"GEISEL, GOLBERY E FIGUEIREDO
JANEIRO Figueiredo submete-se a uma cirurgia da coluna no Rio. Não passa
o cargo a Aureliano Chaves. Restabelecendo-se, posa para uma fotografia no
jardim da casa de saúde, prostrado. Tancredo vai visitá-lo. Geisel não vai.
Golbery diz que não procura Geisel. Argumenta que mesmo não tendo
apoiado Tancredo abertamente, Geisel será responsável pelo que vier a
acontecer: “Se der certo, muito bem, os louros irão para ele, mas se houver
um desastre, não é justo que venha dizer que nada tinha a ver com isso”.
Numa entrevista, Figueiredo pede aos 70% dos brasileiros que apoiam
Tancredo (“o povão”) “que me esqueçam”.
José Sarney, vice-presidente eleito, encontra-se com Geisel.
MARÇO Com Tancredo internado, Figueiredo recusa-se a passar a faixa
presidencial a José Sarney, deixa o palácio por uma porta lateral, pega o avião e
vai para o apartamento de um amigo no Rio.
Numa conversa, Figueiredo prevê que se Tancredo não resistir “Sarney não
governa” e o desfecho seria o retorno dos militares ao poder.
ABRIL Durante o velório de Tancredo no palácio do Planalto, Geisel e Ulysses
Guimarães cumprimentam-se. Figueiredo não comparece.
Com o fim da ditadura, Geisel, Golbery e Figueiredo afastam-se da vida
pública.
POLÍTICA
JANEIRO Na madrugada da ceia do Réveillon, Tancredo sente-se mal. Sua
irmã, a religiosa Esther, diz que ele precisa ver um médico. Ele responde: “O
SNI vai saber e vão aproveitar”. Dias depois fica febril, liga para seu médico
mineiro e pede um antibiótico oral.
Tancredo Neves é eleito presidente da República por 480 votos contra 180
de Paulo Maluf. Cita o poeta francês Verlaine e diz que recebe a vitória “com
êxtase e terror”. Realizam-se comícios-festas em várias cidades.
Tancredo diz ao médico Renault Mattos Ribeiro que sente dores na virilha.
Tancredo embarca para uma viagem para Itália, França, Portugal, EUA,
México e Argentina. Durante sua passagem por Washington, tem uma dura
conversa com o secretário de Estado, George Shultz. Diz que pretende fazer
um governo de austeridade, honrando os compromissos do país, mas se os
bancos se fecharem as consequências serão imprevisíveis.
MARÇO Tancredo Neves deverá tomar posse no dia 15, uma sexta-feira. No
dia 12, seu estado de saúde se agrava. Na noite de 14, é levado às pressas para o
Hospital de Base, em Brasília, e é submetido à primeira cirurgia.
José Sarney é empossado na Presidência da República, com o ministério de
Tancredo.
No dia 20, Tancredo passa por uma nova cirurgia. Uma semana depois, posa
para uma foto num cenário maquiado. No dia seguinte, é transferido para São
Paulo e vai para a terceira cirurgia.
O Alto-Comando do Exército caroneia o general Newton Cruz na lista de
promoções à quarta estrela e ele é transferido automaticamente para a
reserva.
ABRIL No dia 2, ocorre a quarta cirurgia de Tancredo. Até o dia 12, mais três.
Em 21 de abril, Dia de Tiradentes, é anunciada a morte de Tancredo Neves.
Depois de ser velado em Brasília e Belo Horizonte, ele é sepultado em São João
del Rei (MG).
AGOSTO A deputada Bete Mendes acusa o coronel Carlos Alberto Brilhante
Ustra de tê-la torturado no DOI de São Paulo. O ministro do Exército, general
Leonidas Pires Gonçalves, informa que mantém sua confiança em Ustra.
OUTUBRO Morre o ex-presidente Médici.
ECONOMIA E SOCIEDADE
JANEIRO Realiza-se o primeiro show Rock in Rio.
O FMI diz que não discutirá com o governo brasileiro a sua sétima carta de
intenção. Prometia 60% de inflação no ano.
Em sua primeira entrevista coletiva como presidente eleito, Tancredo diz
que dívida “se paga com dinheiro, não se paga dinheiro com fome, miséria e
desemprego”.
FEVEREIRO O diretor-geral do FMI congela os entendimentos com o Brasil.
Em visita ao Brasil, o banqueiro americano David Rockefeller visita
Tancredo e responde à sua frase sobre a dívida externa: “Dívida é dívida e seu
conceito não varia”.
MARÇO Num dos primeiros atos do novo governo, o Banco Central intervém
no Grupo Brasilinvest, do paulista Mario Garnero. Ele fora um dos mais
destacados líderes empresariais da ditadura.
ABRIL O ministro da Fazenda, Francisco Dornelles, reabre as negociações da
dívida externa com o FMI e os bancos. Ela está em US$ 103 bilhões.
No circuito do Estoril, em Portugal, Ayrton Senna consegue sua primeira
vitória na Fórmula 1.
JUNHO Estreia na TV Globo a novela Roque Santeiro, de Dias Gomes. Ela fora
vetada pela Censura em 1975.
Identificados os restos mortais do criminoso nazista Josef Mengele. Ele
morrera em 1979 em São Paulo e fora sepultado com a identidade falsa com
que vivia.
JULHO O Peru decreta moratória de sua dívida externa.
AGOSTO Francisco Dornelles deixa o Ministério da Fazenda e Sarney coloca
em seu lugar o empresário Dilson Funaro.
NOVEMBRO Jânio Quadros é eleito prefeito de São Paulo, derrotando
Fernando Henrique Cardoso.
DEZEMBRO O ministro Dilson Funaro indica aos bancos credores que o Brasil
pode entrar no caminho da decretação de uma moratória. Em fevereiro de
1986 cumpriria a promessa.
O ano termina com a inflação (IGP-DI) em 235% e o PIB cresce 7,85%."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017
1984
"JANEIRO A Folha de S.Paulo começa a publicar a programação da campanha das Diretas. Só para janeiro anuncia vinte eventos. Leitão de Abreu prevê a derrota de Maluf no Colégio. Comício das Diretas em Curitiba. Grande comício das Diretas na praça da Sé, em São Paulo.
FEVEREIRO Comício em Belo Horizonte.
ABRIL Comício das Diretas no Rio. A multidão canta Caminhando, música proibida em 1968.
Comício no Anhangabaú, em São Paulo, o maior da história. No Brasil, estima-se que 4 milhões de pessoas já tenham ido às ruas pedindo eleições
diretas. Brasília é colocada sob o regime de medidas de emergência. Suspende-se
direito de reunião e impõe-se censura parcial à imprensa. O comandant
militar do Planalto, general Newton Cruz, bota sua tropa na rua e sai
montando um cavalo branco.
Numa sessão que durou dezessete horas, a Câmara rejeita a emenda Dante
de Oliveira. Tem 298 votos, mas faltam-lhe 22.
MAIO Antonio Carlos Magalhães diz a Tancredo que se Maluf ganhar a
convenção do PDS ele o apoia no Colégio Eleitoral.
A campanha das Diretas-Já transforma-se em Tancredo-Já.
Tancredo anuncia que disputará a Presidência.
A convenção do PDS escolhe Paulo Maluf. Derrotado, Andreazza não o
apoia, e Antonio Carlos Magalhães, seu principal articulador, embarca na
candidatura de Tancredo.
SETEMBRO Tancredo encontra-se com o ministro do Exército, general
Walter Pires.
OUTUBRO Tancredo diz que teme um golpe, “gesto inconsequente desse
general Newton Cruz”.
NOVEMBRO Tancredo é avisado de que o general Newton Cruz perderá o
comando da tropa de Brasília.
O Tribunal Superior Eleitoral decide que na eleição presidencial de janeiro
os delegados não estarão presos à fidelidade partidária. É o fim de Maluf.
DEZEMBRO Novo comício na praça da Sé. Festeja-se antecipadamente a
vitória de Tancredo. Na ponta do lápis, ele já tem maioria no Colégio Eleitoral.
O poderoso empresário Antonio Gallotti, um dos fundadores do IPÊS, na
noite do Réveillon: “É uma sorte que depois de vinte anos a gente saia dessa
com o Tancredo”."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016
FEVEREIRO Comício em Belo Horizonte.
ABRIL Comício das Diretas no Rio. A multidão canta Caminhando, música proibida em 1968.
Comício no Anhangabaú, em São Paulo, o maior da história. No Brasil, estima-se que 4 milhões de pessoas já tenham ido às ruas pedindo eleições
diretas. Brasília é colocada sob o regime de medidas de emergência. Suspende-se
direito de reunião e impõe-se censura parcial à imprensa. O comandant
militar do Planalto, general Newton Cruz, bota sua tropa na rua e sai
montando um cavalo branco.
Numa sessão que durou dezessete horas, a Câmara rejeita a emenda Dante
de Oliveira. Tem 298 votos, mas faltam-lhe 22.
MAIO Antonio Carlos Magalhães diz a Tancredo que se Maluf ganhar a
convenção do PDS ele o apoia no Colégio Eleitoral.
A campanha das Diretas-Já transforma-se em Tancredo-Já.
Tancredo anuncia que disputará a Presidência.
A convenção do PDS escolhe Paulo Maluf. Derrotado, Andreazza não o
apoia, e Antonio Carlos Magalhães, seu principal articulador, embarca na
candidatura de Tancredo.
SETEMBRO Tancredo encontra-se com o ministro do Exército, general
Walter Pires.
OUTUBRO Tancredo diz que teme um golpe, “gesto inconsequente desse
general Newton Cruz”.
NOVEMBRO Tancredo é avisado de que o general Newton Cruz perderá o
comando da tropa de Brasília.
O Tribunal Superior Eleitoral decide que na eleição presidencial de janeiro
os delegados não estarão presos à fidelidade partidária. É o fim de Maluf.
DEZEMBRO Novo comício na praça da Sé. Festeja-se antecipadamente a
vitória de Tancredo. Na ponta do lápis, ele já tem maioria no Colégio Eleitoral.
O poderoso empresário Antonio Gallotti, um dos fundadores do IPÊS, na
noite do Réveillon: “É uma sorte que depois de vinte anos a gente saia dessa
com o Tancredo”."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016
Os Ministros de Tancredo
Francisco Dornelles deixou a Fazenda cinco meses depois. Mais tarde foi ministro da Indústria e Comércio e do Trabalho. Elegeu-se senador em 2007 e vice-governador do Rio de Janeiro em 2014. Olavo Setubal saiu do Itamaraty em 1986 e voltou a comandar o banco Itaú. Morreu em 2008, aos 85 anos. Sob a direção de seu filho Roberto, o Itaú tornou-se o maior banco privado do país.
Fernando Lyra ficou menos de um ano no Ministério da Justiça. Elegeu-se deputado federal. Publicou um livro de memórias (Daquilo que eu sei — Tancredo e a transição democrática) e morreu em 2013.
Waldir Pires deixou o Ministério da Previdência em 1986 para disputar o governo da Bahia. Venceu, mas renunciou ao cargo, candidatando-se à Vice- Presidência da República na chapa de Ulysses Guimarães, em 1989. Deixou o PMDB e disputou em 2002, sem sucesso, uma cadeira no Senado pelo PT. Com a eleição de Lula, em 2002, foi nomeado para a chefia da Controladoria- Geral da União e para o Ministério da Defesa.
Pedro Simon ficou no Ministério da Agricultura até 1986, quando disputou o governo gaúcho, com sucesso. Tornou-se um dos líderes do PMDB, elegendose quatro vezes senador. Deixou a vida parlamentar em 2015. Roberto Gusmão, que fora um dos principais articuladores da campanha de Tancredo em São Paulo, deixou o Ministério da Indústria e Comércio em 1986 e voltou para São Paulo, onde passou a dividir seu tempo com a fazenda Santa Ignácia, em Ribeirão Preto.
O general Leonidas Pires Gonçalves permaneceu no Ministério do Exército durante todo o governo de Sarney. Manteve os quartéis em ordem, encerrando um período de anarquia militar iniciado com as revoltas do final do século XIX. Tornou-se o mais graduado defensor do aparelho repressivo da ditadura e, em 2014, encabeçou um manifesto de 27 generais de exército, todos da reserva, contra os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade. Morreu em 2015, aos 94 anos. Seu colega Ivan de Souza Mendes ficou na chefia do Serviço Nacional de Informações até 1990. Morreu em 2010, aos 87 anos. Numa de suas raras entrevistas, defendeu o governo de Lula. (O SNI foi extinto no início do governo Collor.)"
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016. p. 356-357.
Os políticos - continuação
"Orestes Quércia elegeu-se governador de São Paulo em 1986 e fez seu sucessor. Depois disso perdeu todas as eleições que disputou. Em 2010, quando morreu, tinha um patrimônio declarado de 117 milhões de reais.15
(...)
A política brasileira renovou-se decisivamente depois das eleições de 1982, que refletiram as consequências da anistia. Franco Montoro assumiu o governo de São Paulo e, deixando o cargo, elegeu-se deputado federal em 1994. Reeleito em 1998, morreu em 1999, no exercício do mandato.
Mário Covas, cassado em 1968, elegeu-se deputado federal, foi nomeado prefeito de São Paulo e tornou-se o senador mais votado da eleição de 1986. Governou o estado paulista com dois mandatos, de 1995 a 2001, quando um câncer afastou-o do cargo. Morreu em 2001. Rompidos com o então governador Orestes Quércia, Montoro, Fernando Henrique Cardoso, Covas e José Serra abandonaram o PMDB, fundando o PSDB. O ciclo iniciado em 1983 com a posse de Montoro deu ao PMDB-PSDB de São Paulo 35 anos de poder,período só comparável ao do Partido Republicano durante a República Velha. Geraldo Alckmin, o vice-governador que assumiu no lugar de Covas, tornou-se o paulista que por mais tempo ocupou o cargo.
José Serra, secretário de Planejamento de Montoro, elegeu-se deputado federal em 1986. O ex-presidente da UNE, que se exilara na Bolívia, no Chile e nos Estados Unidos, tornou-se ministro do Planejamento e da Saúde no governo de Fernando Henrique Cardoso. Foi prefeito e governador de São Paulo. Elegeu-se duas vezes para o Senado, a última em 2014. Concorreu duas vezes à Presidência, sem sucesso.
(...)
Ulysses Guimarães tornou-se por poucos anos o político mais influente do país. Promulgou a Constituição de 1988 e manteve uma forte e conflituosa ascendência sobre o governo de Sarney. Candidatou-se à Presidência da República em 1989, mas a associação de seu nome a um governo ruinoso deixou-o com apenas 4,7% dos votos na eleição vencida por Fernando Collor. Como deputado, juntou seu prestígio à campanha pelo impedimento do jovem presidente. Morreu em 1992, aos 76 anos, num desastre de helicóptero. Estava com a mulher, Mora. Seu corpo nunca foi encontrado."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016. P. 354-356.Os políticos
"Miguel Arraes, deposto do governo de Pernambuco em 1964, retornou ao
palácio pelo voto. Depois de catorze anos de exílio vividos na Argélia, elegeu-se
deputado federal em 1982. Em 1987, aos setenta anos, voltou ao palácio do
Campo das Princesas, de onde os militares o tiraram na tarde de 1o de abril. Foi
eleito novamente em 1994, pelo Partido Socialista. Morreu em 2005. Arraes foi
o único político deposto em 1964 que deixou uma duradoura base política. Seu
neto, Eduardo Campos, governou Pernambuco e disputava a Presidência da
República em 2014 quando morreu num acidente aéreo. Leonel Brizola, que
governara o Rio Grande do Sul e fora cassado quando era deputado pelo estado
da Guanabara, elegeu-se governador do Rio de Janeiro em 1982 e em 1990.
Candidato à Presidência da República em 1989, não conseguiu chegar ao
segundo turno, derrotado por Fernando Collor e Lula, a quem chamaria de
“sapo barbudo”. Em 1994 foi candidato a presidente e ficou em quinto lugar.
Quatro anos depois disputou a Vice-Presidência na chapa encabeçada por
Lula e derrotada por Fernando Henrique Cardoso. Morreu em 2004, aos 82
anos.
(...)
Paulo Maluf disputou sem sucesso o governo de São Paulo em 1986 e
elegeu-se prefeito da capital em 1992. Voltou quatro vezes para a Câmara
Federal. Ficou preso durante 41 dias em 2005. Por solicitação do governo dos
Estados Unidos, seu nome está entre os procurados pela Interpol. Um estudo
do Banco Mundial listou-o como um exemplo de caso internacional de
corrupção. Foi acusado de ter internado 200 milhões de dólares no paraíso
fiscal da ilha de Jersey, no Canal da Mancha. É o mais destacado político civil
formado na ditadura com assento no Congresso. Na eleição municipal de São
Paulo de 2012 apoiou o candidato petista Fernando Haddad.
José Maria Marin, vice-governador eleito indiretamente na chapa de Maluf,
governou São Paulo de maio de 1982 a março de 1983. Em 1986 e 2002
disputou sem sucesso uma cadeira de senador. Em 2012, tornou-se presidente
da Confederação Brasileira de Futebol. Três anos depois, foi preso na Suíça e
extraditado para os Estados Unidos, onde, em 2015, foi colocado em prisão
domiciliar enquanto responde a um processo por corrupção e lavagem de
dinheiro.
O almirante Faria Lima, que administrou a fusão dos estados do Rio de
Janeiro e da Guanabara, deixou a vida pública e morreu em 2011, aos 93 anos.
Não se sabe o rumo que tomou a caixa em que guardava as interceptações
telefônicas que coordenou na crise de 1961, quando servia com Geisel na Casa
Militar da Presidência.
O ex-governador mineiro Aureliano Chaves ficou no Ministério de Minas e
Energia durante o governo de Sarney. Foi candidato a presidente em 1989 e
teve votação desprezível. Retirou-se da vida pública, mas, em 2002, como
crítico das privatizações ocorridas durante o governo de Fernando Henrique
Cardoso, apoiou a candidatura de Lula. Morreu aos 74 anos, em 2003.
(...)
Antonio Carlos Magalhães, ministro das Comunicações de Sarney, não
conseguiu eleger seu candidato em 1986, mas prevaleceu quatro anos depois,
voltando ao governo e restabelecendo o poder do “carlismo” no estado da
Bahia. Em 1994 elegeu-se senador. Em 2001, renunciou ao mandato por ter
violado o painel eletrônico de votações. Morreu em 2007, aos 79 anos. Antonio
Carlos Junior, seu filho e suplente, assumiu a cadeira. Luís Eduardo, seu outro
filho, chegou à presidência da Câmara e era um possível candidato a
presidente da República, quando morreu de enfarte, aos 43 anos, em 1998.
Antonio Carlos Magalhães Neto (filho de Junior) tornou-se seu herdeiro
político e por três vezes elegeu-se deputado federal. Em 2012 elegeu-se
prefeito de Salvador.
(...)
No Maranhão, Roseana Sarney, filha do presidente, conseguiu quatro
mandatos de governadora, dois pelo PMDB. Em Sergipe e no Ceará, elegeramse
Albano Franco e Lúcio Alcântara, filhos dos ex-governadores Augusto Franco
e Waldemar Alcântara. No Rio Grande do Norte, José Agripino Maia, filho do
governador Tarcísio Maia (1975-1979) e primo em segundo grau do governador
Lavoisier Maia (1979-1983), elegeu-se em 1982 e 1990.
Marco Maciel, indicado governador de Pernambuco por Geisel em 1978, foi
escolhido para o Ministério da Educação por Tancredo e remanejado por
Sarney, um ano depois, para a chefia do Gabinete Civil. Elegeu-se três vezes
para o Senado. Foi líder da bancada do governo de Fernando Collor e por duas
vezes foi eleito para a Vice-Presidência da República na chapa de Fernando
Henrique Cardoso."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016. P. 350-353
palácio pelo voto. Depois de catorze anos de exílio vividos na Argélia, elegeu-se
deputado federal em 1982. Em 1987, aos setenta anos, voltou ao palácio do
Campo das Princesas, de onde os militares o tiraram na tarde de 1o de abril. Foi
eleito novamente em 1994, pelo Partido Socialista. Morreu em 2005. Arraes foi
o único político deposto em 1964 que deixou uma duradoura base política. Seu
neto, Eduardo Campos, governou Pernambuco e disputava a Presidência da
República em 2014 quando morreu num acidente aéreo. Leonel Brizola, que
governara o Rio Grande do Sul e fora cassado quando era deputado pelo estado
da Guanabara, elegeu-se governador do Rio de Janeiro em 1982 e em 1990.
