"Figueiredo sancionou a Lei da Anistia em agosto de
1979. Semanas depois voltaram ao país Leonel Brizola, Miguel Arraes e Luiz
Carlos Prestes. Em Paris, o dirigente comunista Julio voltou a ser Armênio
Guedes, cujo irmão fora assassinado em 1972. Em Cruzeiro do Oeste (PR), Carlos
Henrique Gouvea de Melo jogou no milhar da Lei da Anistia (6.683) e ganhou o
suficiente para convidar sua mulher, Clara Becker, para jantar. Contou-lhe que
era José Dirceu de Oliveira e Silva e seguiria outro rumo.5 Famílias que
estiveram diante das portas de prisões para visitar seus parentes tornaram-se
grupos alegres nos aeroportos, onde iam buscá-los na volta do exílio.
A anistia que Figueiredo mandou ao Congresso foi
menor do que pedia a praça. O presidente insistira em não estendê-la a “terroristas”
e cuidou para que isso ficasse expresso no projeto. Recebera, e guardara, uma
carta de Edyla Mangabeira Unger, cuja filha, Nancy, estudava filosofia e fora
presa no Recife, em 1970. Militara no PCBR, e no aparelho em que foi capturada achou-se
um plano para sequestrar o cônsul americano.6 Havia sido banida na troca de
presos depois do sequestro do embaixador suíço.
(...)
O bloqueio da anistia a pessoas condenadas pela prática de crimes
de sangue ocorridos durante o surto terrorista foi descosturado pontual e habilmente
na Justiça Militar. Em janeiro, estimava-se que houvesse no país 268 presos.14 Em agosto, na conta do STM, haveria 52 pessoas presas e dezessete
seriam libertadas imediatamente.15 Não só os
tribunais desconheciam quantos eram os condenados, como o próprio palácio do Planalto
não fora além de uma estimativa. Havia também incongruências. A professora
Glenda Mezarobba mostrou uma delas: tomando-se o caso de quarenta pessoas
condenadas por terem militado na Ação Libertadora Nacional, dezesseis que
estavam presas não teriam direito à anistia, mas treze, que haviam sido
banidas, teriam.16 Manuel Cirilo de Oliveira, que
participara do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick em 1969 e fora
preso logo depois, continuaria na cadeia. Fernando Gabeira, que estivera na
mesma ação e fora banido em 1972, seria anistiado. Nancy Mangabeira, trocada
pelo embaixador suíço, poderia retornar ao Brasil. Entre os presos estava José
Sales de Oliveira, um ex-seminarista cearense que militara no PCBR e fora condenado
por ter participado em 1970 de um assalto, durante o qual morrera um
comerciante, continuaria cumprindo sua pena.17
(...)
Anistia, reorganização partidária ou mesmo uma Constituinte pressupunham
um nível de distensão política que Figueiredo almejava, em tese. Na prática,
semanas depois da apresentação dessa minuta, o general descontrolara-se durante
uma cerimônia em Florianópolis. Da sacada do velho palácio acenara para a
multidão e rira para uma pequena manifestação organizada por estudantes com
faixas dizendo “Abaixo a fome” e gritos de “Abaixo Figueiredo, o povo quer
dinheiro”. Isso jamais lhe acontecera. Quando ouviu uma variante do grito de
torcida (“Um, dois, três/ quatro, cinco mil…”), desvencilhou-se da comitiva,
desceu do salão e foi para a rua bater boca: “Eu gostaria de perguntar por que
a minha mãe está em pauta. Vocês ofenderam minha mãe. (…) Se é esse o argumento
que vocês têm, podem ir para a Rússia. No meu país, não”.21 Foram presas sete pessoas, libertadas dias depois e absolvidas em
1981.22 (Cinco anos antes o deputado Francisco
Pinto fora condenado pelo Supremo Tribunal Federal a seis meses de prisão por
ter chamado o general Augusto
Pinochet de “sangrento personagem” e “fascista”.)"
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016.
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