terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Conhecendo os Presidentes - Figueiredo





Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=5eUn5Gn2z6Y

Maulf

"Boa parte dos convencionais da Arena no interior do estado iria para qualquer lado, menos para Natel. Foram para Paulo Maluf, cuja candidatura não era levada a sério por Brasília. Aos 46 anos, industrial e milionário, fora presidente da Caixa Econômica e prefeito de São Paulo. Formara uma imagem de administrador dinâmico, tocador de obras. Estava espetado num escândalo de financiamento do BNDE à tecelagem do sogro e era detestado pelo presidente, por seu sucessor e pela velha plutocracia paulista. Figueiredo chegara a acreditar que ele sairia da disputa se recebesse um telefonema “incisivo” do ministro da Justiça, Armando Falcão.2" GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016.

Figueiredo

"Saindo da redoma do palácio, Figueiredo expusera um novo personagem, real. Na Presidência da República, Castello Branco, Médici e Geisel se pareceram com o que haviam sido desde os primeiros anos da carreira militar. De certa maneira, Costa e Silva também. Figueiredo surpreendia o país e até mesmo pessoas que o conheciam pela convivência palaciana. Desempenhava dois papéis, o do chefe político destinado a prosseguir uma abertura política que não formulara, mas na qual acreditava, e o do chefe militar formado no Planalto e no SNI durante o governo de dois presidentes amparados pela força do AI-5, que ia embora." GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016.

1980

"GEISEL, GOLBERY E FIGUEIREDO FEVEREIRO De Teresópolis, Geisel remete a Heitor Ferreira um documento que lhe foi enviado, com a observação: “Não sabem ainda que o Figueiredo é o presidente”. Diante do boato de que o senador Paulo Brossard poderia ser nomeado para o STF, Golbery responde: “Eu, hein? Mas não seria tão ruim assim…”. ABRIL Golbery, o general Octavio Medeiros e Heitor Ferreira acertam um plano para blindar Figueiredo e suas explosões emocionais. O general Milton Tavares de Souza, comandante do II Exército, suspeita que Golbery e Lula tenham canais secretos de comunicação. MAIO Guilherme Figueiredo briga com seu irmão. Ele insinua que o general Octavio Medeiros, chefe do SNI, é candidato a presidente. Golbery e Octavio Medeiros distanciam-se. JUNHO Geisel deixa seu retiro de Teresópolis e aceita a presidência da Norquisa, um conglomerado de empresas do setor petroquímico do Polo de Camaçari (BA). JULHO Golbery faz uma palestra na Escola Superior de Guerra e expõe a estratégia da abertura, com pares de ações, ora contra a esquerda, ora contra a direita. Chega a Golbery uma carta de um policial endereçada a Figueiredo identificando o automóvel do qual saiu a pessoa que botou uma bomba numa banca de jornal de Campinho, no Rio. O automóvel pertencia ao DOI do I Exército. A denúncia foi para o arquivo. OUTUBRO Figueiredo vai ao Chile. Entre os assessores de Pinochet está o coronel Sergio Arredondo, que foi adido em Brasília e em 1973 participou da “Caravana da Morte”, assassinando presos políticos. Ambos tornaram-se amigos durante cavalgadas em Brasília. DEZEMBRO A revista O Cruzeiro, dirigida por Alexandre von Baumgarten, traz um artigo acusando Golbery de ter desmontado a máquina partidária do governo. O general, que sabia das ligações de Baumgarten com o SNI, anota: “Muy amigo…”. Comentando a operação de pontes de safena do ministro do Exército, general Walter Pires, Figueiredo diz: “Eu mesmo também estou todo entupido”. POLÍTICA No ano, explodem pelo menos 24 bombas em diversas cidades. Bancas de jornal continuam sendo atacadas. JANEIRO Em sua primeira Apreciação Semanal, o SNI diz que o ano começa com uma “expectativa pessimista”. O governo anuncia que concluiu um acordo nuclear com o Iraque. Morre Petrônio Portella. FEVEREIRO Fundado o Partido dos Trabalhadores. MARÇO Militares argentinos sequestram no Rio Horacio Campiglia e Mónica Susana Pinus de Binstock. Têm a ajuda de oficiais do CIE. O SNI faz uma Apreciação Semanal listando 63 problemas, quase todos insolúveis, e um assessor de Figueiredo comenta: “Esses caras estão com bosta na cabeça?”. ABRIL O chefe da seção de operações do DOI do Rio recebe uma proposta de atentado contra o show programado para o Riocentro no dia 1o de maio. Recusa-a. Diante das dificuldades econômicas, Tancredo Neves propõe a formação de um “governo de união nacional”. A proposta é repelida. Greve no ABC. O governo intervém no Sindicato dos Metalúrgicos e prende Lula. JUNHO O papa João Paulo II visita o Brasil. Desaparecem em Uruguaiana (RS) os montoneros argentinos Lorenzo Viñas e Jorge Adur. JULHO Um grupo de intelectuais reúne-se em São Bernardo com Lula. Formam-se duas correntes. Uma, liderada por Fernando Henrique Cardoso, quer ficar no PMDB. A de Lula segue com o PT. AGOSTO Uma carta-bomba mata Lyda Monteiro da Silva, secretária do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil. É o primeiro caso de atentado letal do surto terrorista de direita. Outra bomba mutila um funcionário da Câmara Municipal do Rio. Figueiredo discursa pedindo que joguem as bombas contra ele e promete investigar. Ao perceber que seria preso, um casal de jovens argentinos toma cianureto e morre numa barca que ia de Porto Meira para Puerto Iguazú." GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016.