Candidato à Presidência da República em 1989, não conseguiu chegar ao
segundo turno, derrotado por Fernando Collor e Lula, a quem chamaria de
“sapo barbudo”. Em 1994 foi candidato a presidente e ficou em quinto lugar.
Quatro anos depois disputou a Vice-Presidência na chapa encabeçada por
Lula e derrotada por Fernando Henrique Cardoso. Morreu em 2004, aos 82
anos.
(...)
Paulo Maluf disputou sem sucesso o governo de São Paulo em 1986 e
elegeu-se prefeito da capital em 1992. Voltou quatro vezes para a Câmara
Federal. Ficou preso durante 41 dias em 2005. Por solicitação do governo dos
Estados Unidos, seu nome está entre os procurados pela Interpol. Um estudo
do Banco Mundial listou-o como um exemplo de caso internacional de
corrupção. Foi acusado de ter internado 200 milhões de dólares no paraíso
fiscal da ilha de Jersey, no Canal da Mancha. É o mais destacado político civil
formado na ditadura com assento no Congresso. Na eleição municipal de São
Paulo de 2012 apoiou o candidato petista Fernando Haddad.
José Maria Marin, vice-governador eleito indiretamente na chapa de Maluf,
governou São Paulo de maio de 1982 a março de 1983. Em 1986 e 2002
disputou sem sucesso uma cadeira de senador. Em 2012, tornou-se presidente
da Confederação Brasileira de Futebol. Três anos depois, foi preso na Suíça e
extraditado para os Estados Unidos, onde, em 2015, foi colocado em prisão
domiciliar enquanto responde a um processo por corrupção e lavagem de
dinheiro.
O almirante Faria Lima, que administrou a fusão dos estados do Rio de
Janeiro e da Guanabara, deixou a vida pública e morreu em 2011, aos 93 anos.
Não se sabe o rumo que tomou a caixa em que guardava as interceptações
telefônicas que coordenou na crise de 1961, quando servia com Geisel na Casa
Militar da Presidência.
O ex-governador mineiro Aureliano Chaves ficou no Ministério de Minas e
Energia durante o governo de Sarney. Foi candidato a presidente em 1989 e
teve votação desprezível. Retirou-se da vida pública, mas, em 2002, como
crítico das privatizações ocorridas durante o governo de Fernando Henrique
Cardoso, apoiou a candidatura de Lula. Morreu aos 74 anos, em 2003.
(...)
Antonio Carlos Magalhães, ministro das Comunicações de Sarney, não
conseguiu eleger seu candidato em 1986, mas prevaleceu quatro anos depois,
voltando ao governo e restabelecendo o poder do “carlismo” no estado da
Bahia. Em 1994 elegeu-se senador. Em 2001, renunciou ao mandato por ter
violado o painel eletrônico de votações. Morreu em 2007, aos 79 anos. Antonio
Carlos Junior, seu filho e suplente, assumiu a cadeira. Luís Eduardo, seu outro
filho, chegou à presidência da Câmara e era um possível candidato a
presidente da República, quando morreu de enfarte, aos 43 anos, em 1998.
Antonio Carlos Magalhães Neto (filho de Junior) tornou-se seu herdeiro
político e por três vezes elegeu-se deputado federal. Em 2012 elegeu-se
prefeito de Salvador.
(...)
No Maranhão, Roseana Sarney, filha do presidente, conseguiu quatro
mandatos de governadora, dois pelo PMDB. Em Sergipe e no Ceará, elegeramse
Albano Franco e Lúcio Alcântara, filhos dos ex-governadores Augusto Franco
e Waldemar Alcântara. No Rio Grande do Norte, José Agripino Maia, filho do
governador Tarcísio Maia (1975-1979) e primo em segundo grau do governador
Lavoisier Maia (1979-1983), elegeu-se em 1982 e 1990.
Marco Maciel, indicado governador de Pernambuco por Geisel em 1978, foi
escolhido para o Ministério da Educação por Tancredo e remanejado por
Sarney, um ano depois, para a chefia do Gabinete Civil. Elegeu-se três vezes
para o Senado. Foi líder da bancada do governo de Fernando Collor e por duas
vezes foi eleito para a Vice-Presidência da República na chapa de Fernando
Henrique Cardoso."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016. P. 350-353
Os empresários - financiadores e apoiadores
"Passado meio século, desfizeram-se alguns dos grandes grupos industriais e
financeiros de 1964, inclusive aqueles que pertenciam aos empresários que
organizaram o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, o IPÊS, onde se
agruparam empresários e militares que se opunham ao governo de João
Goulart. Seu presidente, João Baptista Leopoldo Figueiredo, dirigiu inúmeras
empresas, entre as quais a Scania, onde se deu a primeira grande greve
operária de 1978. Participou dos conselhos do banco Itaú, da Pirelli e da
Siemens. Morreu em 1989, aos 79 anos. (Gilson Menezes, o operário que
desencadeou a greve da Scania, elegeu-se prefeito de Diadema em 1983, pelo
PT, e em 1987, pelo PSB.)
Antonio Gallotti, o ativo presidente da Light, viu suas empresas serem
estatizadas e, posteriormente, privatizadas. Redirecionou os interesses da
companhia para o ramo de investimentos e continuou ativo nos bastidores do
poder, mantendo sua influência e seu bom humor até a morte, em 1986, aos
78 anos.
Augusto Trajano de Azevedo Antunes, dono da Caemi, a maior mineradora
privada do país, morreu em 1996, aos 89 anos. Suas empresas, administradas
pelos netos, foram passadas à Vale. Durante a campanha das diretas, num
telefonema a Golbery, Antunes disse-lhe que seria necessário rearticular as
forças que haviam mobilizado em 1964. Depois de desligar, o general
comentou: “Para quê? Para acabarmos chamando o Ulysses Guimarães?”.11
O aristocrático banqueiro Cândido Guinle de Paula Machado morreu em
2000, aos 82 anos. Do império de sua família, pouco restava. Sua participação
no Banco Boavista, que dirigia, fora vendida em 1997 por uma quantia
simbólica.
O Banco Mercantil de São Paulo, de Gastão Vidigal, foi vendido ao Bradesco
em 2002, e o Unibanco, de Walther Moreira Salles, incorporado ao Itaú, em
2007. Ambos morreram em 2001.
As três grandes empreiteiras da ditadura sobreviveram a ela até que, em
2014, foram apanhadas na Operação Lava-Jato. Sebastião Camargo, o “China”,
morreu em 1994, deixando seu império para três filhas. Com três anos de
escolaridade, não falava em público e cultivava discretamente suas relações
com o poder. A Camargo Corrêa foi a maior empreiteira do país de 1964 a
1985.12 Chegou a ser a maior do mundo. Administrada por executivos e
controlada pelos genros de Camargo, em 2014 seu presidente e seu vicepresidente
foram encarcerados e passaram a colaborar com as investigações
da Lava-Jato. Foram condenados a quinze anos de prisão, que cumpririam em
casa, com tornozeleiras eletrônicas. Roberto Andrade, fundador da Andrade
Gutierrez (Itaipu), morreu em 2006 e a empresa passou a ser dirigida por um
de seus filhos. Seu presidente foi preso em 2015 e meses depois a empresa
passou a colaborar com as autoridades. Norberto Odebrecht, fundador e mola
mestra da empreiteira que suplantou todas as demais, morreu em julho de
2014, aos 93 anos, meses antes do envolvimento de sua empresa nas
investigações da Lava-Jato. Seu neto Marcelo, que comandava o grupo, foi
preso em junho de 2015. Como Sebastião Camargo, Andrade e Odebrecht
raramente davam entrevistas, conduta que não foi seguida por seus
herdeiros.13
Durante a ditadura, algumas empreiteiras tiveram êxitos estelares, mas
revelaram-se cometas. Olacyr de Moraes, dono da Constran, tornou-se muitos
anos depois o maior plantador individual de soja do mundo. Ficou famoso por
circular acompanhado de lindas senhoras. Quebrou em 1996, vendeu sua
empresa em 2010 e morreu em 2015. A Metropolitana, dos irmãos Alencar,
arrendatária dos jornais Correio da Manhã e Última Hora, faliu em 1974.
Marcello Alencar foi por duas vezes prefeito do Rio de Janeiro e governador do
estado de 1995 a 1999. Morreu em 2014. A Mendes Júnior, comandada por
Murilo Mendes, tropeçou com seus grandes negócios no Iraque e sobreviveu
batalhando na Justiça. Em 2014 seu vice-presidente foi preso na Operação
Lava-Jato, que desmontou a rede de corrupção armada pelas grandes
empreiteiras em seus negócios com a Petrobras. Num julgamento de primeira
instância, foi condenado a dezenove anos de prisão.
Os dois maiores bancos privados do país no século XXI, o Itaú, de Olavo
Setubal, e o Bradesco, de Amador Aguiar, eram pequenas instituições na
primeira metade do XX. Amador Aguiar morreu em 1991, aos 86 anos.
Raramente falou em público. Ao contrário de Walther Moreira Salles (ministro
da Fazenda do gabinete parlamentarista de 1961) e de Olavo Setubal (prefeito
nomeado de São Paulo de 1975 a 1979), jamais ocupou cargo público. Sua
marca pode ser percebida quando se vê que Laudo Natel, um dos diretores do
Bradesco, governou São Paulo duas vezes (1966-1967 e 1971-1975) sem nunca
ter recebido um voto.
Eugênio Gudin, o patriarca dos economistas brasileiros, viveu até 1986,
tendo completado cem anos sempre evitando beber água. Só vinho. Pery Igel,
principal acionista do grupo Ultra, que a ALN jurou de morte por ajudar o
aparelho repressivo, morreu de causas naturais em 1998.
Ivan Hasslocher, o publicitário que adquiriu fama organizando o IBAD,
deixou o país depois da deposição de Jango. Viveu entre os Estados Unidos, a
Inglaterra e a Suíça. Morreu em Houston, em 2000.14 A Engesa, empresa de
material bélico fundada pelo engenheiro José Luiz Whitaker Ribeiro, tornou-se
exportadora de armas, com negócios no Iraque. Fabricava os blindados Urutu,
famosos por sua presença em mobilizações militares contra manifestações
políticas. Faliu em 1993.
Luis Eulálio de Bueno Vidigal Filho, o interlocutor de Lula em 1977, presidiu a
Federação das Indústrias de São Paulo de 1980 a 1986 e dá nome ao seu
edifício-sede, na avenida Paulista. Sua empresa, a Cobrasma, faliu em 1993.
José Papa Junior ficou na presidência da Federação do Comércio de São
Paulo de 1969 a 1984. Em 2000 o Banco Lavra, de propriedade de sua família,
entrou em liquidação extrajudicial. Mario Garnero, presidente da Associação
Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores durante as greves de 1979,
teve decretada a liquidação extrajudicial de seu banco, Brasilinvest, em 1985.
Dos signatários do Manifesto dos Oito, publicado pela Gazeta Mercantil em
junho de 1978, defendendo o regime democrático e a livre-iniciativa, dois
continuaram à frente de grupos industriais poderosos.
Antonio Ermírio de Moraes disputou sem sucesso o governo de São Paulo em
1986 e morreu em 2014, aos 86 anos. A fortuna de sua família foi estimada em
12,7 bilhões de dólares. Jorge Gerdau, cujo complexo siderúrgico tornou-se um
dos maiores do país, foi colocado em 2011 por Dilma Rousseff à frente de uma
Câmara de Gestão, que definhou. Claudio Bardella continuou na presidência do
conselho de sua empresa. (O empresário Paulo Francini, que levou Lula ao
escritório de Bardella para negociar o fim da primeira greve do ABC, é diretor
da Fiesp.) Paulo Villares, comandante da indústria que leva o nome de sua
família, administrou o desmembramento e a venda da empresa. O
metalúrgico Luiz Inácio da Silva trabalhava na Villares quando se tornou
dirigente sindical. Severo Gomes elegeu-se senador pelo PMDB em 1982. Sua
empresa de têxteis quebrou. Morreu em 1992, com a mulher, Henriqueta, no
helicóptero em que estava Ulysses Guimarães. José Mindlin vendeu o controle
da indústria Metal Leve e dedicou-se a cuidar de sua biblioteca. Dela, cerca de
60 mil volumes foram doados à Universidade de São Paulo. Morreu em 2010,
aos 95 anos.
Das lideranças de guildas empresariais da ditadura, só Guilherme Afif
Domingos fez carreira. Presidiu a Associação Comercial de São Paulo de 1982
até 1987 e, novamente, de 2003 a 2007. Elegeu-se deputado federal e foi
constituinte de 1988. Candidatou-se sem sucesso à Presidência da República e
ao Senado. Em 2010 elegeu-se vice-governador de São Paulo e em 2013 foi
nomeado para a Secretaria da Micro e Pequena Empresa da Presidência da
República."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016.
financeiros de 1964, inclusive aqueles que pertenciam aos empresários que
organizaram o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, o IPÊS, onde se
agruparam empresários e militares que se opunham ao governo de João
Goulart. Seu presidente, João Baptista Leopoldo Figueiredo, dirigiu inúmeras
empresas, entre as quais a Scania, onde se deu a primeira grande greve
operária de 1978. Participou dos conselhos do banco Itaú, da Pirelli e da
Siemens. Morreu em 1989, aos 79 anos. (Gilson Menezes, o operário que
desencadeou a greve da Scania, elegeu-se prefeito de Diadema em 1983, pelo
PT, e em 1987, pelo PSB.)
Antonio Gallotti, o ativo presidente da Light, viu suas empresas serem
estatizadas e, posteriormente, privatizadas. Redirecionou os interesses da
companhia para o ramo de investimentos e continuou ativo nos bastidores do
poder, mantendo sua influência e seu bom humor até a morte, em 1986, aos
78 anos.
Augusto Trajano de Azevedo Antunes, dono da Caemi, a maior mineradora
privada do país, morreu em 1996, aos 89 anos. Suas empresas, administradas
pelos netos, foram passadas à Vale. Durante a campanha das diretas, num
telefonema a Golbery, Antunes disse-lhe que seria necessário rearticular as
forças que haviam mobilizado em 1964. Depois de desligar, o general
comentou: “Para quê? Para acabarmos chamando o Ulysses Guimarães?”.11
O aristocrático banqueiro Cândido Guinle de Paula Machado morreu em
2000, aos 82 anos. Do império de sua família, pouco restava. Sua participação
no Banco Boavista, que dirigia, fora vendida em 1997 por uma quantia
simbólica.
O Banco Mercantil de São Paulo, de Gastão Vidigal, foi vendido ao Bradesco
em 2002, e o Unibanco, de Walther Moreira Salles, incorporado ao Itaú, em
2007. Ambos morreram em 2001.
As três grandes empreiteiras da ditadura sobreviveram a ela até que, em
2014, foram apanhadas na Operação Lava-Jato. Sebastião Camargo, o “China”,
morreu em 1994, deixando seu império para três filhas. Com três anos de
escolaridade, não falava em público e cultivava discretamente suas relações
com o poder. A Camargo Corrêa foi a maior empreiteira do país de 1964 a
1985.12 Chegou a ser a maior do mundo. Administrada por executivos e
controlada pelos genros de Camargo, em 2014 seu presidente e seu vicepresidente
foram encarcerados e passaram a colaborar com as investigações
da Lava-Jato. Foram condenados a quinze anos de prisão, que cumpririam em
casa, com tornozeleiras eletrônicas. Roberto Andrade, fundador da Andrade
Gutierrez (Itaipu), morreu em 2006 e a empresa passou a ser dirigida por um
de seus filhos. Seu presidente foi preso em 2015 e meses depois a empresa
passou a colaborar com as autoridades. Norberto Odebrecht, fundador e mola
mestra da empreiteira que suplantou todas as demais, morreu em julho de
2014, aos 93 anos, meses antes do envolvimento de sua empresa nas
investigações da Lava-Jato. Seu neto Marcelo, que comandava o grupo, foi
preso em junho de 2015. Como Sebastião Camargo, Andrade e Odebrecht
raramente davam entrevistas, conduta que não foi seguida por seus
herdeiros.13
Durante a ditadura, algumas empreiteiras tiveram êxitos estelares, mas
revelaram-se cometas. Olacyr de Moraes, dono da Constran, tornou-se muitos
anos depois o maior plantador individual de soja do mundo. Ficou famoso por
circular acompanhado de lindas senhoras. Quebrou em 1996, vendeu sua
empresa em 2010 e morreu em 2015. A Metropolitana, dos irmãos Alencar,
arrendatária dos jornais Correio da Manhã e Última Hora, faliu em 1974.
Marcello Alencar foi por duas vezes prefeito do Rio de Janeiro e governador do
estado de 1995 a 1999. Morreu em 2014. A Mendes Júnior, comandada por
Murilo Mendes, tropeçou com seus grandes negócios no Iraque e sobreviveu
batalhando na Justiça. Em 2014 seu vice-presidente foi preso na Operação
Lava-Jato, que desmontou a rede de corrupção armada pelas grandes
empreiteiras em seus negócios com a Petrobras. Num julgamento de primeira
instância, foi condenado a dezenove anos de prisão.
Os dois maiores bancos privados do país no século XXI, o Itaú, de Olavo
Setubal, e o Bradesco, de Amador Aguiar, eram pequenas instituições na
primeira metade do XX. Amador Aguiar morreu em 1991, aos 86 anos.
Raramente falou em público. Ao contrário de Walther Moreira Salles (ministro
da Fazenda do gabinete parlamentarista de 1961) e de Olavo Setubal (prefeito
nomeado de São Paulo de 1975 a 1979), jamais ocupou cargo público. Sua
marca pode ser percebida quando se vê que Laudo Natel, um dos diretores do
Bradesco, governou São Paulo duas vezes (1966-1967 e 1971-1975) sem nunca
ter recebido um voto.
Eugênio Gudin, o patriarca dos economistas brasileiros, viveu até 1986,
tendo completado cem anos sempre evitando beber água. Só vinho. Pery Igel,
principal acionista do grupo Ultra, que a ALN jurou de morte por ajudar o
aparelho repressivo, morreu de causas naturais em 1998.
Ivan Hasslocher, o publicitário que adquiriu fama organizando o IBAD,
deixou o país depois da deposição de Jango. Viveu entre os Estados Unidos, a
Inglaterra e a Suíça. Morreu em Houston, em 2000.14 A Engesa, empresa de
material bélico fundada pelo engenheiro José Luiz Whitaker Ribeiro, tornou-se
exportadora de armas, com negócios no Iraque. Fabricava os blindados Urutu,
famosos por sua presença em mobilizações militares contra manifestações
políticas. Faliu em 1993.
Luis Eulálio de Bueno Vidigal Filho, o interlocutor de Lula em 1977, presidiu a
Federação das Indústrias de São Paulo de 1980 a 1986 e dá nome ao seu
edifício-sede, na avenida Paulista. Sua empresa, a Cobrasma, faliu em 1993.
José Papa Junior ficou na presidência da Federação do Comércio de São
Paulo de 1969 a 1984. Em 2000 o Banco Lavra, de propriedade de sua família,
entrou em liquidação extrajudicial. Mario Garnero, presidente da Associação
Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores durante as greves de 1979,
teve decretada a liquidação extrajudicial de seu banco, Brasilinvest, em 1985.
Dos signatários do Manifesto dos Oito, publicado pela Gazeta Mercantil em
junho de 1978, defendendo o regime democrático e a livre-iniciativa, dois
continuaram à frente de grupos industriais poderosos.
