"O receituário do regime sugeria jogar a crise para o Congresso e o general
deu a esse expediente um toque ridículo. Um deputado dissera que “todos os
ministros são ladrões, os militares e o presidente também”.26 Na bem-sucedida
provocação de 1968, Marcio Moreira Alves era um deputado vindo de uma
prestigiosa carreira jornalística e saído da cepa dos Mello Franco. O deputado
Mario Juruna, eleito pelo Rio de Janeiro, com 31 mil votos folclóricos, era um
índio xavante que aprendera português aos dezessete anos.27 Figueiredo
resolveu pedir à Câmara a cassação de seu mandato. Queria que o governo o
acompanhasse: “Até agora só onze ministros entraram com o ofício contra o
Juruna. Eu quero todos! Quem não fizer, diz ao Leitão, pode entrar com o
pedido de demissão. Eu demito!”.28 “Estou ficando sozinho… Não tenho mais
amigos… Agora vê, o Pires não está dando importância a nada. Viajou para a
Venezuela.”29 (O episódio terminou com um pedido de desculpas do
deputado.)
Faltava-lhe também a solidariedade de Geisel. Desde o enfarte de 1981, o
responsável por sua unção dizia que Figueiredo devia renunciar, mas essa
opinião costumava ficar no seu fechado círculo familiar. A confidência, no
entanto, transbordou. Uma conversa do ex-presidente com o deputado Marco
Maciel chegou a Heitor Ferreira: “Seria muito bom, e é o que ele deveria fazer,
que ele renunciasse à Presidência”.30
A caminho do seu vigésimo aniversário, o regime perdera o rumo.
Fechando 1983 com uma taxa de inflação de 211%, dobrara a marca de 80% de
Jango em 1963, levara o país à bancarrota e estava sob um sistema de auditoria
imposto pela banca internacional. Um dos pontos centrais de seus
compromissos com o FMI era a aprovação de uma lei que comprimisse os
reajustes salariais. A primeira tentativa deu-se com o Decreto no 2.024. Foi
rejeitado pelo Congresso. Seguiu-se o 2.045. O ministro da Justiça escreveu a
Figueiredo, considerando “inevitável a sua rejeição” e propondo a sua
retirada.31 O general foi em frente. Para evitar manifestações populares em
Brasília, valeu-se pela primeira vez do mecanismo constitucional das medidas
de emergência, suspendendo o direito de reunião e dando à tropa liberdade
para realizar operações de busca e apreensão na capital. Os acessos à cidade
foram patrulhados e revistavam-se passageiros no aeroporto, até que uma
equipe de policiais invadiu a sede seccional da Ordem dos Advogados do Brasil.
Diante da grita, o general Newton Cruz, comandante das operações militares,
reconheceu: “Quebramos a cara”.32 O Decreto no 2.045 foi retirado e entrou
o 2.064. Também capotou, substituído pelo 2.065, finalmente aprovado.
Estava criada uma escala para os reajustes salariais. Quem ganhava até três
salários mínimos recebia 100% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor.
Daí em diante, sofria perdas progressivas. Acima de vinte salários mínimos,
levava só 50% do que perdera com a inflação.33 O sistema duraria apenas um
ano, substituído por uma lei que criou duas faixas para os reajustes: 100% do
INPC até três salários mínimos e 80% daí em diante.34
A escolha do general Cruz para executar as medidas de emergência
resultara do fato de ele ser o comandante militar do Planalto. Colocando-o
nessa função, Figueiredo juntava gasolina e fogo. “Nini”, assim como ele e
Medeiros, chegara ao poder no SNI de Golbery. Ambos eram amigos e até
pouco tempo atrás o general chefiara a Agência Central do Serviço. Nela,
estivera no elenco dos dois episódios que desmoralizaram a “tigrada”: o
atentado do Riocentro e o assassinato de Baumgarten. Vendo-o de capacete,
montado num cavalo, Figueiredo dissera que era “o nosso Mussolini”. Sua
escolha foi criticada pelo general Gustavo de Moraes Rego, ex-chefe do
Gabinete Militar de Geisel, a quem visitava semanalmente.35 Estava na
reserva, mas tomou cinco dias de cadeia.36 Foi essa a mais longa detenção
provocada pelas medidas de emergência. Pouco depois, “Nini” meteu-se num
incidente com um repórter, agarrando-o pelo braço e obrigando-o a pedir
desculpas diante das câmeras por um comentário que considerou
inconveniente. Diante do episódio, o general José Maria de Toledo Camargo
(também da reserva), outro oficial que servira no palácio de Geisel, escreveu
um artigo condenando o “mau exemplo” dado por “um general irritado (…),
descontrolado”.37 Nada lhe aconteceu.
O PDS dera a Figueiredo uma delegação para que coordenasse a indicação
de seu sucessor. Não se pode dizer que lhe faltasse vontade, mas o general
fazia as coisas e seu contrário. Autorizou a candidatura de Andreazza, mas
não a autorizou: “Eu não mandei, ele me disse que ia se lançar, me
comunicou, e eu disse que era problema dele”.38 Falava em vetar Maluf, mas
dizia “não veto ninguém”.39 Aceitava prorrogar seu mandato diante de “uma
crise insuperável”, mas também não a aceitava.40 Tentou criar uma crise a
partir do discurso do deputado Juruna, mas recuou. Emenda das diretas? “Se
dependesse do meu voto, aprovaria.”41 No dia seguinte, explicou: “Jamais
passou pela minha cabeça fazer eleições diretas agora”.42 Disse que
coordenaria a escolha de um candidato e, comparando esse trabalho a uma
partida de futebol, prometeu jogar “até fazendo falta, se necessário”.43 Essa
partida deveria começar em 1984. No dia 29 de dezembro de 1983, Figueiredo
anunciou que devolvia ao partido do governo a tarefa de escolher o nome do
candidato.44
(...)
Figueiredo teve dois rumos. Não queria Maluf e acreditava que fosse
possível um acordo com a oposição para se chegar a um mandato-tampão,
com ele ou sem ele, ao fim do qual seriam realizadas eleições diretas, talvez
em 1991.46
Durante um jantar em Brasília, o professor João Leitão de Abreu ofereceu o
caminho de um grande entendimento. O PDS e o PMDB sairiam do cadeado
das diretas e iriam para o Colégio Eleitoral para escolher o novo presidente
negociando a duração desse mandato. Numa frase, ele deu a chave: “A
fidelidade partidária no tocante às eleições presidenciais será ineficaz. O voto
infiel vale”.47 Marchezan, habitual interlocutor de Leitão, seria mais claro:
“Se é possível ser infiel no PDS, também é possível ser infiel no PMDB. Afinal,
o mesmo risco que corre o martelo, corre a bigorna”.48 Nessa hipótese,
delegados do PMDB votariam num candidato do PDS. Talvez, desde que não
fosse Paulo Maluf, pois Leitão dizia que ele podia até vencer a convenção do
PDS, mas perderia no Colégio Eleitoral.49"
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016.

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