A Travessia

A chegada de Figueiredo

"A candidatura do general Figueiredo foi para a rua na primeira semana de julho de 1977. Na saída de uma missa de sétimo dia, o chefe do SNI falou com os jornalistas. Perguntaram-lhe se era candidato a presidente da República. Respondeu que a questão dependia de três requisitos: “O primeiro é o presidente Geisel querer. O segundo é eu querer”. O terceiro: “Desde que haja um movimento entre militares e políticos”. No dia seguinte, a resposta estava na manchete do Jornal de Brasília: “Figueiredo admite candidatura se Geisel e políticos apoiarem”.1 (...) Figueiredo, o Figa, cavalgava um tipo, não uma personalidade. Castello Branco fizera o gênero do oficial de estado-maior francês. O chefe do SNI encarnava o Cavalariano estourado, vulgar, enfeitado por um senso de humor autoderrogatório. Ao escolher um codinome, intitulara-se “Bagual”, sinônimo gaúcho de “chucro”.9 Geisel apreciavalhe a capacidade de “dar botinadas”. Suas histórias eram preciosas, baseadas sempre na memória de incidentes com personagens já mortos, sem testemunhas vivas. Contava que, como aspirante, desafiara Getulio Vargas. Por primeiro aluno, recebera o espadim das mãos do ditador, que lhe desejara uma carreira brilhante, tal qual a do pai. “Obrigado, presidente. O único perigo é que eu termine preso, como meu pai.”10 Ainda era tenente, dizia, quando mandara o major Castello Branco “à merda”.11 Coronel, dissera a João Goulart que seu governo seria derrubado.12 Era um interlocutor direto. O general queixava-se do próprio temperamento: “Eu tenho um gênio [...] eu sou um sujeito impulsivo que de vez em quando faço besteiras e depois me arrependo e sou meio violento”.13 Ao contrário das personalidades de Medici e Geisel, que passaram inalteradas pelo poder, a de Figueiredo fora reciclada, nem tanto por sua iniciativa, mas com sua concordância. Oito das dezenove fotografias em que aparecera nas revistas Veja e IstoÉ o mostravam na companhia de cavalos. O cavaleiro atlético escondia um cardiopata teimoso. Agravava os padecimentos da coluna ao persistir no exercício do hipismo. O general severo também era uma construção. Uma exfuncionária do SNI, Edine Souza Correia, viria a acusá-lo de tê-la seduzido nas cavalariças do Torto, em 1971. Ela era menor de idade. Quatro anos depois, foi nomeada auxiliar de censura na Polícia Federal e, em 1976, acabara de ser transferida para o SNI. (Essa relação foi escandalosamente divulgada em 1988 pela senhora. Ela pedia dinheiro a Figueiredo, acusando-o — falsamente — de ser o pai de seu filho. Dois telefonemas gravados, uma ordem de pagamento e um bilhete manuscrito do general permitem afirmar que quando ela estava com dezessete anos ele já a conhecia e que lhe mandou um cartão de boasfestas dizendo: “Meu jardim tem muitas folhas caídas, mas tem uma flor...”. Num telefonema disse-lhe que “te amei”. Em juízo, sempre negando que tivesse intimidade com a senhora, reconheceu que ela freqüentava a granja do Torto.)14 O militar profissional, com estampa e mitologia de troupier, estava no Exército havia mais de quarenta anos, mas passara apenas cinco fora do circuito de uma ajudância-de-ordens, dos cursos e das mesas. Somara mais tempo nos serviços de informação do que em comando de tropa. Não fora à guerra. Mantivera-se ao largo do radicalismo verbal dos oficiais indisciplinados. Como chefe do Gabinete Militar de Medici, estivera na montagem da máquina que entregara ao Exército o comando das operações de polícia política.15 Segundo um oficial do DOI do Rio de Janeiro, em pelo menos uma ocasião vira um preso ser torturado.16 Quando o Ministério Público paulista encurralou o delegado Sérgio Fleury, ele se preocupou: “Se esse camarada falar, é um perigo para uma porção de gente”.17 Havia sido um precoce, leal e ativo defensor da escolha de Geisel para a Presidência. Tinha com ele uma relação disciplinada e respeitosa. Chamava-o de “senhor”. Nos meses que antecederam a formação do governo, fora um operador qualificado, abastecendo o presidente da Petrobrás com fatos, opiniões e conselhos. Geisel pusera-o na chefia do SNI acreditando que fosse capaz de conter as intrigas contra Medici e de regenerar o Serviço. Dissera-lhe: “Você sabe que o SNI, como está, é melhor fechar [...]. Ou nós consertamos o SNI [...] ou então vamos acabar com esse troço, porque como está, não vai. Não processa coisa nenhuma, só veicula boato”.18 Pouco mudara o Serviço. Pelo contrário. Manteve-o como caudatário dos sentimentos, temores e inquietações do porão.(...) Geisel ungiu Figueiredo porque supunha estar fazendo o certo, mas também porque cedeu ao impulso dos governantes que desejam ser sucedidos por um amigo a quem possam influenciar. Nesse sentido, faltou-lhe a simplicidade de Medici, capaz de escolhê-lo sem que tivessem relações pessoais e sem sequer trocarem opiniões a respeito do futuro do país." GASPARI, Elio. A ditadura encurralada. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Nas ruas

