"Passado meio século, desfizeram-se alguns dos grandes grupos industriais e
financeiros de 1964, inclusive aqueles que pertenciam aos empresários que
organizaram o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, o IPÊS, onde se
agruparam empresários e militares que se opunham ao governo de João
Goulart. Seu presidente, João Baptista Leopoldo Figueiredo, dirigiu inúmeras
empresas, entre as quais a Scania, onde se deu a primeira grande greve
operária de 1978. Participou dos conselhos do banco Itaú, da Pirelli e da
Siemens. Morreu em 1989, aos 79 anos. (Gilson Menezes, o operário que
desencadeou a greve da Scania, elegeu-se prefeito de Diadema em 1983, pelo
PT, e em 1987, pelo PSB.)
Antonio Gallotti, o ativo presidente da Light, viu suas empresas serem
estatizadas e, posteriormente, privatizadas. Redirecionou os interesses da
companhia para o ramo de investimentos e continuou ativo nos bastidores do
poder, mantendo sua influência e seu bom humor até a morte, em 1986, aos
78 anos.
Augusto Trajano de Azevedo Antunes, dono da Caemi, a maior mineradora
privada do país, morreu em 1996, aos 89 anos. Suas empresas, administradas
pelos netos, foram passadas à Vale. Durante a campanha das diretas, num
telefonema a Golbery, Antunes disse-lhe que seria necessário rearticular as
forças que haviam mobilizado em 1964. Depois de desligar, o general
comentou: “Para quê? Para acabarmos chamando o Ulysses Guimarães?”.11
O aristocrático banqueiro Cândido Guinle de Paula Machado morreu em
2000, aos 82 anos. Do império de sua família, pouco restava. Sua participação
no Banco Boavista, que dirigia, fora vendida em 1997 por uma quantia
simbólica.
O Banco Mercantil de São Paulo, de Gastão Vidigal, foi vendido ao Bradesco
em 2002, e o Unibanco, de Walther Moreira Salles, incorporado ao Itaú, em
2007. Ambos morreram em 2001.
As três grandes empreiteiras da ditadura sobreviveram a ela até que, em
2014, foram apanhadas na Operação Lava-Jato. Sebastião Camargo, o “China”,
morreu em 1994, deixando seu império para três filhas. Com três anos de
escolaridade, não falava em público e cultivava discretamente suas relações
com o poder. A Camargo Corrêa foi a maior empreiteira do país de 1964 a
1985.12 Chegou a ser a maior do mundo. Administrada por executivos e
controlada pelos genros de Camargo, em 2014 seu presidente e seu vicepresidente
foram encarcerados e passaram a colaborar com as investigações
da Lava-Jato. Foram condenados a quinze anos de prisão, que cumpririam em
casa, com tornozeleiras eletrônicas. Roberto Andrade, fundador da Andrade
Gutierrez (Itaipu), morreu em 2006 e a empresa passou a ser dirigida por um
de seus filhos. Seu presidente foi preso em 2015 e meses depois a empresa
passou a colaborar com as autoridades. Norberto Odebrecht, fundador e mola
mestra da empreiteira que suplantou todas as demais, morreu em julho de
2014, aos 93 anos, meses antes do envolvimento de sua empresa nas
investigações da Lava-Jato. Seu neto Marcelo, que comandava o grupo, foi
preso em junho de 2015. Como Sebastião Camargo, Andrade e Odebrecht
raramente davam entrevistas, conduta que não foi seguida por seus
herdeiros.13
Durante a ditadura, algumas empreiteiras tiveram êxitos estelares, mas
revelaram-se cometas. Olacyr de Moraes, dono da Constran, tornou-se muitos
anos depois o maior plantador individual de soja do mundo. Ficou famoso por
circular acompanhado de lindas senhoras. Quebrou em 1996, vendeu sua
empresa em 2010 e morreu em 2015. A Metropolitana, dos irmãos Alencar,
arrendatária dos jornais Correio da Manhã e Última Hora, faliu em 1974.
Marcello Alencar foi por duas vezes prefeito do Rio de Janeiro e governador do
estado de 1995 a 1999. Morreu em 2014. A Mendes Júnior, comandada por
Murilo Mendes, tropeçou com seus grandes negócios no Iraque e sobreviveu
batalhando na Justiça. Em 2014 seu vice-presidente foi preso na Operação
Lava-Jato, que desmontou a rede de corrupção armada pelas grandes
empreiteiras em seus negócios com a Petrobras. Num julgamento de primeira
instância, foi condenado a dezenove anos de prisão.
