primeira vez, um destacado político que apoiara a ditadura
desde a primeira hora respondia com tamanha dureza a um ministro militar.
Tancredo, a quem ACM lera a sua nota, assustou-se, mas não o demoveu.17
No dia seguinte, Heitor Ferreira foi ao Planalto e ouviu do general Octavio
Medeiros que o brigadeiro Délio responderia ao ataque e que Antonio Carlos
seria processado. Conhecendo o governo, Heitor achou que não aconteceria
uma coisa nem outra.18 Acertou. A contrariedade oficial limitou-se a uma
constrangedora descortesia cenográfica. Durante o desfile de Sete de
Setembro, Figueiredo não dirigiu a palavra a Aureliano e os ministros militares
o deixaram isolado no palanque.19
A ação militar contra Tancredo viera exatamente de onde saíram as
bombas que estouraram teatros em 1968: do CIE, o ninho de oficiais
voluntaristas que no dia da demissão do general Frota sonharam atacar o
palácio do Planalto com algumas dezenas de militares e coquetéis-molotovs.
Na segunda semana de outubro, o general Lustosa reuniu quatrocentos
oficiais que serviam em Brasília, de tenente a general, para uma demorada
palestra na qual o CIE mostrou a extensão de uma campanha comunista.
Abriu os trabalhos lendo uma nota de Walter Pires, que alertava para o fato de
o Brasil estar entrando numa situação “pré-revolucionária”.20 Seguiu-se um
arrastão contra militantes do PC do B em quatro capitais, com a prisão de 39
pessoas.21 Da Bahia, contudo, partiu um sinal: o deputado Luís Eduardo
Magalhães, filho de ACM, foi ao DOPS para visitá-los.
Armava-se uma crise com o beneplácito do ministro do Exército e o
estímulo verbal do presidente da República. No dia 21 de setembro, os Altos-
Comandos de Exército, Marinha e Aeronáutica reuniram-se e soltaram três
notas oficiais. Para quem planejara uma operação conjunta, destinada a
mostrar unidade, deu errado. As notas do Exército e da Aeronáutica tinham
fraseados idênticos, falavam em “preocupante radicalização política”,
campanha de “calúnias” e de “descrédito contra as autoridades civis e
militares” e apontavam para os riscos que corriam a sucessão e “o próprio êxito
do projeto de abertura política”.22 Na nota da Marinha, nem uma palavra. É
verdade que desde o século XIX os golpes não dependiam da Armada, mas as
notas expuseram uma divisão embaraçosa. De Teresópolis, Geisel desdenhava
o risco de uma quartelada. Vira sete e ganhara em quatro.23
Todas as conspirações fracassadas acabam transformadas em episódios
folclóricos, como se nunca tivessem tido chance de dar certo. Contudo, nem
sempre foi assim. Na crise de 1965, entendeu-se que a Vila Militar rebelara-se,
emparedando o marechal Castello Branco e obrigando-o a baixar o Ato
Institucional no 2, que cancelou as eleições diretas para presidente e
governadores. Geisel, que chefiava o Gabinete Militar de Castello, sempre
achou que o presidente cedera a um blefe. Em outro exemplo de sucesso, em
1969 os três ministros militares chamaram o vice-presidente Pedro Aleixo e
informaram-no de que o presidente Costa e Silva tivera um acidente vascular
cerebral e que assumiriam o poder no seu lugar. Aleixo, conformado, foi para
casa, e o CIE guarneceu a portaria de seu edifício para evitar que deixasse o
Rio de Janeiro.
O episódio estava fresco na memória de Tancredo. Diversas teorias
conspiratórias chegaram ao comando de sua campanha. Em todas, o sujeito
da frase era Newton Cruz, comandante militar do Planalto. O próprio
Tancredo disse, publicamente, que estava preocupado em evitar “o golpe, um
gesto inconsequente desse general Newton Cruz”.24 O candidato deveria
estar pronto para sumir de Brasília ao menor sinal de desordem.25 Iria para
Minas Gerais, ou talvez para o Paraná, cujo governo estava com José Richa e
cuja tropa estava sob o comando do general Leonidas.(...)
Delfim Netto registraria: “É incrível o que aconteceu com os militares
depois que Tancredo começou a mandar emissários ou a conversar com eles.
Coisa inacreditável. Você via e não acreditava”."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016. P. 306-312

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