no peito. Sua pressão estava alta, as taxas de gordura no sangue mostravam-se
elevadas. O cardiologista americano Floyd Loop, que o examinara depois do
enfarte, voltara a vê-lo no Rio, reclamara de seu peso e avisara: “O senhor
pode estar cavando sua sepultura com o talher”. Figueiredo prometeu-lhe
emagrecer cinco quilos e “comer em pé, o que, pelo desconforto, diminui o
apetite”.1 À cardiopatia somavam-se padecimentos irritantes, como uma
conjuntivite crônica, as dores na perna, que descrevia como “dor de dente na
bunda”, mais uma inflação de 211%. A dívida externa batera os 90 bilhões de
dólares, não havia dinheiro para pagar compromissos que estavam vencendo e
o país entrara numa “moratória branca”.2 Tendo sido o primeiro presidente
em cujo mandato o Produto Interno Bruto sofrera uma contração (-4,25% em
1981), fechara o ano de 1983 com um novo desastre (-2,9%). Assim como não
seguia as recomendações do cardiologista, seu governo não cumpria as metas
a que se propunha. Figueiredo recebeu a carta de uma senhora cujo filho, que
tinha uma pequena empresa de construção civil, se matara com um tiro no
peito. Ela contava que no dia do enterro vira Delfim Netto na televisão
“dizendo que está tudo bem. Bem? (…) Pense, por favor”. Figueiredo anotou:
“!!! Não entendo mais nada!”.3 Os números da economia
mostravam que a senhora entendera tudo. A taxa de desemprego de 1983
chegaria ao pico de 4,72%, e a renda per capita dos brasileiros caíra de 987,00
cruzeiros em 1979 para 819,42 cruzeiros.4
Diante da intensificação dos murmúrios de que sua cardiopatia
recrudescera, o cavalariano atlético apareceu montado na pista da granja do
Torto.5 Enquanto isso, o deputado José Camargo percorria dez estados
coletando assinaturas para a emenda da reeleição de Figueiredo, visitando até
mesmo Tancredo Neves. Nesse encontro sinalizou que agia com o
conhecimento do general. Ligou para o presidente e passou-lhe o aparelho
para uma troca de amabilidades.6 Com os endossos necessários, Camargo
ganhou um aliado surpreendente. Leonel Brizola aceitava que Figueiredo
fosse reeleito indiretamente para um mandato-tampão de dois anos (o tempo
necessário para que concluísse seu governo no Rio) sendo sucedido por um
presidente, eleito pelo voto direto.7 Outro sinal claro do interesse de
Figueiredo em permanecer no governo veio de Nelson Marchezan, líder do
governo na Câmara. Reproduzindo o que ouvira numa audiência, informou
que o presidente só discutiria esse caminho diante de uma “crise insuperável
(…) se não houver quem possa substituí-lo”.8 Numa visita a Natal, foi recebido
por uma claque que cantava: “João, João, o candidato da nação”.9
Dois meses depois, Figueiredo voltou à Clínica Cleveland. Dessa vez para o
centro cirúrgico, onde, imediatamente, recebeu duas pontes de safena e uma
mamária. A segunda interinidade de Aureliano durou 43 dias. Na primeira, os
“ministros da Casa” haviam-no deixado às moscas. O professor Leitão, por
exemplo, ficara fora do palácio vinte dias. Delfim Netto passara boa parte do
tempo viajando pelo exterior.10 Nenhuma das arestas anteriores fora retirada
e havia outra, nova: Aureliano defendera a eleição direta, era candidato à
Presidência da República e sabia que tinha o apoio de Geisel.11
Mesmo dizendo que não ia “dar ao Figueiredo o mínimo motivo para briga”,
os cuidados de Aureliano de nada adiantaram.12 Talvez sua cautela tenha sido
insuficiente, mas na história da República não havia precedente em que uma
crise ou a substituição eventual do titular tivesse solidificado suas relações
com o interino. Numa lista de 72 telefonemas recebidos pelos assistentes de
Figueiredo em Cleveland durante dezesseis dias, nenhum veio do vicepresidente.
13 (O deputado José Camargo, autor da emenda que permitiria a
reeleição, ligou duas vezes e visitou-o.)14 Desde o enfarte de 1981, o general
poupava-se com jornadas curtas, encerradas às dezoito horas.15 O vice
entrava pela noite e não escondia suas divergências com Delfim. Reunido com
empresários, condenou o primeiro acordo firmado com o FMI: “Isso não está
dando certo”.16
O governo descumprira todos os compromissos assumidos com o Fundo, a
liberação de seus empréstimos havia sido congelada, uma promissória de 400
milhões de dólares venceria naqueles dias e faltava caixa.17 Aureliano estava
na Presidência quando três representantes do cartel de credores desceram
secretamente em Brasília, reuniram-se com Delfim, pediram mais apertos e
combinaram que o Fundo mandaria periodicamente equipes de inspetores ao
país.18
Durante uma surpreendente entrevista dada ao cineasta Julio Bressane,
Golbery dissera: “Figueiredo é uma pessoa que não tem vontade de dirigir o
país, não está interessado em dirigir o país. E não tem mais saúde para dirigir o
país”. Adiante, expôs o problema: “Que grande paradoxo, este. Quanto mais
cresce, mais o Aureliano cava sua sepultura”.19 (Até então o general
suspeitara que seus telefones estivessem controlados. Semanas depois, havia
fotógrafos no estacionamento de seu escritório. Num exemplo dos métodos
burocráticos do SNI, em pelo menos um caso não vigiaram a entrada de
pedestres, por onde passara Heitor Ferreira.)20
Figueiredo reassumiu com coronárias novas e mais horror a Aureliano.
Mostrava-se disposto a mais do mesmo. Manteve um regime de meio
expediente no Planalto, mas deixou-se fotografar montando Corsário na pista
do Torto.21 Na noite de uma importante votação no Congresso que
inviabilizaria os novos compromissos assumidos com o FMI, foi a um
churrasco.22 O general Medeiros resumiria a situação: “Tá tudo feio que tá
danado”.23 Há tempos o governador da Bahia, Antonio Carlos Magalhães,
confidenciava que “o Figueiredo não manda em nada, não se interessa por
nada, deixa tudo para o Leitão resolver. (…) De vez em quando dá um esporro,
uns gritos para mostrar autoridade. É só”. Ele dizia que “o Delfim está
fortíssimo. É o único sujeito com coragem no ministério”.24 Nem tanto, pois o
czar da economia também reclamava: “É lamentável, não temos presidente,
não temos governo. Eu puxei várias vezes o assunto do acerto com os bancos
estrangeiros, que está muito bom, e o Figueiredo só quer reclamar de
bobagens”.25"
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016.
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