Antonio Ermírio de Moraes disputou sem sucesso o governo de São Paulo em
1986 e morreu em 2014, aos 86 anos. A fortuna de sua família foi estimada em
12,7 bilhões de dólares. Jorge Gerdau, cujo complexo siderúrgico tornou-se um
dos maiores do país, foi colocado em 2011 por Dilma Rousseff à frente de uma
Câmara de Gestão, que definhou. Claudio Bardella continuou na presidência do
conselho de sua empresa. (O empresário Paulo Francini, que levou Lula ao
escritório de Bardella para negociar o fim da primeira greve do ABC, é diretor
da Fiesp.) Paulo Villares, comandante da indústria que leva o nome de sua
família, administrou o desmembramento e a venda da empresa. O
metalúrgico Luiz Inácio da Silva trabalhava na Villares quando se tornou
dirigente sindical. Severo Gomes elegeu-se senador pelo PMDB em 1982. Sua
empresa de têxteis quebrou. Morreu em 1992, com a mulher, Henriqueta, no
helicóptero em que estava Ulysses Guimarães. José Mindlin vendeu o controle
da indústria Metal Leve e dedicou-se a cuidar de sua biblioteca. Dela, cerca de
60 mil volumes foram doados à Universidade de São Paulo. Morreu em 2010,
aos 95 anos.
Das lideranças de guildas empresariais da ditadura, só Guilherme Afif
Domingos fez carreira. Presidiu a Associação Comercial de São Paulo de 1982
até 1987 e, novamente, de 2003 a 2007. Elegeu-se deputado federal e foi
constituinte de 1988. Candidatou-se sem sucesso à Presidência da República e
ao Senado. Em 2010 elegeu-se vice-governador de São Paulo e em 2013 foi
nomeado para a Secretaria da Micro e Pequena Empresa da Presidência da
República."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016.
Os expurgados de 1964
"Darcy Ribeiro (Casa Civil) foi para o Uruguai, retornou ao Brasil em 1968 e
acabou preso. Quando estava num quartel da Marinha, telefonou ao diretor
do Instituto do Patrimônio Histórico pedindo que cuidasse da restauração de
um portal do século XIX que via do camarote onde estava detido. Libertado,
exilou-se no Chile, onde colaborou com o presidente Salvador Allende. Em
1974, com um câncer de pulmão, foi-lhe permitido retornar ao Brasil.
Sobreviveu à doença e tornou-se vice-governador do Rio de Janeiro. Perdeu
uma eleição para governador e elegeu-se senador. Morreu em 1997, aos 74
anos.
Celso Furtado (Planejamento) deixou o Brasil e viveu no Chile, nos Estados
Unidos e na França. José Sarney nomeou-o embaixador da Comunidade
Europeia e, posteriormente, ministro da Cultura. Elegeu-se para a Academia
Brasileira de Letras e morreu em 2004, aos 84 anos.
Expedito Machado (Viação e Obras Públicas) e Oswaldo Lima Filho
(Agricultura) elegeram-se deputados federais depois da anistia. Wilson Fadul
(Saúde) disputou sem sucesso o governo de Mato Grosso do Sul e foi nomeado
vice-presidente do Banco do Estado do Rio de Janeiro.
(Araújo Castro, das Relações Exteriores, foi o único ministro de João
Goulart que permaneceu no serviço público, continuando uma bem-sucedida
carreira. Salvou-o da cassação o chanceler Vasco Leitão da Cunha, que
atenuou a fúria punitiva contra os quadros do Itamaraty. Foi discretamente
removido para a embaixada do Brasil na Grécia e, em 1968, tornou-se chefe da
representação do Brasil nas Nações Unidas. Em seguida, foi nomeado
embaixador em Washington, onde morreu em 1975, aos 56 anos. Estava no
posto durante a visita do presidente Médici aos Estados Unidos.)
Raul Ryff, influente secretário de imprensa de Jango, viveu no exílio até
1968. Ao retornar ao Brasil, voltou ao jornalismo, trabalhando como redator na
editoria Internacional do Jornal do Brasil. Nunca se afastou de João Goulart
nem recriminou seu governo. Morreu em 1989, aos 77 anos.
Depois da anistia, dois ministros de Jango filiaram-se ao partido do governo.
No governo Sarney, Abelardo Jurema (Justiça) foi diretor do BNDES e do
Instituto do Açúcar e do Álcool. Oliveira Brito (Minas e Energia) foi colocado
por Sarney na presidência da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco."
acabou preso. Quando estava num quartel da Marinha, telefonou ao diretor
do Instituto do Patrimônio Histórico pedindo que cuidasse da restauração de
um portal do século XIX que via do camarote onde estava detido. Libertado,
exilou-se no Chile, onde colaborou com o presidente Salvador Allende. Em
1974, com um câncer de pulmão, foi-lhe permitido retornar ao Brasil.
Sobreviveu à doença e tornou-se vice-governador do Rio de Janeiro. Perdeu
uma eleição para governador e elegeu-se senador. Morreu em 1997, aos 74
anos.
Celso Furtado (Planejamento) deixou o Brasil e viveu no Chile, nos Estados
Unidos e na França. José Sarney nomeou-o embaixador da Comunidade
Europeia e, posteriormente, ministro da Cultura. Elegeu-se para a Academia
Brasileira de Letras e morreu em 2004, aos 84 anos.
Expedito Machado (Viação e Obras Públicas) e Oswaldo Lima Filho
(Agricultura) elegeram-se deputados federais depois da anistia. Wilson Fadul
(Saúde) disputou sem sucesso o governo de Mato Grosso do Sul e foi nomeado
vice-presidente do Banco do Estado do Rio de Janeiro.
(Araújo Castro, das Relações Exteriores, foi o único ministro de João
Goulart que permaneceu no serviço público, continuando uma bem-sucedida
carreira. Salvou-o da cassação o chanceler Vasco Leitão da Cunha, que
atenuou a fúria punitiva contra os quadros do Itamaraty. Foi discretamente
removido para a embaixada do Brasil na Grécia e, em 1968, tornou-se chefe da
representação do Brasil nas Nações Unidas. Em seguida, foi nomeado
embaixador em Washington, onde morreu em 1975, aos 56 anos. Estava no
posto durante a visita do presidente Médici aos Estados Unidos.)
Raul Ryff, influente secretário de imprensa de Jango, viveu no exílio até
1968. Ao retornar ao Brasil, voltou ao jornalismo, trabalhando como redator na
editoria Internacional do Jornal do Brasil. Nunca se afastou de João Goulart
nem recriminou seu governo. Morreu em 1989, aos 77 anos.
Depois da anistia, dois ministros de Jango filiaram-se ao partido do governo.
No governo Sarney, Abelardo Jurema (Justiça) foi diretor do BNDES e do
Instituto do Açúcar e do Álcool. Oliveira Brito (Minas e Energia) foi colocado
por Sarney na presidência da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco."
Os Presidentes - parte II
"No Brasil, José Sarney concluiu seu mandato como presidente em 1990.
Presidiu metade do que veio a se chamar de “a década perdida”. Durante seu
governo foi promulgada a Constituição de 1988. Depois de ter feito toda a sua
vida política no Maranhão, em 1990 elegeu-se senador pelo Amapá e
conseguiu mais dois mandatos. No segundo turno da eleição presidencial de
2014, foi à seção eleitoral com um adesivo de Dilma Rousseff, do PT, no paletó
e votou em Aécio Neves, do PSDB. Explicou-se atribuindo o gesto à sua
gratidão a Tancredo.
Salvo os marechais, Costa e Silva e Castello Branco, todos os generais que
presidiram o Brasil viram o fim da ditadura.
João Baptista Figueiredo (1979-1985) morreu em 1999, aos 81 anos. Tendo
pedido que o esquecessem, saiu da vida pública. Deu sucessivos depoimentos
sobre episódios do seu governo. Geralmente foram contraditórios entre si e em
relação aos fatos. Dividiu seu tempo entre um sítio em Nogueira, no estado do
Rio, onde mantinha seus cavalos, e um apartamento em São Conrado. Em
2001, Dulce, sua viúva, vendeu em leilão 218 objetos que ele recebera
enquanto governava o país. Arrecadou cerca de 1 milhão de reais. Ela morreu
em 2011, aos 83 anos.
Ernesto Geisel (1974-1979) continuou na presidência do conselho da
Norquisa, empresa controladora do Polo Petroquímico de Camaçari, na Bahia.
Vivia com a mulher, Lucy, e a filha, Amália Lucy, num apartamento na rua
Barão da Torre, em Ipanema, e passava os fins de semana na casa de
Teresópolis. Esteve praticamente rompido com Figueiredo. Depois de apoiar
tacitamente a eleição de Tancredo, afastou-se da vida pública. Prestou um
extenso depoimento aos professores Celso Castro e Maria Celina D’Araujo.6
Morreu em 1996, aos 89 anos. Sua mulher morreu em 2000, num acidente
automobilístico. Amália Lucy, museóloga, doou ao CPDoc da Fundação Getulio
Vargas o arquivo de seu pai, e ao Patrimônio Histórico, os presentes que ele
recebeu durante a Presidência. Um precioso arcaz de sacristia colonial foi
examinado por peritos e revelou-se falso.7 Seu sobrinho, Augusto, morreu em
2000, aos 68 anos. Tendo sido filho do general Orlando Geisel, ministro do
Exército durante o governo Médici, e próximo ao tio presidente, foi um dos
mais inconspícuos parentes de poderosos. Tinha um curso de inglês em
Niterói e jamais se ouviu falar dele. Humberto Barreto, a quem Geisel estimava
como se fosse um filho, tornou-se presidente da empresa aérea TransBrasil,
extinta em 2002, e vive no Rio de Janeiro.
Ao deixar o governo, Emílio Garrastazu Médici (1969-1974) foi morar em
Copacabana, na rua Júlio de Castilhos. Deu uma entrevista ao repórter
Antonio Carlos Scartezini — transformada no livro Segredos de Medici — e
nunca disse uma palavra a respeito da abertura política. Morreu em 1985, aos
79 anos, depois de ter sofrido um acidente vascular cerebral. Doou ao museu
de Bagé alguns de seus objetos pessoais, inclusive uma pedra trazida da Lua
por astronautas americanos. Sua viúva, Scylla, morreu em 2003, aos 95 anos.
Em toda a vida deu apenas uma entrevista, afirmando que o marido queria
revogar o AI-5. Seu filho Roberto, professor universitário aposentado, entregou
o pequeno arquivo do pai à guarda do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro. Morreu em 2015.
Nenhum filho ou parente dos cinco generais fez carreira política."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016. P. 336-338.
Os Presidentes - parte I
"Tancredo Neves morreu no dia 21 de abril de 1985, depois de sete cirurgias. Sua agonia foi agravada por procedimentos médicos discutíveis e mentiras públicas que alimentaram a esperança do país. Os três principais jornais brasileiros noticiaram dez vezes que ele teria alta.1 Depois da segunda cirurgia, a assessoria de Tancredo distribuiu fotografias nas quais ele aparecia sorridente, de robe e echarpe de seda, sentado num sofá ao lado da mulher, cercado por cinco médicos, todos felizes. O que parecia ser uma echarpe era um lenço de sua mulher, Risoleta Neves, usado para esconder os tubos que estavam no pescoço de Tancredo, conectados a frascos escondidos embaixo do sofá.2 Morto, Tancredo provocou um episódio simbólico da grande conciliação que conseguira: durante seu velório, no palácio do Planalto, Ernesto Geisel e Ulysses Guimarães cumprimentaram-se. Risoleta Neves morreu em 2003, aos 86 anos. O neto de Tancredo, Aécio, foi deputado, governador de Minas Gerais, senador e candidato à Presidência da República em 2014.
Com a eleição de Tancredo, o Brasil saiu do ciclo de governos militares que se impuseram na América Latina na segunda metade do século XX. Fez isso depois da Argentina e do Uruguai, antes do Chile e do Paraguai. Fechado o ciclo, haviam morrido no continente pelo menos 50 mil pessoas. No Brasil, em torno de quinhentas. Dezenas de milhares de proscritos voltaram à política e aos palácios. No Brasil, o professor Fernando Henrique Cardoso, considerado um “destacado” comunista3 em 1964, foi ministro das Relações Exteriores e da Fazenda. Em 1994 elegeu-se presidente da República, reconduzido em 1998. Foi sucedido por Luiz Inácio Lula da Silva, um ex-operário, preso por 32 dias em 1980. Em 2011 ele passou a Presidência a Dilma Rousseff, que militara em organizações armadas e cumprira uma sentença de dois anos de prisão. Em seu governo, Dilma criou a Comissão Nacional da Verdade para estudar os crimes da ditadura. Esse gesto
estimulou a proliferação de comissões que voltaram aos porões do regime e esclareceram alguns de seus crimes. Dilma foi reeleita em 2014. Dez dos ministros de Lula passaram por prisões, sete deles por militarem em organizações clandestinas. No ministério de Dilma entraram quatro exprisioneiros políticos, entre eles uma ex-companheira de cela.4 Em 2001, o presidente Fernando Henrique Cardoso criou uma Comissão de Anistia para reparar danos causados a vítimas da ditadura. Em treze anos, ela aprovou 35 mil pedidos com indenizações que somaram 3,4 bilhões de reais.5
Na conciliação brasileira, ao contrário do que sucedeu em outros países do continente, nenhum militar ou civil foi responsabilizado por crimes ocorridos durante a ditadura. Dois signatários do AI-5 voltaram ao governo depois da redemocratização. Jarbas Passarinho foi ministro da Justiça durante o governo de Fernando Collor de Mello. Hélio Beltrão, outro signatário do AI-5, foi presidente da Petrobras no governo Sarney.
No Chile, o general Augusto Pinochet, que se tornou um símbolo da espécie, em 1990 entregou o poder ao civil Patricio Aylwin. Haviam se passado dezesseis anos da morte do presidente Salvador Allende. Em 1998 Pinochet foi preso em Londres, porém livrou-se de um pedido de extradição para a Espanha porque uma junta médica considerou-o incapaz. Voltou ao Chile e morreu em 2006, aos 91 anos. Viveu o suficiente para assistir à eleição de Michelle Bachelet para a Presidência do Chile. O pai de Bachelet, general da Força Aérea, morrera na prisão meses depois do golpe militar. Ligadas clandestinamente ao Partido Socialista, ela e a mãe foram presas em 1975. Exilaram-se na Austrália e, depois, na Alemanha comunista.
A democracia voltou à Argentina em 1983, com a posse de Raúl Alfonsín, um advogado que defendera presos políticos e passara por uma breve prisão. O general Juan Carlos Onganía, que derrubou o presidente civil Arturo Illia em 1966, viu-se deposto por outro golpe quatro anos depois. Em fevereiro de 1995 foi posto em prisão domiciliar por duas semanas e morreu meses depois. O general Jorge Rafael Videla, que comandou, entre 1976 e 1981, a mais sangrenta das ditaduras do período, foi condenado à prisão perpétua em 2010 e morreu na cadeia três anos depois, aos 87 anos. Dois de seus sucessores, os generais Leopoldo Galtieri e Reynaldo Bignone também foram a julgamento. Galtieri morreu em prisão domiciliar, em 2003. Bignone foi condenado a 23 anos de cadeia em 2014.
No Uruguai, o general Gregorio Álvarez, ditador de 1981 a 1985, foi condenado a 25 anos de prisão em 2009. No ano seguinte, viu a ascensão à Presidência de seu país de Jose Mujica, o militante tupamaro Pepe, Ulpiano ou Facundo, que tomou seis tiros e conseguiu fugir da cadeia duas vezes. Recapturado, passou mais de dez anos no cárcere, onze deles numa solitária. O general paraguaio Alfredo Stroessner, o mais longevo dos ditadores militares sul-americanos (1954-1989), foi deposto por seu braço direito e exilouse no Brasil, onde viveu praticamente recluso numa mansão de Brasília. Morreu em 2006, aos 93 anos, e foi sepultado sem honras militares."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016. P. 33-336
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017
A Construção de Tancredo - parte IV
"A eleição de Tancredo estava assegurada. Ele tinha três problemas: a crise
econômica, com uma inflação que chegara a 224%; a dívida externa, de 91
bilhões de dólares; e o desconforto físico, o mesmo que sentira meses antes.
Da crise econômica, cuidaria pessoalmente. Para isso decidira colocar no
Ministério da Fazenda seu sobrinho, Francisco Dornelles. Conhecia-o desde
menino, nomeara-o para seu gabinete na Secretaria de Fazenda de Minas
Gerais aos 24 anos e levara-o para Brasília como seu secretário particular
quando se tornou primeiro-ministro. Dornelles chefiava a Receita Federal
desde 1979 e fora mantido no cargo por Delfim Netto, mesmo depois que se
tramou uma degola dos tancredistas em cargos importantes. Era o seu mais
categorizado intermediário para quaisquer conversas, sobretudo com
militares.
Na noite do Réveillon, Tancredo sentiu-se mal, e dias antes da eleição o
desconforto físico voltou. Teve febre e telefonou para o médico Garcia de
Lima, que lhe receitou o antibiótico Keflex por via oral. Dias depois, viu
Tancredo em Brasília, mas não conseguiu examiná-lo direito. Nem ele nem o
chefe do Departamento Médico da Câmara, Renault Mattos Ribeiro, que o
atendia há anos, a quem se queixou de uma dor na região pubiana.2
Homem de poucos gestos, Tancredo sentava-se de maneira esquisita,
como se estivesse reclinado. Agora mantinha a mão sobre a virilha direita,
como se pressionasse a barriga. Numa viagem a Porto Alegre, subiu as
escadarias do palácio Piratini amparado. No Rio, durante um breve percurso
até o automóvel, a cena repetiu-se. Como tinha o hábito de caminhar de
braço dado com outra pessoa, nada parecia haver de anormal. Paulo Maluf e o
SNI sabiam que sua saúde não ia bem, mas não sabiam exatamente o que ele
tinha.3 Nem ele.
(...)
No dia 15 de janeiro de 1985, em clima de comemorações semelhantes às das
vitórias da Copa do Mundo, Tancredo de Almeida Neves foi eleito presidente
da República. Derrotou Maluf por 480 votos contra 180. Depois de cinco
generais e duas juntas militares, estava acabada a ditadura e um civil
retornaria à Presidência da República. (O deputado José Camargo, que
apresentara uma emenda constitucional prorrogando o mandato de
Figueiredo, apoiara a candidatura de Andreazza e se passara para o bloco
malufista, votou em Tancredo.) Multidões foram às ruas e em Belo Horizonte,
num episódio que talvez nunca tivesse acontecido, bisou-se uma cantoria do
Hino nacional. Chovia em Brasília e centenas de pessoas abrigavam-se debaixo
de uma bandeira brasileira de 250 metros quadrados.4
Faltavam exatos dois meses para a posse e Tancredo ocupou-se por duas
semanas viajando pelo mundo. Viu o papa, o rei da Espanha, os presidentes de
Itália, França, Estados Unidos e Argentina, mais o poeta argentino Jorge Luis
Borges. Eram todas visitas ritualísticas. O choque veio no encontro com o
secretário de Estado americano, o empresário George Shultz. Tancredo já o
encontrara num amplo café da manhã realizado na embaixada brasileira.
Também havia conversado por meia hora com o presidente Ronald Reagan,
na Casa Branca. Até então, cumprira uma agenda banal. Reagan (74 anos dali
a cinco dias) e Tancredo (75 anos dali a um mês) chegaram a trocar piadas
sobre o presidente italiano Sandro Pertini (89 anos completos).5
(...)
Tancredo formou um ministério no qual se percebiam três eixos. No
primeiro, estavam os quatro ministros que, na sua maneira de ver, realmente
contavam. Colocou o general Leonidas Pires Gonçalves no Exército; Francisco
Dornelles na Fazenda; entregou o Gabinete Civil a seu amigo pessoal José
Hugo Castello Branco; e o Ministério da Justiça ao deputado Fernando Lyra.
No segundo eixo, pôs os aliados a quem devia o êxito da articulação que o
elegera. Aureliano Chaves foi para o Ministério de Minas e Energia, Antonio
Carlos Magalhães para o das Comunicações, o general Ivan de Souza Mendes
para o SNI e Olavo Setubal para o Itamaraty (uma surpresa para quem
esperava vê-lo no comando da economia). Compensou a escolha de ACM
dando duas pastas ao PMDB baiano; e a do banqueiro paulista, entregando a
pasta do Trabalho ao advogado Almir Pazzianotto, que surgira anos antes
como defensor e negociador dos metalúrgicos do ABC. Roberto Gusmão, o
secretário de Governo de Franco Montoro, que se tornara um de seus
principais articuladores, foi para a Indústria e Comércio. Era uma equipe que
tinha a marca das confianças e desconfianças de Tancredo. O senador
Fernando Henrique Cardoso, presidente do PMDB paulista, foi colocado num
lugar honroso, porém inexistente: o de líder do governo no Congresso.13
Em mais um movimento da coreografia de sua rivalidade com Ulysses
Guimarães, Tancredo assegurou-lhe a presidência da Câmara dos Deputados e,
consequentemente, a da Assembleia Nacional Constituinte, que logo seria
convocada. Isso e mais a manutenção da presidência do PMDB. O “Senhor
Diretas” tornava-se o político mais poderoso do país, depois dele.
