Esse era o mundo em Brasília, onde o governo e a oposição conviviam com a bancarrota do Milagre, a maxidesvalorização da moeda e a inexorável tutela das contas públicas pelo Fundo Monetário Internacional. Em janeiro, o país tivera a maior taxa mensal de inflação de sua história.25 São Paulo tinha 1 milhão de desempregados.26
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A eleição direta era defendida pela Igreja católica, por organizações de trabalhadores e de estudantes. Na imprensa, só a Folha de S.Paulo. Antes mesmo dos distúrbios de abril, num editorial, informara que “somos favoráveis a eleições diretas em todos os níveis, inclusive para a Presidência da República”.44 Parecia muito, mas era pouco. Ulysses sabia que vários governadores do PMDB costuravam outras soluções. A bancada do partido queria que a campanha tivesse um lançamento retumbante, em Brasília, com um ato público no Congresso prestigiado pelos governadores. Seria um espetáculo cenográfico, provavelmente inútil. Ulysses propôs outra tática: a campanha deveria começar em cidades médias. Essa foi uma das melhores ideias de sua vida.
Tancredo Neves, por exemplo, anunciara que apoiaria a campanha, mas, em função do cargo que ocupava, não poderia participar dela “com ações marcantes”. O governador mineiro defendia uma candidatura de consenso e explicava: “As ideias não colidem, nem são conflitantes, pois a eleição por consenso só deve ser viabilizada na absoluta impossibilidade de eleições”.45 Ia até mais longe: “A campanha das diretas é necessária, mas lírica”.46 Para quem fazia a conta dos votos necessários no Congresso, a impossibilidade parecia absoluta. Contudo, pela coreografia da dança de sua rivalidade com Ulysses, Tancredo não tinha por que buscar colisões ou conflitos."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016.
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