Os dois maiores bancos privados do país no século XXI, o Itaú, de Olavo
Setubal, e o Bradesco, de Amador Aguiar, eram pequenas instituições na
primeira metade do XX. Amador Aguiar morreu em 1991, aos 86 anos.
Raramente falou em público. Ao contrário de Walther Moreira Salles (ministro
da Fazenda do gabinete parlamentarista de 1961) e de Olavo Setubal (prefeito
nomeado de São Paulo de 1975 a 1979), jamais ocupou cargo público. Sua
marca pode ser percebida quando se vê que Laudo Natel, um dos diretores do
Bradesco, governou São Paulo duas vezes (1966-1967 e 1971-1975) sem nunca
ter recebido um voto.
Eugênio Gudin, o patriarca dos economistas brasileiros, viveu até 1986,
tendo completado cem anos sempre evitando beber água. Só vinho. Pery Igel,
principal acionista do grupo Ultra, que a ALN jurou de morte por ajudar o
aparelho repressivo, morreu de causas naturais em 1998.
Ivan Hasslocher, o publicitário que adquiriu fama organizando o IBAD,
deixou o país depois da deposição de Jango. Viveu entre os Estados Unidos, a
Inglaterra e a Suíça. Morreu em Houston, em 2000.14 A Engesa, empresa de
material bélico fundada pelo engenheiro José Luiz Whitaker Ribeiro, tornou-se
exportadora de armas, com negócios no Iraque. Fabricava os blindados Urutu,
famosos por sua presença em mobilizações militares contra manifestações
políticas. Faliu em 1993.
Luis Eulálio de Bueno Vidigal Filho, o interlocutor de Lula em 1977, presidiu a
Federação das Indústrias de São Paulo de 1980 a 1986 e dá nome ao seu
edifício-sede, na avenida Paulista. Sua empresa, a Cobrasma, faliu em 1993.
José Papa Junior ficou na presidência da Federação do Comércio de São
Paulo de 1969 a 1984. Em 2000 o Banco Lavra, de propriedade de sua família,
entrou em liquidação extrajudicial. Mario Garnero, presidente da Associação
Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores durante as greves de 1979,
teve decretada a liquidação extrajudicial de seu banco, Brasilinvest, em 1985.
Dos signatários do Manifesto dos Oito, publicado pela Gazeta Mercantil em
junho de 1978, defendendo o regime democrático e a livre-iniciativa, dois
continuaram à frente de grupos industriais poderosos.
Antonio Ermírio de Moraes disputou sem sucesso o governo de São Paulo em
1986 e morreu em 2014, aos 86 anos. A fortuna de sua família foi estimada em
12,7 bilhões de dólares. Jorge Gerdau, cujo complexo siderúrgico tornou-se um
dos maiores do país, foi colocado em 2011 por Dilma Rousseff à frente de uma
Câmara de Gestão, que definhou. Claudio Bardella continuou na presidência do
conselho de sua empresa. (O empresário Paulo Francini, que levou Lula ao
escritório de Bardella para negociar o fim da primeira greve do ABC, é diretor
da Fiesp.) Paulo Villares, comandante da indústria que leva o nome de sua
família, administrou o desmembramento e a venda da empresa. O
metalúrgico Luiz Inácio da Silva trabalhava na Villares quando se tornou
dirigente sindical. Severo Gomes elegeu-se senador pelo PMDB em 1982. Sua
empresa de têxteis quebrou. Morreu em 1992, com a mulher, Henriqueta, no
helicóptero em que estava Ulysses Guimarães. José Mindlin vendeu o controle
da indústria Metal Leve e dedicou-se a cuidar de sua biblioteca. Dela, cerca de
60 mil volumes foram doados à Universidade de São Paulo. Morreu em 2010,
aos 95 anos.
Das lideranças de guildas empresariais da ditadura, só Guilherme Afif
Domingos fez carreira. Presidiu a Associação Comercial de São Paulo de 1982
até 1987 e, novamente, de 2003 a 2007. Elegeu-se deputado federal e foi
constituinte de 1988. Candidatou-se sem sucesso à Presidência da República e
ao Senado. Em 2010 elegeu-se vice-governador de São Paulo e em 2013 foi
nomeado para a Secretaria da Micro e Pequena Empresa da Presidência da
República."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016.
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