A José Sarney coube apenas a Vice-Presidência. Ele absorveu sem
reclamação a escolha de Renato Archer, seu rival na política maranhense,
para a pasta de Ciência e Tecnologia. Absorveu até mais. No início de março,
recebera sua cota de convites para a posse e pedira um reforço. Foi-lhe
negado.14
Uma semana antes da festa da posse, sabia-se que Tancredo estava febril.
Tinha dores no abdômen e sua mulher contaria que “a coisa vinha e ia…”.15
Como sempre, ele não falava de sua saúde, não se queixava e não tinha
médico particular. Automedicava-se e, quando precisava, mantinha sua fé nos
antibióticos receitados por Garcia de Lima. Na manhã de 12 de março, terçafeira,
um colaborador viu que ele subia uma escada com alguma
dificuldade.16 À noite, Aécio Neves, secretário particular do avô, telefonou
para Renault Mattos Ribeiro, chamando-o à granja do Riacho Fundo. Seria um
resfriado, talvez gripe. Renault examinou Tancredo na manhã seguinte. Ao
apalpar-lhe a barriga, ele reagiu.
Nesse momento começou a construção de uma tragédia. Tancredo sabia
que o mal-estar, as febres ocasionais e as dores eram coisa velha e haviam sido
controlados com uma medicação paliativa. Faltavam 48 horas para a sua posse
e parecia razoável esperar. Segundo o depoimento de Renault, naquela manhã
ele advertiu que o problema era sério e talvez Tancredo devesse ser
internado.17 Combinaram que ele iria a um centro radiológico e faria exames
em segredo. Jornalistas perguntaram a Renault por que ele aparecera na
granja; ele disse que Tancredo tinha uma faringite.18 Era mentira. Horas
depois, quando o repórter Antônio Britto, porta-voz do futuro governo, foi
combinar a cobertura da reunião ministerial que deveria ocorrer no domingo,
ouviu de Aécio: “Fica quieto, mas pode ser que essa reunião não aconteça”.
Além disso, começou-se a trabalhar no enxugamento do discurso que
Tancredo faria ao ser empossado pelo Congresso.19
À noite, Tancredo e Renault saíram em segredo para os exames. A
radiografia mostrou que na barriga de Tancredo havia uma área inflamada,
com uma placa de pus.20 Concluiu-se que podia ser apendicite ou qualquer
outra coisa. Podia ser qualquer outra coisa, menos apendicite, pois Tancredo
tivera o apêndice extraído havia cinquenta anos.21
Procurou-se manter a notícia entre os familiares. Com isso, começou
também a blindagem do quadro clínico dentro do círculo de relações
profissionais de Renault. Na manhã de quinta-feira, o médico chamou ao seu
gabinete o cirurgião Pinheiro Rocha, seu colega de serviço. Mostrou-lhe o
hemograma de Tancredo: 13.400 leucócitos (um mau número, porém melhor
que os 18 mil de junho). Seguiram para o Riacho Fundo. O presidente eleito
estava deitado e piorara. Pinheiro Rocha disse-lhe que precisava ser operado
imediatamente, mas Tancredo insistia: só depois da posse.22 Às 19h30, a taxa
de leucócitos subiu para 15 mil. Por via das dúvidas, teve início uma operação
destinada a isolar um dos centros cirúrgicos do Hospital de Base de Brasília.
Haviam se passado 48 horas desde o momento em que Aécio Neves
telefonara a Renault informando-o de que o avô não se sentia bem. O
presidente eleito, com um quadro abdominal grave, preservava o sigilo de seu
estado mantendo-se sob os cuidados de um médico que o examinava com
regularidade, mas a quem não confiava seus padecimentos (o mal-estar de
junho só fora detalhado a Garcia de Lima, que, por sua vez, foi mantido fora
dessa crise). Renault já havia contado o segredo a Ulysses Guimarães, que
ficara em copas.23 Até então, para todos os efeitos, Tancredo continuava com
faringite. Guardadas as diferenças entre os dois casos clínicos, o sigilo e a
blindagem da equipe médica replicavam agosto de 1969, quando também se
passaram mais de 48 horas até que o marechal Costa e Silva, abatido por uma
isquemia cerebral, fosse examinado por um neurologista, no Rio de Janeiro.
Até o momento em que chegou ao Hospital de Base, Tancredo foi o agente
ativo da procrastinação que agravou seu estado. Costa e Silva, sem voz, foi um
agente passivo.
A blindagem do quadro clínico de Tancredo tinha uma origem e embutia
uma consequência. A origem estava na sua preocupação, ou de qualquer leigo
que lidasse com o problema, de aguentar até o fim da noite de sexta-feira,
quando já teria vestido a faixa presidencial. Ele aguentara as crises de junho e
de janeiro, poderia aguentar mais essa. Não se consultaram outros
especialistas e o cirurgião Pinheiro Rocha fez questão de escalar todos os
profissionais que porventura viessem a ser chamados.24
Nessas 48 horas Tancredo poderia ter recebido assistência e
aconselhamento de quaisquer médicos do país. Quanto ao sigilo, já se fora.
Durante uma festa, o professor João Leitão de Abreu soube que Tancredo
estava diante da possibilidade de uma “cirurgia iminente” e, ao voltar para
casa, avisou o presidente Figueiredo.25
Na manhã de quinta-feira, véspera da posse, os leucócitos de Tancredo
chegaram a 17 mil, mas manteve-se a sua programação oficial. Indo a uma
missa, teve dificuldade para se levantar do banco da catedral. Parecia cansado.
À sua esquerda, José Sarney observava-o e notou que ele se movia com
dificuldade, sobretudo ao ajoelhar-se para a comunhão. O vice-presidente
eleito fora avisado pouco antes por Renault de que Tancredo tomaria posse e
seria internado logo depois: “Dentro de uma semana ele estará muito bem. É
uma crise de apendicite”. Hipocondríaco e depressivo, Sarney estava com a
pressão a dezenove por dez e tomara um comprimido de Quinidine. Não
contou o segredo nem a Marly, sua mulher.26
(...)
O hospital transformou-se num pandemônio. Médicos desentenderam-se.
Tancredo deveria ser operado no segundo andar, mas acabou indo para o
centro cirúrgico do subsolo. O cirurgião teve que passar em casa porque
esquecera os óculos.30 A operação começou à 1h10 de sexta-feira e terminou
às 2h45. Na sala da cirurgia a equipe de dez médicos coabitava com pelo
menos seis curiosos, entre eles Antonio Carlos Magalhães, um senador e um
deputado (todos diplomados em medicina).31
Ao final, os médicos Renault, Pinheiro e Gustavo Arantes emitiram o
primeiro boletim oficial, anunciando que fora removido do intestino de
Tancredo um divertículo de Meckel, “com abscesso em formação”.32 Seria um
episódio menor, semelhante a uma apendicite, mas não era verdade. O
relatório da cirurgia informa que essa era uma hipótese entre três:
“Divertículo de Meckel? Leiomioma? Linfoma?”. Linfoma seria um câncer.
Leiomioma, um tumor benigno. Era um leiomioma, mas essa informação
obrigaria os médicos a usarem a palavra maldita: “tumor”. Ficou-se, assim,
benignamente, com um diagnóstico falso.33
Às 7h25, os mesmos médicos informaram que desde as 5h30 Tancredo fora
transferido para a sala de recuperação, “tendo conversado com os médicos que
o estão atendendo”.34 Nunca houvera faringite, não era possível que fosse
apendicite e o divertículo de Meckel fora uma precipitação inofensiva. Dessa
vez era uma mentira pior. Nas anteriores, mascarava-se um problema
relacionado com o diagnóstico. Agora, mentia-se a respeito da situação do
paciente no hospital.
Logo depois da cirurgia, Pinheiro e Renault estavam com a família de
Tancredo quando foram chamados pelo anestesista. O paciente tivera uma
parada respiratória. O relatório da Unidade de Terapia Intensiva informou
que, ao ser extubado, Tancredo tivera um colapso, “necessitando ser ventilado
por cerca de 30 minutos, quando voltou a respirar normalmente. (…) Deu
entrada na UTI às 5h10”.35 Essa seria a primeira complicação pós-operatória
de Tancredo, acompanhada pela primeira falsificação de seu quadro. A freira
Esther, sua irmã, madre superiora do Convento das Vicentinas do Rio e
enfermeira-chefe do hospital da ordem, disse a Francisco Dornelles: “Tancredo
morre”.36
* * *
Durante a madrugada de 15 de março de 1985, a restauração democrática
brasileira viveu sua maior crise e superou-a de maneira exemplar. Ao contrário
do que sucedera em agosto de 1969, quando o marechal Costa e Silva ficou
incapacitado e o país foi jogado num período de anarquia militar, todos os
personagens agiram buscando a normalidade, numa situação de inédita
anormalidade. Quem foi dormir cedo esperava assistir à posse de Tancredo às
nove da manhã, diante da nação em festa, da presença do vice-presidente dos
Estados Unidos e de dezenas de delegações estrangeiras. Quem acordou tarde
soube que José Sarney tomara posse. O país parou, acompanhando a agonia do
arquiteto da transição.
(...)
Figueiredo detestava Sarney e Aureliano, mas isso não era suficiente para
que se ausentasse do melhor momento de sua vida pública: a entrega do poder
a um civil. Em diversos momentos, o cavalariano estourado tomou, ou deixou
de tomar, decisões que corroeram sua biografia. Em sua última entrevista
como presidente, expôs a profundidade de seu ressentimento, que ia muito
além da malquerença a Sarney e Aureliano: “O povão que poderá me escutar
será talvez os 70% dos brasileiros que estão apoiando o Tancredo. Então desejo
que eles tenham razão, que o doutor Tancredo consiga fazer um bom
governo para eles. (...) Que ele dê a eles o que não consegui. (...) E que me
esqueçam”.42
Sarney foi empossado com toda a pompa. Terminara o maior processo de
conciliação da história nacional e na cena faltava Tancredo Neves, o sujeito
da frase, seu arquiteto e moderador. Pensava-se que deixaria o hospital nos
próximos dias. Até lá, o país seria dirigido por um presidente que não vivera,
nem viveria, um só dia na oposição.
O ministro da Fazenda, Francisco Dornelles, fora o chefe da Receita
Federal no governo que terminava. O das Relações Exteriores, Olavo Setubal,
era um banqueiro que governara a cidade de São Paulo e por pouco não
chegara a governador do estado. Os ministros de Minas e Energia (Aureliano
Chaves), da Educação (Marco Maciel) e das Comunicações (Antonio Carlos
Magalhães) haviam sido governadores de seus estados e dissociaram-se do
governo havia poucos meses. O dos Transportes, Afonso Camargo, há poucos
anos.
Os mais poderosos ministros militares, Leonidas Pires Gonçalves (Exército)
e Ivan de Souza Mendes (SNI), haviam sido oficiais diretamente envolvidos na
deposição de João Goulart e generais que nunca deixaram de defender a
máquina repressiva do regime. Um estudo do professor Ben Ross Schneider
mostraria que, num universo de 125 cargos relevantes da administração
federal, a taxa de sobrevivência dos quadros do governo de Figueiredo fora de
60%, a maior já registrada.43
A conciliação de Tancredo mudava o país quando era vista pelo outro lado,
o dos que militavam na restauração democrática. O ministro da Justiça
(Fernando Lyra) viera da ala mais combativa do MDB. Aluizio Alves
(Administração), José Aparecido de Oliveira (Cultura) e Renato Archer
(Ciência e Tecnologia) haviam sido cassados."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016. P. 315-327
econômica, com uma inflação que chegara a 224%; a dívida externa, de 91
bilhões de dólares; e o desconforto físico, o mesmo que sentira meses antes.
Da crise econômica, cuidaria pessoalmente. Para isso decidira colocar no
Ministério da Fazenda seu sobrinho, Francisco Dornelles. Conhecia-o desde
menino, nomeara-o para seu gabinete na Secretaria de Fazenda de Minas
Gerais aos 24 anos e levara-o para Brasília como seu secretário particular
quando se tornou primeiro-ministro. Dornelles chefiava a Receita Federal
desde 1979 e fora mantido no cargo por Delfim Netto, mesmo depois que se
tramou uma degola dos tancredistas em cargos importantes. Era o seu mais
categorizado intermediário para quaisquer conversas, sobretudo com
militares.
Na noite do Réveillon, Tancredo sentiu-se mal, e dias antes da eleição o
desconforto físico voltou. Teve febre e telefonou para o médico Garcia de
Lima, que lhe receitou o antibiótico Keflex por via oral. Dias depois, viu
Tancredo em Brasília, mas não conseguiu examiná-lo direito. Nem ele nem o
chefe do Departamento Médico da Câmara, Renault Mattos Ribeiro, que o
atendia há anos, a quem se queixou de uma dor na região pubiana.2
Homem de poucos gestos, Tancredo sentava-se de maneira esquisita,
como se estivesse reclinado. Agora mantinha a mão sobre a virilha direita,
como se pressionasse a barriga. Numa viagem a Porto Alegre, subiu as
escadarias do palácio Piratini amparado. No Rio, durante um breve percurso
até o automóvel, a cena repetiu-se. Como tinha o hábito de caminhar de
braço dado com outra pessoa, nada parecia haver de anormal. Paulo Maluf e o
SNI sabiam que sua saúde não ia bem, mas não sabiam exatamente o que ele
tinha.3 Nem ele.
(...)
No dia 15 de janeiro de 1985, em clima de comemorações semelhantes às das
vitórias da Copa do Mundo, Tancredo de Almeida Neves foi eleito presidente
da República. Derrotou Maluf por 480 votos contra 180. Depois de cinco
generais e duas juntas militares, estava acabada a ditadura e um civil
retornaria à Presidência da República. (O deputado José Camargo, que
apresentara uma emenda constitucional prorrogando o mandato de
Figueiredo, apoiara a candidatura de Andreazza e se passara para o bloco
malufista, votou em Tancredo.) Multidões foram às ruas e em Belo Horizonte,
num episódio que talvez nunca tivesse acontecido, bisou-se uma cantoria do
Hino nacional. Chovia em Brasília e centenas de pessoas abrigavam-se debaixo
de uma bandeira brasileira de 250 metros quadrados.4
Faltavam exatos dois meses para a posse e Tancredo ocupou-se por duas
semanas viajando pelo mundo. Viu o papa, o rei da Espanha, os presidentes de
Itália, França, Estados Unidos e Argentina, mais o poeta argentino Jorge Luis
Borges. Eram todas visitas ritualísticas. O choque veio no encontro com o
secretário de Estado americano, o empresário George Shultz. Tancredo já o
encontrara num amplo café da manhã realizado na embaixada brasileira.
Também havia conversado por meia hora com o presidente Ronald Reagan,
na Casa Branca. Até então, cumprira uma agenda banal. Reagan (74 anos dali
a cinco dias) e Tancredo (75 anos dali a um mês) chegaram a trocar piadas
sobre o presidente italiano Sandro Pertini (89 anos completos).5
(...)
Tancredo formou um ministério no qual se percebiam três eixos. No
primeiro, estavam os quatro ministros que, na sua maneira de ver, realmente
contavam. Colocou o general Leonidas Pires Gonçalves no Exército; Francisco
Dornelles na Fazenda; entregou o Gabinete Civil a seu amigo pessoal José
Hugo Castello Branco; e o Ministério da Justiça ao deputado Fernando Lyra.
No segundo eixo, pôs os aliados a quem devia o êxito da articulação que o
elegera. Aureliano Chaves foi para o Ministério de Minas e Energia, Antonio
Carlos Magalhães para o das Comunicações, o general Ivan de Souza Mendes
para o SNI e Olavo Setubal para o Itamaraty (uma surpresa para quem
esperava vê-lo no comando da economia). Compensou a escolha de ACM
dando duas pastas ao PMDB baiano; e a do banqueiro paulista, entregando a
pasta do Trabalho ao advogado Almir Pazzianotto, que surgira anos antes
como defensor e negociador dos metalúrgicos do ABC. Roberto Gusmão, o
secretário de Governo de Franco Montoro, que se tornara um de seus
principais articuladores, foi para a Indústria e Comércio. Era uma equipe que
tinha a marca das confianças e desconfianças de Tancredo. O senador
Fernando Henrique Cardoso, presidente do PMDB paulista, foi colocado num
lugar honroso, porém inexistente: o de líder do governo no Congresso.13
Em mais um movimento da coreografia de sua rivalidade com Ulysses
Guimarães, Tancredo assegurou-lhe a presidência da Câmara dos Deputados e,
consequentemente, a da Assembleia Nacional Constituinte, que logo seria
convocada. Isso e mais a manutenção da presidência do PMDB. O “Senhor
Diretas” tornava-se o político mais poderoso do país, depois dele.
A José Sarney coube apenas a Vice-Presidência. Ele absorveu sem
reclamação a escolha de Renato Archer, seu rival na política maranhense,
para a pasta de Ciência e Tecnologia. Absorveu até mais. No início de março,
recebera sua cota de convites para a posse e pedira um reforço. Foi-lhe
negado.14
Uma semana antes da festa da posse, sabia-se que Tancredo estava febril.
Tinha dores no abdômen e sua mulher contaria que “a coisa vinha e ia…”.15
Como sempre, ele não falava de sua saúde, não se queixava e não tinha
médico particular. Automedicava-se e, quando precisava, mantinha sua fé nos
antibióticos receitados por Garcia de Lima. Na manhã de 12 de março, terçafeira,
um colaborador viu que ele subia uma escada com alguma
dificuldade.16 À noite, Aécio Neves, secretário particular do avô, telefonou
para Renault Mattos Ribeiro, chamando-o à granja do Riacho Fundo. Seria um
resfriado, talvez gripe. Renault examinou Tancredo na manhã seguinte. Ao
apalpar-lhe a barriga, ele reagiu.
Nesse momento começou a construção de uma tragédia. Tancredo sabia
que o mal-estar, as febres ocasionais e as dores eram coisa velha e haviam sido
controlados com uma medicação paliativa. Faltavam 48 horas para a sua posse
e parecia razoável esperar. Segundo o depoimento de Renault, naquela manhã
ele advertiu que o problema era sério e talvez Tancredo devesse ser
internado.17 Combinaram que ele iria a um centro radiológico e faria exames
em segredo. Jornalistas perguntaram a Renault por que ele aparecera na
granja; ele disse que Tancredo tinha uma faringite.18 Era mentira. Horas
depois, quando o repórter Antônio Britto, porta-voz do futuro governo, foi
combinar a cobertura da reunião ministerial que deveria ocorrer no domingo,
ouviu de Aécio: “Fica quieto, mas pode ser que essa reunião não aconteça”.
Além disso, começou-se a trabalhar no enxugamento do discurso que
Tancredo faria ao ser empossado pelo Congresso.19
À noite, Tancredo e Renault saíram em segredo para os exames. A
radiografia mostrou que na barriga de Tancredo havia uma área inflamada,
com uma placa de pus.20 Concluiu-se que podia ser apendicite ou qualquer
outra coisa. Podia ser qualquer outra coisa, menos apendicite, pois Tancredo
tivera o apêndice extraído havia cinquenta anos.21
Procurou-se manter a notícia entre os familiares. Com isso, começou
também a blindagem do quadro clínico dentro do círculo de relações
profissionais de Renault. Na manhã de quinta-feira, o médico chamou ao seu
gabinete o cirurgião Pinheiro Rocha, seu colega de serviço. Mostrou-lhe o
hemograma de Tancredo: 13.400 leucócitos (um mau número, porém melhor
que os 18 mil de junho). Seguiram para o Riacho Fundo. O presidente eleito
estava deitado e piorara. Pinheiro Rocha disse-lhe que precisava ser operado
imediatamente, mas Tancredo insistia: só depois da posse.22 Às 19h30, a taxa
de leucócitos subiu para 15 mil. Por via das dúvidas, teve início uma operação
destinada a isolar um dos centros cirúrgicos do Hospital de Base de Brasília.
