sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

"Aos 72 anos, Tancredo era um homem miúdo, gentil e de fala pausada.
Preferia ouvir. Ao telefone, nem isso. Na adolescência, tentara ser
engenheiro, oficial da Marinha e médico, mas terminara advogado.1 Vinha da
elite política mineira e dela trazia lances do seu folclore.2 Quando ouviu um
amigo dizer que agiria de uma forma e “o resto”, de outra, ensinou-lhe:
“Nunca diga o resto, mas ‘os demais’”.3 E quando um colega de partido
telefonou à noite dizendo que, depois de uma reunião, haviam cortado um
trecho de um documento e precisavam consultá-lo, respondeu: “Para cortar
não precisa me consultar”.4
Esse folclore era um verniz. Tancredo vivera uma parte da história do
Brasil e a conhecia toda, como poucos. Despedira-se do Senado com um
discurso magistral. Num sobrevoo pelo passado, referiu-se a dois grandes
políticos do Império: “Vasconcelos e Paraná plantaram as nossas instituições
livres para ordenar o caos e disciplinar a desordem”.5
Eram palavras que saíam da alma, para consumo de poucos. Bernardo
Pereira de Vasconcelos e o marquês de Paraná foram glórias do Partido
Conservador. Um comandou o Regresso, movimento que freou a desordem da
Regência, o outro fizera a política de conciliação que levou paz ao Segundo
Reinado.
Tancredo estava na oposição desde 1964, mas de 1930 até a deposição de
João Goulart passara apenas seis anos como oposicionista em Minas Gerais.
Salvo no interregno de sete meses da Presidência de Jânio Quadros, sempre
estivera no poder federal. Na sua vida pública vira divisões e tragédias,
aprendendo com elas o que há de fugaz nas paixões políticas. Dizia que “se o
Maquiavel vivesse nos dias de hoje não passaria de um vereador”.6 Durante a
crise de agosto de 1954, defendera, como ministro da Justiça de Getulio Vargas,
o enquadramento disciplinar dos oficiais que armavam um golpe contra o
presidente e, na dramática reunião da noite do dia 23, propôs que se resistisse
à rebelião militar. Na manhã do dia 24 ouviu o estampido e foi um dos
primeiros a chegar ao quarto onde assistiu aos poucos instantes de agonia do
presidente. No dia seguinte estava em São Borja (RJ), discursando diante de
seu túmulo. Num cenário de traições, Tancredo manteve-se fiel a Getulio.
Sete anos depois, com o país à beira da guerra civil, negociaria com o general
Ernesto Geisel, chefe do Gabinete Militar do presidente interino, o retorno e a
posse do vice-presidente João Goulart num regime parlamentarista. (Nenhum
dos dois jamais contou o que conversaram. Geisel limitava-se a dizer que
providenciara para que Tancredo fosse a Montevidéu no avião presidencial, o
que não era pouca coisa.)7
Depois do suicídio de Vargas, Tancredo reassumiu seu mandato
parlamentar com um discurso a um só tempo pacificador e cruel. A certa
altura, mencionou “figuras corvinas de grandes líderes”. Tratava-se de Carlos
Lacerda, o algoz de Vargas, com seu detestável apelido de “Corvo”. Denunciou
a “influência desagregadora da Escola Superior de Guerra [que] se
transformou num centro de exploração política e de atividades
conspiratórias”.8 Anos depois, como primeiro-ministro de João Goulart, foi à
ESG e lá fez uma palestra intitulada “O panorama mundial e a segurança
nacional”. Redigira-a o general Golbery do Couto e Silva, o escriba da ESG e de
suas conspirações. Em 1954, Golbery escrevera o Manifesto dos Coronéis, que
provocou a demissão de João Goulart do Ministério do Trabalho, e o Manifesto
dos Generais, que exigia a saída de Vargas do palácio do Catete.9
Líder do governo na Câmara, Tancredo tentou evitar que Jango cometesse
a imprudência de ir à assembleia de sargentos e suboficiais do Automóvel
Clube na noite de 30 de março de 1964. Quarenta e oito horas depois, quando
o presidente estava praticamente deposto, acompanhou-o à Base Aérea de
Brasília, de onde embarcaria para Porto Alegre. De novo, num cenário de
traições, manteve-se fiel ao presidente. Apesar de um pedido de Juscelino
Kubitschek, recusara-se a votar em Castello Branco, de cuja filha fora
padrinho de casamento. JK argumentou que Castello era um general de tintas
civilistas, que lera muito. Tancredo respondeu-lhe: “Leu os livros errados”.10
Isso apesar de ter sido decisivo, anos antes, para conseguir a promoção de
Castello a general de divisão.11
Em 1983, Tancredo era o político oposicionista com maior experiência
administrativa. Como primeiro-ministro, tivera um gabinete de inédita
qualidade. No Ministério da Fazenda ficara o banqueiro Walther Moreira
Salles; no do Trabalho, Franco Montoro; no da Indústria e Comércio, Ulysses
Guimarães; no Itamaraty, San Tiago Dantas. Somava a isso sólida experiência
fiscal, pois fora diretor de um banco estadual e da carteira de redescontos do
Banco do Brasil, além de ter dirigido a Secretaria de Finanças de Minas
Gerais.12 Levando-se em conta que dos cinco presidentes militares só Geisel
ocupara cargos fora da caserna, a biografia de Tancredo era mais densa que a
de todos os seus antecessores, desde Jânio Quadros.
Era um oposicionista que não cabia na moldura do regime do AI-5. Para a
“tigrada” do CIE, era um aliado dos comunistas.13 [Veja o documento] Para a
ala mais combativa do MDB, um oposicionista em busca de uma negociação.
Durante a campanha eleitoral de 1974, a prudência afastara-o da disputa
pelo Senado. Temendo uma derrota, preferira o conforto de uma reeleição
para a Câmara e estimulara a candidatura do pouco conhecido Itamar Franco,
prefeito de Juiz de Fora.14 Foi excesso de cautela. Geisel achava que se ele
tentasse o Senado, venceria.15 Quatro anos depois, Tancredo disputaria com
êxito a cadeira de senador.
Em 1983, no dia seguinte à sua posse como governador de Minas Gerais,
Tancredo juntou alguns convidados para um almoço. Na mistura via-se a
marca do anfitrião. Numa mesa, Moreira Salles. Noutra, o almirante Faria
Lima, ex-governador do Rio de Janeiro, amigo de Geisel. Entre os
correligionários vindos de outros estados, o deputado pernambucano Fernando
Lyra, que se elegera em 1970 com o apoio do Partido Comunista e do pai,
próspero concessionário de ônibus de Caruaru. Lyra era um dos mais
destacados parlamentares do grupo “autêntico” do MDB, adversário dos
“moderados”, que gravitavam em torno de Tancredo. Terminado o almoço,
pediu uns instantes ao governador e disse-lhe que a partir daquele momento
ele era seu candidato a presidente. Tancredo desconversou.16"
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016.







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