Haviam se passado 48 horas desde o momento em que Aécio Neves
telefonara a Renault informando-o de que o avô não se sentia bem. O
presidente eleito, com um quadro abdominal grave, preservava o sigilo de seu
estado mantendo-se sob os cuidados de um médico que o examinava com
regularidade, mas a quem não confiava seus padecimentos (o mal-estar de
junho só fora detalhado a Garcia de Lima, que, por sua vez, foi mantido fora
dessa crise). Renault já havia contado o segredo a Ulysses Guimarães, que
ficara em copas.23 Até então, para todos os efeitos, Tancredo continuava com
faringite. Guardadas as diferenças entre os dois casos clínicos, o sigilo e a
blindagem da equipe médica replicavam agosto de 1969, quando também se
passaram mais de 48 horas até que o marechal Costa e Silva, abatido por uma
isquemia cerebral, fosse examinado por um neurologista, no Rio de Janeiro.
Até o momento em que chegou ao Hospital de Base, Tancredo foi o agente
ativo da procrastinação que agravou seu estado. Costa e Silva, sem voz, foi um
agente passivo.
A blindagem do quadro clínico de Tancredo tinha uma origem e embutia
uma consequência. A origem estava na sua preocupação, ou de qualquer leigo
que lidasse com o problema, de aguentar até o fim da noite de sexta-feira,
quando já teria vestido a faixa presidencial. Ele aguentara as crises de junho e
de janeiro, poderia aguentar mais essa. Não se consultaram outros
especialistas e o cirurgião Pinheiro Rocha fez questão de escalar todos os
profissionais que porventura viessem a ser chamados.24
Nessas 48 horas Tancredo poderia ter recebido assistência e
aconselhamento de quaisquer médicos do país. Quanto ao sigilo, já se fora.
Durante uma festa, o professor João Leitão de Abreu soube que Tancredo
estava diante da possibilidade de uma “cirurgia iminente” e, ao voltar para
casa, avisou o presidente Figueiredo.25
Na manhã de quinta-feira, véspera da posse, os leucócitos de Tancredo
chegaram a 17 mil, mas manteve-se a sua programação oficial. Indo a uma
missa, teve dificuldade para se levantar do banco da catedral. Parecia cansado.
À sua esquerda, José Sarney observava-o e notou que ele se movia com
dificuldade, sobretudo ao ajoelhar-se para a comunhão. O vice-presidente
eleito fora avisado pouco antes por Renault de que Tancredo tomaria posse e
seria internado logo depois: “Dentro de uma semana ele estará muito bem. É
uma crise de apendicite”. Hipocondríaco e depressivo, Sarney estava com a
pressão a dezenove por dez e tomara um comprimido de Quinidine. Não
contou o segredo nem a Marly, sua mulher.26
(...)
O hospital transformou-se num pandemônio. Médicos desentenderam-se.
Tancredo deveria ser operado no segundo andar, mas acabou indo para o
centro cirúrgico do subsolo. O cirurgião teve que passar em casa porque
esquecera os óculos.30 A operação começou à 1h10 de sexta-feira e terminou
às 2h45. Na sala da cirurgia a equipe de dez médicos coabitava com pelo
menos seis curiosos, entre eles Antonio Carlos Magalhães, um senador e um
deputado (todos diplomados em medicina).31
Ao final, os médicos Renault, Pinheiro e Gustavo Arantes emitiram o
primeiro boletim oficial, anunciando que fora removido do intestino de
Tancredo um divertículo de Meckel, “com abscesso em formação”.32 Seria um
episódio menor, semelhante a uma apendicite, mas não era verdade. O
relatório da cirurgia informa que essa era uma hipótese entre três:
“Divertículo de Meckel? Leiomioma? Linfoma?”. Linfoma seria um câncer.
Leiomioma, um tumor benigno. Era um leiomioma, mas essa informação
obrigaria os médicos a usarem a palavra maldita: “tumor”. Ficou-se, assim,
benignamente, com um diagnóstico falso.33
Às 7h25, os mesmos médicos informaram que desde as 5h30 Tancredo fora
transferido para a sala de recuperação, “tendo conversado com os médicos que
o estão atendendo”.34 Nunca houvera faringite, não era possível que fosse
apendicite e o divertículo de Meckel fora uma precipitação inofensiva. Dessa
vez era uma mentira pior. Nas anteriores, mascarava-se um problema
relacionado com o diagnóstico. Agora, mentia-se a respeito da situação do
paciente no hospital.
Logo depois da cirurgia, Pinheiro e Renault estavam com a família de
Tancredo quando foram chamados pelo anestesista. O paciente tivera uma
parada respiratória. O relatório da Unidade de Terapia Intensiva informou
que, ao ser extubado, Tancredo tivera um colapso, “necessitando ser ventilado
por cerca de 30 minutos, quando voltou a respirar normalmente. (…) Deu
entrada na UTI às 5h10”.35 Essa seria a primeira complicação pós-operatória
de Tancredo, acompanhada pela primeira falsificação de seu quadro. A freira
Esther, sua irmã, madre superiora do Convento das Vicentinas do Rio e
enfermeira-chefe do hospital da ordem, disse a Francisco Dornelles: “Tancredo
morre”.36
* * *
Durante a madrugada de 15 de março de 1985, a restauração democrática
brasileira viveu sua maior crise e superou-a de maneira exemplar. Ao contrário
do que sucedera em agosto de 1969, quando o marechal Costa e Silva ficou
incapacitado e o país foi jogado num período de anarquia militar, todos os
personagens agiram buscando a normalidade, numa situação de inédita
anormalidade. Quem foi dormir cedo esperava assistir à posse de Tancredo às
nove da manhã, diante da nação em festa, da presença do vice-presidente dos
Estados Unidos e de dezenas de delegações estrangeiras. Quem acordou tarde
soube que José Sarney tomara posse. O país parou, acompanhando a agonia do
arquiteto da transição.
(...)
Figueiredo detestava Sarney e Aureliano, mas isso não era suficiente para
que se ausentasse do melhor momento de sua vida pública: a entrega do poder
a um civil. Em diversos momentos, o cavalariano estourado tomou, ou deixou
de tomar, decisões que corroeram sua biografia. Em sua última entrevista
como presidente, expôs a profundidade de seu ressentimento, que ia muito
além da malquerença a Sarney e Aureliano: “O povão que poderá me escutar
será talvez os 70% dos brasileiros que estão apoiando o Tancredo. Então desejo
que eles tenham razão, que o doutor Tancredo consiga fazer um bom
governo para eles. (...) Que ele dê a eles o que não consegui. (...) E que me
esqueçam”.42
Sarney foi empossado com toda a pompa. Terminara o maior processo de
conciliação da história nacional e na cena faltava Tancredo Neves, o sujeito
da frase, seu arquiteto e moderador. Pensava-se que deixaria o hospital nos
próximos dias. Até lá, o país seria dirigido por um presidente que não vivera,
nem viveria, um só dia na oposição.
O ministro da Fazenda, Francisco Dornelles, fora o chefe da Receita
Federal no governo que terminava. O das Relações Exteriores, Olavo Setubal,
era um banqueiro que governara a cidade de São Paulo e por pouco não
chegara a governador do estado. Os ministros de Minas e Energia (Aureliano
Chaves), da Educação (Marco Maciel) e das Comunicações (Antonio Carlos
Magalhães) haviam sido governadores de seus estados e dissociaram-se do
governo havia poucos meses. O dos Transportes, Afonso Camargo, há poucos
anos.
Os mais poderosos ministros militares, Leonidas Pires Gonçalves (Exército)
e Ivan de Souza Mendes (SNI), haviam sido oficiais diretamente envolvidos na
deposição de João Goulart e generais que nunca deixaram de defender a
máquina repressiva do regime. Um estudo do professor Ben Ross Schneider
mostraria que, num universo de 125 cargos relevantes da administração
federal, a taxa de sobrevivência dos quadros do governo de Figueiredo fora de
60%, a maior já registrada.43
A conciliação de Tancredo mudava o país quando era vista pelo outro lado,
o dos que militavam na restauração democrática. O ministro da Justiça
(Fernando Lyra) viera da ala mais combativa do MDB. Aluizio Alves
(Administração), José Aparecido de Oliveira (Cultura) e Renato Archer
(Ciência e Tecnologia) haviam sido cassados."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016. P. 315-327
A Construção de Tancredo - parte III
"A anarquia militar estava em qualquer lugar e, novamente, em lugar
nenhum. Na reunião do Alto-Comando, o general Eraldo Tavares de Lima,
comandante do I Exército, sob cuja jurisdição estava a poderosa Vila Militar,
interpelou Walter Pires sobre o episódio de Brasília e ele garantiu: “Gente do
meu gabinete não foi”. Newton Cruz, que estava na reunião, contaria: “Senti
um frio na espinha”. O CIE era um anexo do gabinete de Pires, e seu chefe, o
general Iris Lustosa, ouvira-o calado. “Se não tinham sido eles, tinha sido
eu.”12
Uma semana depois da ameaça pública de Pires, Tancredo foi ao seu
apartamento, na Barra da Tijuca. Não se conhece o teor da conversa, apenas
o seu momento decisivo, aquele em que Tancredo teria exposto ao ministro o
receio de que se tentasse um golpe militar: “Tenho que avisá-lo de que, se vier
o golpe, virá resistência e haverá derramamento de sangue”.13 É improvável
que essa frase tenha sido dita com essas palavras, estranhas ao estilo do suave
mineiro. Contudo, é certo que, à sua maneira, Tancredo disse a Walter Pires
exatamente isso, e dele recebeu a informação de que nada havia a temer.
Geisel recebeu Tancredo em seu escritório do Rio. Não lhe deu apoio, mas
deixou-se fotografar abraçando-o. Aconselhou-o a ficar longe dos quartéis.14
Enquanto os dois conversavam, um assessor de Tancredo recebeu um telex
com trechos do discurso que o ministro da Aeronáutica, Délio Jardim de
Mattos, fizera em Salvador, onde também haviam aparecido pichações ligando
o PCB a Tancredo: “A História não fala bem dos covardes e, muito menos, dos
traidores”.15 Aquele era o dia do aniversário de Antonio Carlos Magalhães.
Tinha a casa cheia, trancou-se no escritório e redigiu uma nota respondendo
a Délio: “Trair a Revolução de 1964 (…) é apoiar Maluf para presidente. Trair os
propósitos de seriedade e dignidade da vida pública é fazer o jogo de um
corrupto”.16 Pela primeira vez, um destacado político que apoiara a ditadura
desde a primeira hora respondia com tamanha dureza a um ministro militar.
Tancredo, a quem ACM lera a sua nota, assustou-se, mas não o demoveu.17
No dia seguinte, Heitor Ferreira foi ao Planalto e ouviu do general Octavio
Medeiros que o brigadeiro Délio responderia ao ataque e que Antonio Carlos
seria processado. Conhecendo o governo, Heitor achou que não aconteceria
uma coisa nem outra.18 Acertou. A contrariedade oficial limitou-se a uma
constrangedora descortesia cenográfica. Durante o desfile de Sete de
Setembro, Figueiredo não dirigiu a palavra a Aureliano e os ministros militares
o deixaram isolado no palanque.19
A ação militar contra Tancredo viera exatamente de onde saíram as
bombas que estouraram teatros em 1968: do CIE, o ninho de oficiais
voluntaristas que no dia da demissão do general Frota sonharam atacar o
palácio do Planalto com algumas dezenas de militares e coquetéis-molotovs.
Na segunda semana de outubro, o general Lustosa reuniu quatrocentos
oficiais que serviam em Brasília, de tenente a general, para uma demorada
palestra na qual o CIE mostrou a extensão de uma campanha comunista.
Abriu os trabalhos lendo uma nota de Walter Pires, que alertava para o fato de
o Brasil estar entrando numa situação “pré-revolucionária”.20 Seguiu-se um
arrastão contra militantes do PC do B em quatro capitais, com a prisão de 39
pessoas.21 Da Bahia, contudo, partiu um sinal: o deputado Luís Eduardo
Magalhães, filho de ACM, foi ao DOPS para visitá-los.
Armava-se uma crise com o beneplácito do ministro do Exército e o
estímulo verbal do presidente da República. No dia 21 de setembro, os Altos-
Comandos de Exército, Marinha e Aeronáutica reuniram-se e soltaram três
notas oficiais. Para quem planejara uma operação conjunta, destinada a
mostrar unidade, deu errado. As notas do Exército e da Aeronáutica tinham
fraseados idênticos, falavam em “preocupante radicalização política”,
campanha de “calúnias” e de “descrédito contra as autoridades civis e
militares” e apontavam para os riscos que corriam a sucessão e “o próprio êxito
do projeto de abertura política”.22 Na nota da Marinha, nem uma palavra. É
verdade que desde o século XIX os golpes não dependiam da Armada, mas as
notas expuseram uma divisão embaraçosa. De Teresópolis, Geisel desdenhava
o risco de uma quartelada. Vira sete e ganhara em quatro.23
Todas as conspirações fracassadas acabam transformadas em episódios
folclóricos, como se nunca tivessem tido chance de dar certo. Contudo, nem
sempre foi assim. Na crise de 1965, entendeu-se que a Vila Militar rebelara-se,
emparedando o marechal Castello Branco e obrigando-o a baixar o Ato
Institucional no 2, que cancelou as eleições diretas para presidente e
governadores. Geisel, que chefiava o Gabinete Militar de Castello, sempre
achou que o presidente cedera a um blefe. Em outro exemplo de sucesso, em
1969 os três ministros militares chamaram o vice-presidente Pedro Aleixo e
informaram-no de que o presidente Costa e Silva tivera um acidente vascular
cerebral e que assumiriam o poder no seu lugar. Aleixo, conformado, foi para
casa, e o CIE guarneceu a portaria de seu edifício para evitar que deixasse o
Rio de Janeiro.
O episódio estava fresco na memória de Tancredo. Diversas teorias
conspiratórias chegaram ao comando de sua campanha. Em todas, o sujeito
da frase era Newton Cruz, comandante militar do Planalto. O próprio
Tancredo disse, publicamente, que estava preocupado em evitar “o golpe, um
gesto inconsequente desse general Newton Cruz”.24 O candidato deveria
estar pronto para sumir de Brasília ao menor sinal de desordem.25 Iria para
Minas Gerais, ou talvez para o Paraná, cujo governo estava com José Richa e
cuja tropa estava sob o comando do general Leonidas.(...)
Delfim Netto registraria: “É incrível o que aconteceu com os militares
depois que Tancredo começou a mandar emissários ou a conversar com eles.
Coisa inacreditável. Você via e não acreditava”."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016. P. 306-312
nenhum. Na reunião do Alto-Comando, o general Eraldo Tavares de Lima,
comandante do I Exército, sob cuja jurisdição estava a poderosa Vila Militar,
interpelou Walter Pires sobre o episódio de Brasília e ele garantiu: “Gente do
meu gabinete não foi”. Newton Cruz, que estava na reunião, contaria: “Senti
um frio na espinha”. O CIE era um anexo do gabinete de Pires, e seu chefe, o
general Iris Lustosa, ouvira-o calado. “Se não tinham sido eles, tinha sido
eu.”12
Uma semana depois da ameaça pública de Pires, Tancredo foi ao seu
apartamento, na Barra da Tijuca. Não se conhece o teor da conversa, apenas
o seu momento decisivo, aquele em que Tancredo teria exposto ao ministro o
receio de que se tentasse um golpe militar: “Tenho que avisá-lo de que, se vier
o golpe, virá resistência e haverá derramamento de sangue”.13 É improvável
que essa frase tenha sido dita com essas palavras, estranhas ao estilo do suave
mineiro. Contudo, é certo que, à sua maneira, Tancredo disse a Walter Pires
exatamente isso, e dele recebeu a informação de que nada havia a temer.
Geisel recebeu Tancredo em seu escritório do Rio. Não lhe deu apoio, mas
deixou-se fotografar abraçando-o. Aconselhou-o a ficar longe dos quartéis.14
Enquanto os dois conversavam, um assessor de Tancredo recebeu um telex
com trechos do discurso que o ministro da Aeronáutica, Délio Jardim de
Mattos, fizera em Salvador, onde também haviam aparecido pichações ligando
o PCB a Tancredo: “A História não fala bem dos covardes e, muito menos, dos
traidores”.15 Aquele era o dia do aniversário de Antonio Carlos Magalhães.
Tinha a casa cheia, trancou-se no escritório e redigiu uma nota respondendo
a Délio: “Trair a Revolução de 1964 (…) é apoiar Maluf para presidente. Trair os
propósitos de seriedade e dignidade da vida pública é fazer o jogo de um
corrupto”.16 Pela primeira vez, um destacado político que apoiara a ditadura
desde a primeira hora respondia com tamanha dureza a um ministro militar.
Tancredo, a quem ACM lera a sua nota, assustou-se, mas não o demoveu.17
No dia seguinte, Heitor Ferreira foi ao Planalto e ouviu do general Octavio
Medeiros que o brigadeiro Délio responderia ao ataque e que Antonio Carlos
seria processado. Conhecendo o governo, Heitor achou que não aconteceria
uma coisa nem outra.18 Acertou. A contrariedade oficial limitou-se a uma
constrangedora descortesia cenográfica. Durante o desfile de Sete de
Setembro, Figueiredo não dirigiu a palavra a Aureliano e os ministros militares
o deixaram isolado no palanque.19
A ação militar contra Tancredo viera exatamente de onde saíram as
bombas que estouraram teatros em 1968: do CIE, o ninho de oficiais
voluntaristas que no dia da demissão do general Frota sonharam atacar o
palácio do Planalto com algumas dezenas de militares e coquetéis-molotovs.
Na segunda semana de outubro, o general Lustosa reuniu quatrocentos
oficiais que serviam em Brasília, de tenente a general, para uma demorada
palestra na qual o CIE mostrou a extensão de uma campanha comunista.
Abriu os trabalhos lendo uma nota de Walter Pires, que alertava para o fato de
o Brasil estar entrando numa situação “pré-revolucionária”.20 Seguiu-se um
arrastão contra militantes do PC do B em quatro capitais, com a prisão de 39
pessoas.21 Da Bahia, contudo, partiu um sinal: o deputado Luís Eduardo
Magalhães, filho de ACM, foi ao DOPS para visitá-los.
Armava-se uma crise com o beneplácito do ministro do Exército e o
estímulo verbal do presidente da República. No dia 21 de setembro, os Altos-
Comandos de Exército, Marinha e Aeronáutica reuniram-se e soltaram três
notas oficiais. Para quem planejara uma operação conjunta, destinada a
mostrar unidade, deu errado. As notas do Exército e da Aeronáutica tinham
fraseados idênticos, falavam em “preocupante radicalização política”,
campanha de “calúnias” e de “descrédito contra as autoridades civis e
militares” e apontavam para os riscos que corriam a sucessão e “o próprio êxito
do projeto de abertura política”.22 Na nota da Marinha, nem uma palavra. É
verdade que desde o século XIX os golpes não dependiam da Armada, mas as
notas expuseram uma divisão embaraçosa. De Teresópolis, Geisel desdenhava
o risco de uma quartelada. Vira sete e ganhara em quatro.23
Todas as conspirações fracassadas acabam transformadas em episódios
folclóricos, como se nunca tivessem tido chance de dar certo. Contudo, nem
sempre foi assim. Na crise de 1965, entendeu-se que a Vila Militar rebelara-se,
emparedando o marechal Castello Branco e obrigando-o a baixar o Ato
Institucional no 2, que cancelou as eleições diretas para presidente e
governadores. Geisel, que chefiava o Gabinete Militar de Castello, sempre
achou que o presidente cedera a um blefe. Em outro exemplo de sucesso, em
1969 os três ministros militares chamaram o vice-presidente Pedro Aleixo e
informaram-no de que o presidente Costa e Silva tivera um acidente vascular
cerebral e que assumiriam o poder no seu lugar. Aleixo, conformado, foi para
casa, e o CIE guarneceu a portaria de seu edifício para evitar que deixasse o
Rio de Janeiro.
O episódio estava fresco na memória de Tancredo. Diversas teorias
conspiratórias chegaram ao comando de sua campanha. Em todas, o sujeito
da frase era Newton Cruz, comandante militar do Planalto. O próprio
Tancredo disse, publicamente, que estava preocupado em evitar “o golpe, um
gesto inconsequente desse general Newton Cruz”.24 O candidato deveria
estar pronto para sumir de Brasília ao menor sinal de desordem.25 Iria para
Minas Gerais, ou talvez para o Paraná, cujo governo estava com José Richa e
cuja tropa estava sob o comando do general Leonidas.(...)
Delfim Netto registraria: “É incrível o que aconteceu com os militares
depois que Tancredo começou a mandar emissários ou a conversar com eles.
Coisa inacreditável. Você via e não acreditava”."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016. P. 306-312
A Construção de Tancredo - parte II
"A hora de Tancredo
Tudo se acabou na quarta-feira, 26 de abril. Votada noite adentro, faltaram 22
votos à emenda Dante de Oliveira e ela foi ao arquivo. Tivera 298 votos, 54
deles vindos do PDS. Para evitar marchas e comícios em Brasília, Figueiredo
colocara a Capital Federal sob medida de emergência, proibindo manifestações
e censurando as transmissões de rádio e televisão a partir da cidade.
Novamente, coube ao general Newton Cruz comandar a tropa.
Frustrando milhões de pessoas, a derrota da emenda somou-se à ruína
econômica e às divisões irremediáveis ocorridas no arco de interesses formado
em 1964. O projeto de “conservarmos o poder até 1991” estava condenado.1
Essa circunstância podia ser percebida na reação do general Geisel diante da
fotografia da multidão na Candelária: “Eu me rendo”.2 Tomadas ao pé da letra,
as três palavras poderiam dar a impressão de que o ex-presidente aceitava a
eleição direta. Não era o caso. Até o fim de seus dias ele foi um adversário
renitente do sufrágio universal para a escolha dos governantes, em qualquer
país, em qualquer época. Geisel capitulava em relação ao projeto de poder. Ele
sabia que dificilmente Aureliano venceria a convenção do PDS e que a
estação seguinte chamava-se Tancredo Neves. Não a apoiava, apenas a
aceitava, rendendo-se.
A mesma aritmética que prenunciara a derrota da emenda apontava para
a possibilidade de vitória de um candidato da oposição no Colégio Eleitoral. Lá,
bastaria uma dissidência muito menor que aquela verificada na votação da
Dante de Oliveira e Tancredo seria o novo presidente da República. Para isso,
duas condições eram necessárias: o governo devia continuar dividido e a
oposição, unida. Aconteceram as duas. Na volta da viagem em que
acompanhara o marido ao Marrocos e à Espanha, Dulce Figueiredo negou o
cumprimento a Vivi Chaves, mulher do vice-presidente.3 O distanciamento
entre o general e seu vice tornara-se perigosamente pessoal. O apoio de
Figueiredo a Aureliano ficava implausível e o de Aureliano a Maluf, impossível.
Restava, enfraquecida, a candidatura de Mário Andreazza. Antonio Carlos
Magalhães, seu principal articulador, percorreu as poucas centenas de metros
da avenida Atlântica que separavam seu hotel do edifício onde vivia Tancredo
Neves. A agenda do encontro foi prática:
Tancredo: “Se eu contar com o apoio da Bahia, largo o governo e saio
candidato à Presidência”.
ACM: “Se Andreazza perder a convenção, você terá o meu apoio”.4
Na véspera da votação da emenda Dante de Oliveira, Figueiredo dissera a
um deputado que “Tancredo Neves é um nome confiável para a conciliação
nacional”.5 Fiel ao seu estilo, o presidente patrocinava também uma emenda
constitucional tornando direta uma eleição presidencial que seria realizada
em 1988. Até lá, o país seria governado por um presidente eleito pelo Colégio.
Para o senador José Sarney, presidente do PDS, a situação era clara: “O
candidato do Figueiredo é ele mesmo. Ele brigou com Aureliano, não ajuda o
Andreazza, tem horror ao Maluf. (…) Quem sobra? Ele”.6
Ao saber que Tancredo emergia como o grande negociador de uma
transição, Lula atacou a ideia: “A proposta de Tancredo não é de governo de
transição coisa nenhuma. É uma proposta de transação”.7 Por coincidência,
colocara no debate a palavra trazida para o léxico político nacional em 1855
pelo deputado e jornalista Justiniano José da Rocha (1811-1862), num panfleto
intitulado “Ação; Reação; Transação”. Ele exaltava a política de conciliação do
marquês de Paraná, que tirava o Império do ferrolho das paixões da Regência:
“Na luta eterna da autoridade com a liberdade, há períodos de ação, períodos
de reação, por fim períodos de transação em que se realiza o progresso do
espírito humano e se firma a conquista da civilização”.8
Lula tinha razão, começara a transação. Tancredo era um admirador de
Paraná e de sua conciliação, mas a transação dependia da divisão irremediável
do governo. Sarney garantira a Heitor Ferreira que Aureliano romperia com o
PDS, retirando sua candidatura.9 [Veja o documento] Se isso acontecesse, o
passo seguinte seria dar seu apoio a Tancredo.
Sarney tentou evitar que isso acontecesse propondo uma prévia dentro do
PDS. Votariam dirigentes municipais, estaduais e federais, além de vereadores,
prefeitos e parlamentares, algo como 80 mil pessoas.10 Era provável que
Aureliano prevalecesse. O presidente do PDS conversou com Leitão de Abreu e
teve o sinal verde de Figueiredo.
(...)
Tancredo estava febril havia uma semana. Quando Garcia de Lima o
examinou, tinha uma temperatura de quarenta graus. Prescreveu-lhe uma
injeção (aplicada por Risoleta) e combinaram que no dia seguinte ele faria
alguns exames. O hemograma mostrou que sua taxa de leucócitos estava em
18 mil (o triplo do normal), com desvio para a esquerda, apontando para uma
infecção bacteriana. Tinha sangue e pus na urina e a ausência de cólicas
indicou tratar-se de uma infecção urinária. O médico receitou-lhe oitenta
miligramas de garamicina a cada oito horas.20
Na história nacional houve momentos em que atitudes individuais mal
calculadas provocaram resultados imprevistos e desastrosos. Em maio de 1945,
Getulio Vargas estimulou o “queremismo”, que lhe permitiria ser candidato à
própria sucessão, disputada por um general e um brigadeiro. Cinco meses
depois foi deposto pela tropa. Em 1961, Jânio Quadros renunciou à Presidência
julgando ser impossível que se desse posse ao vice-presidente, João Goulart.
Aconteceu exatamente isso. A persistência com que Figueiredo permitiu que
continuasse no baralho a carta de sua prorrogação repetiu esse tipo de
comportamento. Ele queria ser a crise e seu remédio. Para isso não tinha a
rua, que pedira a eleição direta, como não tinha a convenção do PDS,
controlada por Maluf. Também não tinha a máquina. “Se tivéssemos um
pouco de governo, ainda faríamos alguma coisa. Mas está a zero”, dizia Delfim
Netto.21
Talvez tivesse a tropa. Também não. Geisel encontrara-se com Aureliano
Chaves no apartamento do ex-ministro Armando Falcão. Na cena, o exministro
da Justiça incluiu dois expressivos figurantes. Estavam lá, apenas
para mostrar que lá estavam, Roberto Marinho, o dono das Organizações
Globo, e o general Reynaldo Mello de Almeida. Velho amigo de Geisel, dos
tempos de tenente, fora comandante do I Exército durante seu governo e
operador militar nas horas tensas da queda do ministro Sylvio Frota, em 1977.
Um emissário de Aureliano já procurara dois generais do Alto-Comando do
Exército. Eram Leonidas Pires Gonçalves e Ivan de Souza Mendes. Um
comandava o III Exército, a poderosa guarnição do Sul, cuja definição pela
posse de Jango determinara o desfecho da crise de 1961; o outro estava numa
diretoria burocrática de Brasília.
Leonidas tinha uma biografia típica da anarquia militar do século XX.
Ainda tenente, em 1945, acompanhara o general Álcio Souto na cena final da
deposição de Getulio Vargas. Durante a crise da renúncia de Jânio, Leonidas e
Ivan eram majores na Casa Militar, comandada por Geisel, de onde
interceptavam ligações telefônicas para João Goulart.22 Em 1964, dias antes da
assembleia de sargentos no Automóvel Clube, ambos foram ao apartamento
do general e propuseram-lhe um plano para impedir a reunião, bloqueando
ruas e retendo militares nos quartéis. O general recusou a oferta, pois achava
melhor que a reunião se realizasse e que Jango comparecesse.23 Na nova
ordem, Ivan viu-se nomeado prefeito de Brasília, cargo que logo abandonou,
pois não queria se meter em política.24 Diferiam no temperamento. Ivan era
retraído, modesto, homem de gabinete. Leonidas era um general de filme.
Num Exército onde a média faz a fama, ofendia-a pela estampa e pelo
desembaraço. Era considerado um oficial vaidoso. Golbery justificava-o: “É um
homem bonito, bem casado com uma mulher bonita. Se não fosse vaidoso
seria burro”.25
Ivan chefiara o gabinete de Geisel na Petrobras e de lá fora para o de seu
irmão, Orlando Geisel, no Ministério do Exército. Em 1974, Leonidas
comandara o Estado-Maior de Reynaldo Mello de Almeida. Ambos conviveram
com a máquina repressiva. Ivan, no comando da Região Militar do Pará,
assistira a operação de queima de arquivo da guerrilha do Araguaia. Leonidas,
no Rio, tivera o DOI da Barão de Mesquita sob sua jurisdição. Ambos sabiam o
que acontecia no porão e entendiam que os militares estavam numa batalha.
Ivan diria que “ou a gente acabava com os comunistas ou eles acabavam com
a gente”.26 Leonidas defenderia o aparelho repressivo lembrando que o surto
terrorista das organizações armadas pretendia transformar o Brasil num
“Cubão”.27
(...)
Tancredo tinha a rua e o PMDB. Seis dos sete governadores do PDS já
haviam anunciado que não apoiariam Maluf.30 Nos cálculos de Aureliano, o
partido do governo tinha sessenta dissidentes.31 Haviam se fechado duas
contas. Maluf mostrava-se imbatível na convenção do PDS e Tancredo
tornara-se imbatível no Colégio Eleitoral. Em poucos meses, sem sair do lugar,
o governador de Minas tornara-se o candidato de todos. Quando Aureliano
encontrou-se com Geisel, tinha no bolso uma carta de Tancredo
comprometendo-se a formar um governo com representação de todas as
forças que o apoiassem.32 O ex-presidente foi a Brasília, numa derradeira
tentativa para conseguir uma definição de Figueiredo. Conversaram por três
horas, e nada.33 Informado por Leitão de Abreu que Maluf não desistiria,
Aureliano telefonou para Tancredo: “Nossa aliança está selada. O vice em sua
chapa será o Sarney”.34
Para quem combatera o regime, e mesmo para quem fora para a rua pelas
diretas, a dose era cavalar. Tancredo colheria o vice no jardim da ditadura. A
biografia de Sarney não tinha momentos de independência, como os do
senador Daniel Krieger em 1968, mostrando a Costa e Silva que conduzia o país
para um confronto institucional, nem de expresso abandono dos “escrúpulos
de consciência”, como Jarbas Passarinho durante a reunião que baixou o AI-5.
Chegara ao Congresso na década de 1950 com apenas 25 anos. Suave nos
modos, culto, inesquecível pelos enormes bigodes. Por pouco não fora ministro
da Educação de Jango.35 Em 1965 elegera-se governador do Maranhão,
encarnando um sentimento de renovação. (Sua posse foi filmada num
documentário dirigido por Glauber Rocha.) Amigo de escritores, tinha uma
cadeira na Academia Brasileira de Letras e cometia seus próprios poemas e
contos. (“De repente o tempo estava podre e tinha cheiro de garapa”, escreveu
em Marimbondos de fogo.)36 Quando prevalecia, orgulhava-se de ser um bom
político; quando fracassava, atribuía a ruína ao poeta que tinha na alma. Em
1974 estivera praticamente escolhido para governar de novo o estado, mas fora
abatido em voo pelo general Milton Tavares de Souza. Geisel não o estimava,
Golbery não lhe dava importância, Petrônio Portella não lhe fazia
confidências.
Sarney era um renitente coadjuvante. Jamais se afastara do governo, mas
mantinha-se longe de suas crises. No dia 11 de outubro de 1977, quando estava
claro que Geisel e o general Sylvio Frota iam para um choque, dizia apenas
que “um dos dois vai ter que sair”. Frota saiu no dia seguinte.
Mestre das pequenas gentilezas, operava na máquina do poder. No início
do governo de Figueiredo, propusera que a presidência da Arena controlasse
um banco de dados com todos os pedidos de parlamentares atendidos pelo
governo.37 Meses antes da eleição de 1982, a título de “lembrança”,
encaminhara a Leitão de Abreu uma proposta audaciosa: “Um congelamento
de preços por determinado período, de modo efetivo e punitivo”.38 [Veja o
documento]
Não havia motivo para malquerê-lo, mas também não havia motivo para
querê-lo. Tinha uma panela em cada boca do fogão. Opusera-se à emenda das
diretas, mas seu filho votara a favor.39 O deputado malufista Edison Lobão,
sua cria na política maranhense, contra. Enquanto Maluf crescia, não o
hostilizava. Dias depois da sua unção para a vice, posou para a capa da revista
Veja tendo ao fundo uma fotografia de Tancredo Neves ao estilo dos retratos
oficiais que se veem em repartições públicas.40 Anos antes, quando o senador
Teotônio Vilela lhe disse que deixaria o partido do governo, indo para o PMDB,
classificou o gesto de “um ato de boemia intelectual”.41 Deu o mesmo pulo,
sem poesia. Considerando-se a desimportância do cargo, Sarney não
incomodava. Representava como ninguém a essência unificadora da
candidatura de Tancredo: o ex-presidente do partido do governo na Vice-
Presidência da chapa da oposição."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016. P. 293-303
Tudo se acabou na quarta-feira, 26 de abril. Votada noite adentro, faltaram 22
votos à emenda Dante de Oliveira e ela foi ao arquivo. Tivera 298 votos, 54
deles vindos do PDS. Para evitar marchas e comícios em Brasília, Figueiredo
colocara a Capital Federal sob medida de emergência, proibindo manifestações
e censurando as transmissões de rádio e televisão a partir da cidade.
Novamente, coube ao general Newton Cruz comandar a tropa.
Frustrando milhões de pessoas, a derrota da emenda somou-se à ruína
econômica e às divisões irremediáveis ocorridas no arco de interesses formado
em 1964. O projeto de “conservarmos o poder até 1991” estava condenado.1
Essa circunstância podia ser percebida na reação do general Geisel diante da
fotografia da multidão na Candelária: “Eu me rendo”.2 Tomadas ao pé da letra,
as três palavras poderiam dar a impressão de que o ex-presidente aceitava a
eleição direta. Não era o caso. Até o fim de seus dias ele foi um adversário
renitente do sufrágio universal para a escolha dos governantes, em qualquer
país, em qualquer época. Geisel capitulava em relação ao projeto de poder. Ele
sabia que dificilmente Aureliano venceria a convenção do PDS e que a
estação seguinte chamava-se Tancredo Neves. Não a apoiava, apenas a
aceitava, rendendo-se.
A mesma aritmética que prenunciara a derrota da emenda apontava para
a possibilidade de vitória de um candidato da oposição no Colégio Eleitoral. Lá,
bastaria uma dissidência muito menor que aquela verificada na votação da
Dante de Oliveira e Tancredo seria o novo presidente da República. Para isso,
duas condições eram necessárias: o governo devia continuar dividido e a
oposição, unida. Aconteceram as duas. Na volta da viagem em que
acompanhara o marido ao Marrocos e à Espanha, Dulce Figueiredo negou o
cumprimento a Vivi Chaves, mulher do vice-presidente.3 O distanciamento
entre o general e seu vice tornara-se perigosamente pessoal. O apoio de
Figueiredo a Aureliano ficava implausível e o de Aureliano a Maluf, impossível.
Restava, enfraquecida, a candidatura de Mário Andreazza. Antonio Carlos
Magalhães, seu principal articulador, percorreu as poucas centenas de metros
da avenida Atlântica que separavam seu hotel do edifício onde vivia Tancredo
Neves. A agenda do encontro foi prática:
Tancredo: “Se eu contar com o apoio da Bahia, largo o governo e saio
candidato à Presidência”.
ACM: “Se Andreazza perder a convenção, você terá o meu apoio”.4
Na véspera da votação da emenda Dante de Oliveira, Figueiredo dissera a
um deputado que “Tancredo Neves é um nome confiável para a conciliação
nacional”.5 Fiel ao seu estilo, o presidente patrocinava também uma emenda
constitucional tornando direta uma eleição presidencial que seria realizada
em 1988. Até lá, o país seria governado por um presidente eleito pelo Colégio.
Para o senador José Sarney, presidente do PDS, a situação era clara: “O
candidato do Figueiredo é ele mesmo. Ele brigou com Aureliano, não ajuda o
Andreazza, tem horror ao Maluf. (…) Quem sobra? Ele”.6
Ao saber que Tancredo emergia como o grande negociador de uma
transição, Lula atacou a ideia: “A proposta de Tancredo não é de governo de
transição coisa nenhuma. É uma proposta de transação”.7 Por coincidência,
colocara no debate a palavra trazida para o léxico político nacional em 1855
pelo deputado e jornalista Justiniano José da Rocha (1811-1862), num panfleto
intitulado “Ação; Reação; Transação”. Ele exaltava a política de conciliação do
marquês de Paraná, que tirava o Império do ferrolho das paixões da Regência:
“Na luta eterna da autoridade com a liberdade, há períodos de ação, períodos
de reação, por fim períodos de transação em que se realiza o progresso do
espírito humano e se firma a conquista da civilização”.8
Lula tinha razão, começara a transação. Tancredo era um admirador de
Paraná e de sua conciliação, mas a transação dependia da divisão irremediável
do governo. Sarney garantira a Heitor Ferreira que Aureliano romperia com o
PDS, retirando sua candidatura.9 [Veja o documento] Se isso acontecesse, o
passo seguinte seria dar seu apoio a Tancredo.
Sarney tentou evitar que isso acontecesse propondo uma prévia dentro do
PDS. Votariam dirigentes municipais, estaduais e federais, além de vereadores,
prefeitos e parlamentares, algo como 80 mil pessoas.10 Era provável que
Aureliano prevalecesse. O presidente do PDS conversou com Leitão de Abreu e
teve o sinal verde de Figueiredo.
(...)
Tancredo estava febril havia uma semana. Quando Garcia de Lima o
examinou, tinha uma temperatura de quarenta graus. Prescreveu-lhe uma
injeção (aplicada por Risoleta) e combinaram que no dia seguinte ele faria
alguns exames. O hemograma mostrou que sua taxa de leucócitos estava em
18 mil (o triplo do normal), com desvio para a esquerda, apontando para uma
infecção bacteriana. Tinha sangue e pus na urina e a ausência de cólicas
indicou tratar-se de uma infecção urinária. O médico receitou-lhe oitenta
miligramas de garamicina a cada oito horas.20
Na história nacional houve momentos em que atitudes individuais mal
calculadas provocaram resultados imprevistos e desastrosos. Em maio de 1945,
Getulio Vargas estimulou o “queremismo”, que lhe permitiria ser candidato à
própria sucessão, disputada por um general e um brigadeiro. Cinco meses
depois foi deposto pela tropa. Em 1961, Jânio Quadros renunciou à Presidência
julgando ser impossível que se desse posse ao vice-presidente, João Goulart.
Aconteceu exatamente isso. A persistência com que Figueiredo permitiu que
continuasse no baralho a carta de sua prorrogação repetiu esse tipo de
comportamento. Ele queria ser a crise e seu remédio. Para isso não tinha a
rua, que pedira a eleição direta, como não tinha a convenção do PDS,
controlada por Maluf. Também não tinha a máquina. “Se tivéssemos um
pouco de governo, ainda faríamos alguma coisa. Mas está a zero”, dizia Delfim
Netto.21
Talvez tivesse a tropa. Também não. Geisel encontrara-se com Aureliano
Chaves no apartamento do ex-ministro Armando Falcão. Na cena, o exministro
da Justiça incluiu dois expressivos figurantes. Estavam lá, apenas
para mostrar que lá estavam, Roberto Marinho, o dono das Organizações
Globo, e o general Reynaldo Mello de Almeida. Velho amigo de Geisel, dos
tempos de tenente, fora comandante do I Exército durante seu governo e
operador militar nas horas tensas da queda do ministro Sylvio Frota, em 1977.
Um emissário de Aureliano já procurara dois generais do Alto-Comando do
Exército. Eram Leonidas Pires Gonçalves e Ivan de Souza Mendes. Um
comandava o III Exército, a poderosa guarnição do Sul, cuja definição pela
posse de Jango determinara o desfecho da crise de 1961; o outro estava numa
diretoria burocrática de Brasília.
Leonidas tinha uma biografia típica da anarquia militar do século XX.
Ainda tenente, em 1945, acompanhara o general Álcio Souto na cena final da
deposição de Getulio Vargas. Durante a crise da renúncia de Jânio, Leonidas e
Ivan eram majores na Casa Militar, comandada por Geisel, de onde
interceptavam ligações telefônicas para João Goulart.22 Em 1964, dias antes da
assembleia de sargentos no Automóvel Clube, ambos foram ao apartamento
do general e propuseram-lhe um plano para impedir a reunião, bloqueando
ruas e retendo militares nos quartéis. O general recusou a oferta, pois achava
melhor que a reunião se realizasse e que Jango comparecesse.23 Na nova
ordem, Ivan viu-se nomeado prefeito de Brasília, cargo que logo abandonou,
pois não queria se meter em política.24 Diferiam no temperamento. Ivan era
retraído, modesto, homem de gabinete. Leonidas era um general de filme.
Num Exército onde a média faz a fama, ofendia-a pela estampa e pelo
desembaraço. Era considerado um oficial vaidoso. Golbery justificava-o: “É um
homem bonito, bem casado com uma mulher bonita. Se não fosse vaidoso
seria burro”.25
Ivan chefiara o gabinete de Geisel na Petrobras e de lá fora para o de seu
irmão, Orlando Geisel, no Ministério do Exército. Em 1974, Leonidas
comandara o Estado-Maior de Reynaldo Mello de Almeida. Ambos conviveram
com a máquina repressiva. Ivan, no comando da Região Militar do Pará,
assistira a operação de queima de arquivo da guerrilha do Araguaia. Leonidas,
no Rio, tivera o DOI da Barão de Mesquita sob sua jurisdição. Ambos sabiam o
que acontecia no porão e entendiam que os militares estavam numa batalha.
Ivan diria que “ou a gente acabava com os comunistas ou eles acabavam com
a gente”.26 Leonidas defenderia o aparelho repressivo lembrando que o surto
terrorista das organizações armadas pretendia transformar o Brasil num
“Cubão”.27
(...)
Tancredo tinha a rua e o PMDB. Seis dos sete governadores do PDS já
haviam anunciado que não apoiariam Maluf.30 Nos cálculos de Aureliano, o
partido do governo tinha sessenta dissidentes.31 Haviam se fechado duas
contas. Maluf mostrava-se imbatível na convenção do PDS e Tancredo
tornara-se imbatível no Colégio Eleitoral. Em poucos meses, sem sair do lugar,
o governador de Minas tornara-se o candidato de todos. Quando Aureliano
encontrou-se com Geisel, tinha no bolso uma carta de Tancredo
comprometendo-se a formar um governo com representação de todas as
forças que o apoiassem.32 O ex-presidente foi a Brasília, numa derradeira
tentativa para conseguir uma definição de Figueiredo. Conversaram por três
horas, e nada.33 Informado por Leitão de Abreu que Maluf não desistiria,
Aureliano telefonou para Tancredo: “Nossa aliança está selada. O vice em sua
chapa será o Sarney”.34
Para quem combatera o regime, e mesmo para quem fora para a rua pelas
diretas, a dose era cavalar. Tancredo colheria o vice no jardim da ditadura. A
biografia de Sarney não tinha momentos de independência, como os do
senador Daniel Krieger em 1968, mostrando a Costa e Silva que conduzia o país
para um confronto institucional, nem de expresso abandono dos “escrúpulos
de consciência”, como Jarbas Passarinho durante a reunião que baixou o AI-5.
Chegara ao Congresso na década de 1950 com apenas 25 anos. Suave nos
modos, culto, inesquecível pelos enormes bigodes. Por pouco não fora ministro
da Educação de Jango.35 Em 1965 elegera-se governador do Maranhão,
encarnando um sentimento de renovação. (Sua posse foi filmada num
documentário dirigido por Glauber Rocha.) Amigo de escritores, tinha uma
cadeira na Academia Brasileira de Letras e cometia seus próprios poemas e
contos. (“De repente o tempo estava podre e tinha cheiro de garapa”, escreveu
em Marimbondos de fogo.)36 Quando prevalecia, orgulhava-se de ser um bom
político; quando fracassava, atribuía a ruína ao poeta que tinha na alma. Em
1974 estivera praticamente escolhido para governar de novo o estado, mas fora
abatido em voo pelo general Milton Tavares de Souza. Geisel não o estimava,
Golbery não lhe dava importância, Petrônio Portella não lhe fazia
confidências.
Sarney era um renitente coadjuvante. Jamais se afastara do governo, mas
mantinha-se longe de suas crises. No dia 11 de outubro de 1977, quando estava
claro que Geisel e o general Sylvio Frota iam para um choque, dizia apenas
que “um dos dois vai ter que sair”. Frota saiu no dia seguinte.
Mestre das pequenas gentilezas, operava na máquina do poder. No início
do governo de Figueiredo, propusera que a presidência da Arena controlasse
um banco de dados com todos os pedidos de parlamentares atendidos pelo
governo.37 Meses antes da eleição de 1982, a título de “lembrança”,
encaminhara a Leitão de Abreu uma proposta audaciosa: “Um congelamento
de preços por determinado período, de modo efetivo e punitivo”.38 [Veja o
documento]
Não havia motivo para malquerê-lo, mas também não havia motivo para
querê-lo. Tinha uma panela em cada boca do fogão. Opusera-se à emenda das
diretas, mas seu filho votara a favor.39 O deputado malufista Edison Lobão,
sua cria na política maranhense, contra. Enquanto Maluf crescia, não o
hostilizava. Dias depois da sua unção para a vice, posou para a capa da revista
Veja tendo ao fundo uma fotografia de Tancredo Neves ao estilo dos retratos
oficiais que se veem em repartições públicas.40 Anos antes, quando o senador
Teotônio Vilela lhe disse que deixaria o partido do governo, indo para o PMDB,
classificou o gesto de “um ato de boemia intelectual”.41 Deu o mesmo pulo,
sem poesia. Considerando-se a desimportância do cargo, Sarney não
incomodava. Representava como ninguém a essência unificadora da
candidatura de Tancredo: o ex-presidente do partido do governo na Vice-
Presidência da chapa da oposição."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016. P. 293-303
A Construção de Tancredo - parte 1
"Diretas Já
A caciquia da oposição paulista estava na sala VIP do Aeroporto de Congonhas,
em São Paulo, a caminho de Maceió, onde seria sepultado o senador Teotônio
Vilela. O “Menestrel das Alagoas” fora um quadro liberal dentro da ditadura,
migrara para o PMDB e tornara-se um infatigável defensor da anistia, da
moratória da dívida externa e da eleição direta. À sua simpatia pessoal somara
uma comovente luta contra o câncer. Percorrera o país já sem cabelos,
apoiado numa bengala, visitando presídios, até a morte, em novembro de 1983.
Definia-se como “um doido manso que perdeu o rumo do hospício”.1 Numa
roda, estavam Lula e a cantora Fafá de Belém. Noutra, Ulysses Guimarães.
Quando o governador Franco Montoro chegou, Lula estendeu-lhe a mão sem
dirigir-lhe a palavra.2 Dias antes, o presidente do PT tentara assumir a
liderança da mobilização popular na campanha das diretas com um comício
na praça fronteira ao estádio do Pacaembu, em São Paulo. Em outra ocasião,
Lula reunira ali 100 mil pessoas.3 Agora, juntara uma plateia de 15 mil. Na
narrativa do repórter Ricardo Kotscho, “esperava-se chegar mais gente, não
chegava”.4 O PT mostrara a força de sua militância e também o limite de sua
capacidade de mobilização. Convidado, Montoro não fora ao comício,
preferindo ficar no Jockey Club para ver o páreo do prêmio Governador do
Estado. Pudera. Pelo rádio era informado de que seu nome e o de seu partido
eram sistematicamente vaiados.5
Se o Planalto e o PDS estavam estilhaçados e sem comando, o PMDB
unira-se. Graças à coreografia da rivalidade de Ulysses com Tancredo, o
partido entrara na campanha pelas diretas com lideranças intercambiáveis.
Ulysses acreditava que conseguiria aprovar a emenda Dante de Oliveira e,
nesse caso, seria o candidato do partido à Presidência. Tancredo duvidava do
futuro da emenda. Calculava que a oposição poderia contar com cinquenta
votos da bancada do governo, mas precisava de pelo menos oitenta dissidentes
para chegar aos dois terços exigidos às emendas constitucionais. Olhava
adiante, para o Colégio Eleitoral de 686 votos, onde a maioria elegeria o
próximo presidente.
(...)
Na véspera do comício do Pacaembu, Franco Montoro reunira-se com seis
governadores e lançara sua campanha pela eleição direta. Tivera um forte
estímulo. A imprensa acompanhava a proposta com ceticismo em relação à
sua viabilidade ou mesmo com desconfiança, pela possibilidade de uma vitória
de Leonel Brizola. Essa armadura fora rompida em dezembro. Octavio Frias de
Oliveira, dono da Folha de S.Paulo, decidiu jogá-la na campanha pelas diretas. O
jornal já endossara a ideia havia alguns meses, com um editorial curto, quase
rotineiro, na segunda página.8 Na edição do domingo, 18 de dezembro (cerca
de 250 mil exemplares de tiragem), publicou outro, no alto de sua capa.
Perguntava: “Como explicar a letargia vergonhosa na qual afundam as
oposições, paralisadas entre as ideias e as vantagens, incapazes de traduzir
palavras em atos?”.9 A Folha lançara-se numa campanha que marcaria sua
história. Não se tratava mais de noticiar os fatos do dia, mas de lutar pela ideia.
Desde o dia 2 de dezembro, o jornal publicava no alto da primeira página um
texto curto (com foto) de alguma personalidade defendendo a eleição direta.
Começou com o jurista Gofredo da Silva Teles. Seguiram-se o cantor Gilberto
Gil, a modelo Bruna Lombardi, o presidente da Volkswagen, Wolfgang Sauer, o
escritor Gilberto Freyre, o cantor Erasmo Carlos, o palhaço Arrelia e até
mesmo Plínio Correa de Oliveira, fundador da organização católica Tradição,
Família e Propriedade. Na edição de 24 de dezembro, um Papai Noel.10 Em
janeiro, a Folha deu outro passo, publicando com frequência o Roteiro das
Diretas, um calendário de eventos da campanha, à semelhança das
programações de cinemas e teatros. Num só dia, listou vinte eventos
organizados para o mês em onze estados, indicando o nível de organização
que o PMDB dera à campanha. Ulysses iria a oito capitais e Montoro
compareceria a dez manifestações em municípios paulistas.11
O primeiro grande comício aconteceu em Curitiba. Juntou 50 mil pessoas
(5% da população) em clima de festa.12 Dos prédios do Centro da cidade caíam
papéis picados. Antes do meio-dia, as barraquinhas que vendiam material de
propaganda esgotaram o estoque de camisetas com o slogan da campanha:
“Diretas Já”. No palanque, Ulysses, Tancredo e o governador José Richa.
Faltavam Lula e Brizola, mas lá estavam astros de novelas, como Raul Cortez e
Dina Sfat, a linda atriz de Macunaíma. O apresentador do comício era Osmar
Santos, cuja voz confundia-se com a narração das grandes partidas de futebol.
Entre um discurso e outro, Carmen Costa cantou Carinhoso. O comício
acabou e o festejo continuou.13
Tancredo dissera em Curitiba que “a oportunidade do consenso já passou
há muito”, mas de Porto Alegre telefonou para Aureliano Chaves
cumprimentando-o por seu aniversário.14 Naquele dia, conversara com
Ulysses Guimarães no avião, informando-o de que se a emenda Dante de
Oliveira não passasse iria para o Colégio Eleitoral, nem que fosse para ter só
um voto.15
Em Salvador, Caetano Veloso e Gonzaguinha estiveram no palanque com
Ulysses, Tancredo e o ex-governador Roberto Santos, do PDS. Seguiram-se
manifestações em Vitória, Campinas e Rio Claro (SP). No Rio, realizou-se
apenas uma passeata, pela orla da praia. Coisa pequena para a tradição da
cidade.16 O governador Leonel Brizola saudou-a da janela de seu
apartamento, na avenida Atlântica, em Copacabana.
(...)
O apoio da população, medido pelo Instituto Gallup numa pesquisa
realizada em 185 cidades de 21 estados, chegara a 81%, contra 63% em 1980.18
Desde as primeiras mobilizações, nove comícios e passeatas haviam reunido
mais de 100 mil pessoas.19 O comício de São Paulo foi organizado por uma
comissão que coordenou uma equipe de sessenta pessoas, socorrida por cinco
agências de publicidade que firmaram a cor da campanha (amarelo) e seu
slogan (“Eu quero votar pra presidente”).20 Um laboratório distribuíra
adesivos e a rede de supermercados Carrefour anunciava suas “Diretas 84”,
uma “linha direta com o preço baixo”.21 O palácio dos Bandeirantes articulou
a adesão de 514 prefeitos e a organização de caravanas.22 Trens e metrô grátis,
quatrocentos policiais para proteger os manifestantes.23 A Paulistur instalou
duzentos alto-falantes.24 Foram espalhados pela cidade 1 milhão de cartazes e
5 milhões de panfletos.25 Pensou-se em tudo, até em evitar que os petistas
vaiassem Montoro. Para isso, combinaram que o governador subiria ao
proscênio ao lado de Lula.26 Alguns grupos chegaram na noite anterior para
ocupar os melhores lugares e o PC do B veio de madrugada, com trezentas
bandeiras vermelhas.27
Faltavam duas horas para o início da manifestação e já havia 50 mil
pessoas diante do palanque de 120 metros quadrados construído na escadaria
da Sé.
Chico Buarque de Hollanda cantou Apesar de você acompanhado pela
multidão. Fernanda Montenegro pediu a Figueiredo “anistia total para o povo
através das diretas”, entregou o microfone e foi chorar no fundo do palanque.
Estava todo mundo lá: Leonel Brizola, que meses antes apoiara a reeleição do
general Figueiredo, e alguns representantes do PDS. Moraes Moreira, com seu
“Frevo das diretas”, Milton Nascimento, Sonia Braga, Gilberto Gil e Regina
Duarte. Pelos prefeitos do PT falou o de Diadema, Gilson Menezes. Sete anos
antes, ele parara a Scania e no dia 1o de maio de 1968, naquela mesma praça,
ajudara a destruir o palanque de um comício armado em condomínio com o
Partido Comunista pelo governador Abreu Sodré. A esquerda brasileira, que se
dividira naquela ocasião, unira-se na Sé e, pela primeira vez em décadas,
juntara-se ao povo. Era a mesma praça onde, em 1975, um dispositivo da PM
procurara intimidar quem ia ao culto ecumênico pela memória de Vladimir
Herzog, assassinado no DOI do II Exército.
(...)
Tudo continuava na mesma. Figueiredo não se mexia, Maluf não recuava,
Andreazza sinalizava que não o apoiaria e Aureliano não apoiaria nenhum dos
dois. O Planalto costurava um impasse, mas Tancredo Neves costurava uma
solução. No início de março de 1984 ele já dissera a Thales Ramalho que
disputaria no Colégio Eleitoral. Para uma raposa como o deputado
pernambucano, isso não era novidade, mas a clareza permitia-lhe levar a
confidência ao professor Leitão de Abreu, com quem conversava
frequentemente. Daí a Figueiredo, bastava um passo.45
Se a emenda Dante de Oliveira fosse barrada, tanto Aureliano quanto os
governistas que não aceitavam Maluf disporiam de um nome de consenso, o
de Tancredo.46 O secretário-geral do PMDB, Afonso Camargo, atravessou a
praça dos Três Poderes e foi ao chefe do Gabinete Militar, general Rubem
Ludwig. À saída, disse que a aprovação da emenda era “quase impossível”, pois
se passasse na Câmara, cairia no Senado. (Aritmeticamente, sua conta estava
certa, mas a tradição ia na direção oposta.) Ulysses, ao saber do encontro,
calou-se.47 A esse movimento da mão direita de Tancredo correspondeu
outro, com a esquerda. Encontrou-se com Miguel Arraes e, ao fim da
conversa, ficou entendido que o PMDB voltara a ser o partido dos dois."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016. P. 283-291
A caciquia da oposição paulista estava na sala VIP do Aeroporto de Congonhas,
em São Paulo, a caminho de Maceió, onde seria sepultado o senador Teotônio
Vilela. O “Menestrel das Alagoas” fora um quadro liberal dentro da ditadura,
migrara para o PMDB e tornara-se um infatigável defensor da anistia, da
moratória da dívida externa e da eleição direta. À sua simpatia pessoal somara
uma comovente luta contra o câncer. Percorrera o país já sem cabelos,
apoiado numa bengala, visitando presídios, até a morte, em novembro de 1983.
Definia-se como “um doido manso que perdeu o rumo do hospício”.1 Numa
roda, estavam Lula e a cantora Fafá de Belém. Noutra, Ulysses Guimarães.
Quando o governador Franco Montoro chegou, Lula estendeu-lhe a mão sem
dirigir-lhe a palavra.2 Dias antes, o presidente do PT tentara assumir a
liderança da mobilização popular na campanha das diretas com um comício
na praça fronteira ao estádio do Pacaembu, em São Paulo. Em outra ocasião,
Lula reunira ali 100 mil pessoas.3 Agora, juntara uma plateia de 15 mil. Na
narrativa do repórter Ricardo Kotscho, “esperava-se chegar mais gente, não
chegava”.4 O PT mostrara a força de sua militância e também o limite de sua
capacidade de mobilização. Convidado, Montoro não fora ao comício,
preferindo ficar no Jockey Club para ver o páreo do prêmio Governador do
Estado. Pudera. Pelo rádio era informado de que seu nome e o de seu partido
eram sistematicamente vaiados.5
Se o Planalto e o PDS estavam estilhaçados e sem comando, o PMDB
unira-se. Graças à coreografia da rivalidade de Ulysses com Tancredo, o
partido entrara na campanha pelas diretas com lideranças intercambiáveis.
Ulysses acreditava que conseguiria aprovar a emenda Dante de Oliveira e,
nesse caso, seria o candidato do partido à Presidência. Tancredo duvidava do
futuro da emenda. Calculava que a oposição poderia contar com cinquenta
votos da bancada do governo, mas precisava de pelo menos oitenta dissidentes
para chegar aos dois terços exigidos às emendas constitucionais. Olhava
adiante, para o Colégio Eleitoral de 686 votos, onde a maioria elegeria o
próximo presidente.
(...)
Na véspera do comício do Pacaembu, Franco Montoro reunira-se com seis
governadores e lançara sua campanha pela eleição direta. Tivera um forte
estímulo. A imprensa acompanhava a proposta com ceticismo em relação à
sua viabilidade ou mesmo com desconfiança, pela possibilidade de uma vitória
de Leonel Brizola. Essa armadura fora rompida em dezembro. Octavio Frias de
Oliveira, dono da Folha de S.Paulo, decidiu jogá-la na campanha pelas diretas. O
jornal já endossara a ideia havia alguns meses, com um editorial curto, quase
rotineiro, na segunda página.8 Na edição do domingo, 18 de dezembro (cerca
de 250 mil exemplares de tiragem), publicou outro, no alto de sua capa.
Perguntava: “Como explicar a letargia vergonhosa na qual afundam as
oposições, paralisadas entre as ideias e as vantagens, incapazes de traduzir
palavras em atos?”.9 A Folha lançara-se numa campanha que marcaria sua
história. Não se tratava mais de noticiar os fatos do dia, mas de lutar pela ideia.
Desde o dia 2 de dezembro, o jornal publicava no alto da primeira página um
texto curto (com foto) de alguma personalidade defendendo a eleição direta.
Começou com o jurista Gofredo da Silva Teles. Seguiram-se o cantor Gilberto
Gil, a modelo Bruna Lombardi, o presidente da Volkswagen, Wolfgang Sauer, o
escritor Gilberto Freyre, o cantor Erasmo Carlos, o palhaço Arrelia e até
mesmo Plínio Correa de Oliveira, fundador da organização católica Tradição,
Família e Propriedade. Na edição de 24 de dezembro, um Papai Noel.10 Em
janeiro, a Folha deu outro passo, publicando com frequência o Roteiro das
Diretas, um calendário de eventos da campanha, à semelhança das
programações de cinemas e teatros. Num só dia, listou vinte eventos
organizados para o mês em onze estados, indicando o nível de organização
que o PMDB dera à campanha. Ulysses iria a oito capitais e Montoro
compareceria a dez manifestações em municípios paulistas.11
O primeiro grande comício aconteceu em Curitiba. Juntou 50 mil pessoas
(5% da população) em clima de festa.12 Dos prédios do Centro da cidade caíam
papéis picados. Antes do meio-dia, as barraquinhas que vendiam material de
propaganda esgotaram o estoque de camisetas com o slogan da campanha:
“Diretas Já”. No palanque, Ulysses, Tancredo e o governador José Richa.
Faltavam Lula e Brizola, mas lá estavam astros de novelas, como Raul Cortez e
Dina Sfat, a linda atriz de Macunaíma. O apresentador do comício era Osmar
Santos, cuja voz confundia-se com a narração das grandes partidas de futebol.
Entre um discurso e outro, Carmen Costa cantou Carinhoso. O comício
acabou e o festejo continuou.13
Tancredo dissera em Curitiba que “a oportunidade do consenso já passou
há muito”, mas de Porto Alegre telefonou para Aureliano Chaves
cumprimentando-o por seu aniversário.14 Naquele dia, conversara com
Ulysses Guimarães no avião, informando-o de que se a emenda Dante de
Oliveira não passasse iria para o Colégio Eleitoral, nem que fosse para ter só
um voto.15
Em Salvador, Caetano Veloso e Gonzaguinha estiveram no palanque com
Ulysses, Tancredo e o ex-governador Roberto Santos, do PDS. Seguiram-se
manifestações em Vitória, Campinas e Rio Claro (SP). No Rio, realizou-se
apenas uma passeata, pela orla da praia. Coisa pequena para a tradição da
cidade.16 O governador Leonel Brizola saudou-a da janela de seu
apartamento, na avenida Atlântica, em Copacabana.
(...)
O apoio da população, medido pelo Instituto Gallup numa pesquisa
realizada em 185 cidades de 21 estados, chegara a 81%, contra 63% em 1980.18
Desde as primeiras mobilizações, nove comícios e passeatas haviam reunido
mais de 100 mil pessoas.19 O comício de São Paulo foi organizado por uma
comissão que coordenou uma equipe de sessenta pessoas, socorrida por cinco
agências de publicidade que firmaram a cor da campanha (amarelo) e seu
slogan (“Eu quero votar pra presidente”).20 Um laboratório distribuíra
adesivos e a rede de supermercados Carrefour anunciava suas “Diretas 84”,
uma “linha direta com o preço baixo”.21 O palácio dos Bandeirantes articulou
a adesão de 514 prefeitos e a organização de caravanas.22 Trens e metrô grátis,
quatrocentos policiais para proteger os manifestantes.23 A Paulistur instalou
duzentos alto-falantes.24 Foram espalhados pela cidade 1 milhão de cartazes e
5 milhões de panfletos.25 Pensou-se em tudo, até em evitar que os petistas
vaiassem Montoro. Para isso, combinaram que o governador subiria ao
proscênio ao lado de Lula.26 Alguns grupos chegaram na noite anterior para
ocupar os melhores lugares e o PC do B veio de madrugada, com trezentas
bandeiras vermelhas.27
Faltavam duas horas para o início da manifestação e já havia 50 mil
pessoas diante do palanque de 120 metros quadrados construído na escadaria
da Sé.
Chico Buarque de Hollanda cantou Apesar de você acompanhado pela
multidão. Fernanda Montenegro pediu a Figueiredo “anistia total para o povo
através das diretas”, entregou o microfone e foi chorar no fundo do palanque.
Estava todo mundo lá: Leonel Brizola, que meses antes apoiara a reeleição do
general Figueiredo, e alguns representantes do PDS. Moraes Moreira, com seu
“Frevo das diretas”, Milton Nascimento, Sonia Braga, Gilberto Gil e Regina
Duarte. Pelos prefeitos do PT falou o de Diadema, Gilson Menezes. Sete anos
antes, ele parara a Scania e no dia 1o de maio de 1968, naquela mesma praça,
ajudara a destruir o palanque de um comício armado em condomínio com o
Partido Comunista pelo governador Abreu Sodré. A esquerda brasileira, que se
dividira naquela ocasião, unira-se na Sé e, pela primeira vez em décadas,
juntara-se ao povo. Era a mesma praça onde, em 1975, um dispositivo da PM
procurara intimidar quem ia ao culto ecumênico pela memória de Vladimir
Herzog, assassinado no DOI do II Exército.
(...)
Tudo continuava na mesma. Figueiredo não se mexia, Maluf não recuava,
Andreazza sinalizava que não o apoiaria e Aureliano não apoiaria nenhum dos
dois. O Planalto costurava um impasse, mas Tancredo Neves costurava uma
solução. No início de março de 1984 ele já dissera a Thales Ramalho que
disputaria no Colégio Eleitoral. Para uma raposa como o deputado
pernambucano, isso não era novidade, mas a clareza permitia-lhe levar a
confidência ao professor Leitão de Abreu, com quem conversava
frequentemente. Daí a Figueiredo, bastava um passo.45
Se a emenda Dante de Oliveira fosse barrada, tanto Aureliano quanto os
governistas que não aceitavam Maluf disporiam de um nome de consenso, o
de Tancredo.46 O secretário-geral do PMDB, Afonso Camargo, atravessou a
praça dos Três Poderes e foi ao chefe do Gabinete Militar, general Rubem
Ludwig. À saída, disse que a aprovação da emenda era “quase impossível”, pois
se passasse na Câmara, cairia no Senado. (Aritmeticamente, sua conta estava
certa, mas a tradição ia na direção oposta.) Ulysses, ao saber do encontro,
calou-se.47 A esse movimento da mão direita de Tancredo correspondeu
outro, com a esquerda. Encontrou-se com Miguel Arraes e, ao fim da
conversa, ficou entendido que o PMDB voltara a ser o partido dos dois."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016. P. 283-291
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017
Figueiredo - parte II
"O receituário do regime sugeria jogar a crise para o Congresso e o general
deu a esse expediente um toque ridículo. Um deputado dissera que “todos os
ministros são ladrões, os militares e o presidente também”.26 Na bem-sucedida
provocação de 1968, Marcio Moreira Alves era um deputado vindo de uma
prestigiosa carreira jornalística e saído da cepa dos Mello Franco. O deputado
Mario Juruna, eleito pelo Rio de Janeiro, com 31 mil votos folclóricos, era um
índio xavante que aprendera português aos dezessete anos.27 Figueiredo
resolveu pedir à Câmara a cassação de seu mandato. Queria que o governo o
acompanhasse: “Até agora só onze ministros entraram com o ofício contra o
Juruna. Eu quero todos! Quem não fizer, diz ao Leitão, pode entrar com o
pedido de demissão. Eu demito!”.28 “Estou ficando sozinho… Não tenho mais
amigos… Agora vê, o Pires não está dando importância a nada. Viajou para a
Venezuela.”29 (O episódio terminou com um pedido de desculpas do
deputado.)
Faltava-lhe também a solidariedade de Geisel. Desde o enfarte de 1981, o
responsável por sua unção dizia que Figueiredo devia renunciar, mas essa
opinião costumava ficar no seu fechado círculo familiar. A confidência, no
entanto, transbordou. Uma conversa do ex-presidente com o deputado Marco
Maciel chegou a Heitor Ferreira: “Seria muito bom, e é o que ele deveria fazer,
que ele renunciasse à Presidência”.30
A caminho do seu vigésimo aniversário, o regime perdera o rumo.
Fechando 1983 com uma taxa de inflação de 211%, dobrara a marca de 80% de
Jango em 1963, levara o país à bancarrota e estava sob um sistema de auditoria
imposto pela banca internacional. Um dos pontos centrais de seus
compromissos com o FMI era a aprovação de uma lei que comprimisse os
reajustes salariais. A primeira tentativa deu-se com o Decreto no 2.024. Foi
rejeitado pelo Congresso. Seguiu-se o 2.045. O ministro da Justiça escreveu a
Figueiredo, considerando “inevitável a sua rejeição” e propondo a sua
retirada.31 O general foi em frente. Para evitar manifestações populares em
Brasília, valeu-se pela primeira vez do mecanismo constitucional das medidas
de emergência, suspendendo o direito de reunião e dando à tropa liberdade
para realizar operações de busca e apreensão na capital. Os acessos à cidade
foram patrulhados e revistavam-se passageiros no aeroporto, até que uma
equipe de policiais invadiu a sede seccional da Ordem dos Advogados do Brasil.
Diante da grita, o general Newton Cruz, comandante das operações militares,
reconheceu: “Quebramos a cara”.32 O Decreto no 2.045 foi retirado e entrou
o 2.064. Também capotou, substituído pelo 2.065, finalmente aprovado.
Estava criada uma escala para os reajustes salariais. Quem ganhava até três
salários mínimos recebia 100% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor.
Daí em diante, sofria perdas progressivas. Acima de vinte salários mínimos,
levava só 50% do que perdera com a inflação.33 O sistema duraria apenas um
ano, substituído por uma lei que criou duas faixas para os reajustes: 100% do
INPC até três salários mínimos e 80% daí em diante.34
A escolha do general Cruz para executar as medidas de emergência
resultara do fato de ele ser o comandante militar do Planalto. Colocando-o
nessa função, Figueiredo juntava gasolina e fogo. “Nini”, assim como ele e
Medeiros, chegara ao poder no SNI de Golbery. Ambos eram amigos e até
pouco tempo atrás o general chefiara a Agência Central do Serviço. Nela,
estivera no elenco dos dois episódios que desmoralizaram a “tigrada”: o
atentado do Riocentro e o assassinato de Baumgarten. Vendo-o de capacete,
montado num cavalo, Figueiredo dissera que era “o nosso Mussolini”. Sua
escolha foi criticada pelo general Gustavo de Moraes Rego, ex-chefe do
Gabinete Militar de Geisel, a quem visitava semanalmente.35 Estava na
reserva, mas tomou cinco dias de cadeia.36 Foi essa a mais longa detenção
provocada pelas medidas de emergência. Pouco depois, “Nini” meteu-se num
incidente com um repórter, agarrando-o pelo braço e obrigando-o a pedir
desculpas diante das câmeras por um comentário que considerou
inconveniente. Diante do episódio, o general José Maria de Toledo Camargo
(também da reserva), outro oficial que servira no palácio de Geisel, escreveu
um artigo condenando o “mau exemplo” dado por “um general irritado (…),
descontrolado”.37 Nada lhe aconteceu.
O PDS dera a Figueiredo uma delegação para que coordenasse a indicação
de seu sucessor. Não se pode dizer que lhe faltasse vontade, mas o general
fazia as coisas e seu contrário. Autorizou a candidatura de Andreazza, mas
não a autorizou: “Eu não mandei, ele me disse que ia se lançar, me
comunicou, e eu disse que era problema dele”.38 Falava em vetar Maluf, mas
dizia “não veto ninguém”.39 Aceitava prorrogar seu mandato diante de “uma
crise insuperável”, mas também não a aceitava.40 Tentou criar uma crise a
partir do discurso do deputado Juruna, mas recuou. Emenda das diretas? “Se
dependesse do meu voto, aprovaria.”41 No dia seguinte, explicou: “Jamais
passou pela minha cabeça fazer eleições diretas agora”.42 Disse que
coordenaria a escolha de um candidato e, comparando esse trabalho a uma
partida de futebol, prometeu jogar “até fazendo falta, se necessário”.43 Essa
partida deveria começar em 1984. No dia 29 de dezembro de 1983, Figueiredo
anunciou que devolvia ao partido do governo a tarefa de escolher o nome do
candidato.44
(...)
Figueiredo teve dois rumos. Não queria Maluf e acreditava que fosse
possível um acordo com a oposição para se chegar a um mandato-tampão,
com ele ou sem ele, ao fim do qual seriam realizadas eleições diretas, talvez
em 1991.46
Durante um jantar em Brasília, o professor João Leitão de Abreu ofereceu o
caminho de um grande entendimento. O PDS e o PMDB sairiam do cadeado
das diretas e iriam para o Colégio Eleitoral para escolher o novo presidente
negociando a duração desse mandato. Numa frase, ele deu a chave: “A
fidelidade partidária no tocante às eleições presidenciais será ineficaz. O voto
infiel vale”.47 Marchezan, habitual interlocutor de Leitão, seria mais claro:
“Se é possível ser infiel no PDS, também é possível ser infiel no PMDB. Afinal,
o mesmo risco que corre o martelo, corre a bigorna”.48 Nessa hipótese,
delegados do PMDB votariam num candidato do PDS. Talvez, desde que não
fosse Paulo Maluf, pois Leitão dizia que ele podia até vencer a convenção do
PDS, mas perderia no Colégio Eleitoral.49"
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016.
deu a esse expediente um toque ridículo. Um deputado dissera que “todos os
ministros são ladrões, os militares e o presidente também”.26 Na bem-sucedida
provocação de 1968, Marcio Moreira Alves era um deputado vindo de uma
prestigiosa carreira jornalística e saído da cepa dos Mello Franco. O deputado
Mario Juruna, eleito pelo Rio de Janeiro, com 31 mil votos folclóricos, era um
índio xavante que aprendera português aos dezessete anos.27 Figueiredo
resolveu pedir à Câmara a cassação de seu mandato. Queria que o governo o
acompanhasse: “Até agora só onze ministros entraram com o ofício contra o
Juruna. Eu quero todos! Quem não fizer, diz ao Leitão, pode entrar com o
pedido de demissão. Eu demito!”.28 “Estou ficando sozinho… Não tenho mais
amigos… Agora vê, o Pires não está dando importância a nada. Viajou para a
Venezuela.”29 (O episódio terminou com um pedido de desculpas do
deputado.)
Faltava-lhe também a solidariedade de Geisel. Desde o enfarte de 1981, o
responsável por sua unção dizia que Figueiredo devia renunciar, mas essa
opinião costumava ficar no seu fechado círculo familiar. A confidência, no
entanto, transbordou. Uma conversa do ex-presidente com o deputado Marco
Maciel chegou a Heitor Ferreira: “Seria muito bom, e é o que ele deveria fazer,
que ele renunciasse à Presidência”.30
A caminho do seu vigésimo aniversário, o regime perdera o rumo.
Fechando 1983 com uma taxa de inflação de 211%, dobrara a marca de 80% de
Jango em 1963, levara o país à bancarrota e estava sob um sistema de auditoria
imposto pela banca internacional. Um dos pontos centrais de seus
compromissos com o FMI era a aprovação de uma lei que comprimisse os
reajustes salariais. A primeira tentativa deu-se com o Decreto no 2.024. Foi
rejeitado pelo Congresso. Seguiu-se o 2.045. O ministro da Justiça escreveu a
Figueiredo, considerando “inevitável a sua rejeição” e propondo a sua
retirada.31 O general foi em frente. Para evitar manifestações populares em
Brasília, valeu-se pela primeira vez do mecanismo constitucional das medidas
de emergência, suspendendo o direito de reunião e dando à tropa liberdade
para realizar operações de busca e apreensão na capital. Os acessos à cidade
foram patrulhados e revistavam-se passageiros no aeroporto, até que uma
equipe de policiais invadiu a sede seccional da Ordem dos Advogados do Brasil.
Diante da grita, o general Newton Cruz, comandante das operações militares,
reconheceu: “Quebramos a cara”.32 O Decreto no 2.045 foi retirado e entrou
o 2.064. Também capotou, substituído pelo 2.065, finalmente aprovado.
Estava criada uma escala para os reajustes salariais. Quem ganhava até três
salários mínimos recebia 100% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor.
Daí em diante, sofria perdas progressivas. Acima de vinte salários mínimos,
levava só 50% do que perdera com a inflação.33 O sistema duraria apenas um
ano, substituído por uma lei que criou duas faixas para os reajustes: 100% do
INPC até três salários mínimos e 80% daí em diante.34
A escolha do general Cruz para executar as medidas de emergência
resultara do fato de ele ser o comandante militar do Planalto. Colocando-o
nessa função, Figueiredo juntava gasolina e fogo. “Nini”, assim como ele e
Medeiros, chegara ao poder no SNI de Golbery. Ambos eram amigos e até
pouco tempo atrás o general chefiara a Agência Central do Serviço. Nela,
estivera no elenco dos dois episódios que desmoralizaram a “tigrada”: o
atentado do Riocentro e o assassinato de Baumgarten. Vendo-o de capacete,
montado num cavalo, Figueiredo dissera que era “o nosso Mussolini”. Sua
escolha foi criticada pelo general Gustavo de Moraes Rego, ex-chefe do
Gabinete Militar de Geisel, a quem visitava semanalmente.35 Estava na
reserva, mas tomou cinco dias de cadeia.36 Foi essa a mais longa detenção
provocada pelas medidas de emergência. Pouco depois, “Nini” meteu-se num
incidente com um repórter, agarrando-o pelo braço e obrigando-o a pedir
desculpas diante das câmeras por um comentário que considerou
inconveniente. Diante do episódio, o general José Maria de Toledo Camargo
(também da reserva), outro oficial que servira no palácio de Geisel, escreveu
um artigo condenando o “mau exemplo” dado por “um general irritado (…),
descontrolado”.37 Nada lhe aconteceu.
O PDS dera a Figueiredo uma delegação para que coordenasse a indicação
de seu sucessor. Não se pode dizer que lhe faltasse vontade, mas o general
fazia as coisas e seu contrário. Autorizou a candidatura de Andreazza, mas
não a autorizou: “Eu não mandei, ele me disse que ia se lançar, me
comunicou, e eu disse que era problema dele”.38 Falava em vetar Maluf, mas
dizia “não veto ninguém”.39 Aceitava prorrogar seu mandato diante de “uma
crise insuperável”, mas também não a aceitava.40 Tentou criar uma crise a
partir do discurso do deputado Juruna, mas recuou. Emenda das diretas? “Se
dependesse do meu voto, aprovaria.”41 No dia seguinte, explicou: “Jamais
passou pela minha cabeça fazer eleições diretas agora”.42 Disse que
coordenaria a escolha de um candidato e, comparando esse trabalho a uma
partida de futebol, prometeu jogar “até fazendo falta, se necessário”.43 Essa
partida deveria começar em 1984. No dia 29 de dezembro de 1983, Figueiredo
anunciou que devolvia ao partido do governo a tarefa de escolher o nome do
candidato.44
(...)
Figueiredo teve dois rumos. Não queria Maluf e acreditava que fosse
possível um acordo com a oposição para se chegar a um mandato-tampão,
com ele ou sem ele, ao fim do qual seriam realizadas eleições diretas, talvez
em 1991.46
Durante um jantar em Brasília, o professor João Leitão de Abreu ofereceu o
caminho de um grande entendimento. O PDS e o PMDB sairiam do cadeado
das diretas e iriam para o Colégio Eleitoral para escolher o novo presidente
negociando a duração desse mandato. Numa frase, ele deu a chave: “A
fidelidade partidária no tocante às eleições presidenciais será ineficaz. O voto
infiel vale”.47 Marchezan, habitual interlocutor de Leitão, seria mais claro:
“Se é possível ser infiel no PDS, também é possível ser infiel no PMDB. Afinal,
o mesmo risco que corre o martelo, corre a bigorna”.48 Nessa hipótese,
delegados do PMDB votariam num candidato do PDS. Talvez, desde que não
fosse Paulo Maluf, pois Leitão dizia que ele podia até vencer a convenção do
PDS, mas perderia no Colégio Eleitoral.49"
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016.
Subscrever:
Mensagens (Atom)