"Depois do “Pacote de Abril”, o ronco dos estudantes fez-se ouvir novamente. Pediam a libertação dos presos políticos, o restabelecimento das liberdades democráticas, e distribuíam uma carta aberta à população: “Hoje, consente quem cala”. Na primeira semana de maio a Universidade de São Paulo iniciou uma greve que tirou 60 mil jovens das salas de aula, levando 10 mil às ruas, onde se viram aplaudidos pela população. Quando começou a chuva de papel picado, os jovens se abraçavam. Alguns choravam.1 A movimentação irradiou-se, com graus variáveis de mobilização, pelo Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Salvador e Porto Alegre. Um silêncio mostrava que aquela garotada era mais esperta do que se pensava e estava mais organizada do que se supunha, ninguém gritava “Abaixo a ditadura”. De maneira geral, a imprensa respeitava um código de cumplicidade: não se fotografavam rostos e não se identificavam líderes.2 Os estudantes marchavam ao largo da oposição legal. Sempre superestimando a influência dos comunistas, o SNI apontava a existência de “uma dissenção3 entre ativistas do PCB e da linha trotskista”. Dizia que o Partidão recomendava moderação e informava que ele tinha “o apoio da maioria”.4 Em São Paulo, uma das molas dessas manifestações chamava-se Liberdade e Luta, quintessência do trotskismo. Apelidada Libelu, batizou a chapa com que os militantes da clandestina Organização Socialista Internacionalista disputaram (e perderam) a primeira eleição do DCE-Livre da USP. Não eram majoritários nem hegemônicos, eram simbólicos. Nas suas festas havia pessoas bonitas, maconha e Rolling Stones. A Libelu tinha oitocentos militantes em todo o país, mais da metade na Universidade de São Paulo, cinqüenta no Rio Grande do Sul e uma ninharia no Rio de Janeiro e em Salvador. Mal haviam sido percebidos como grupo organizado em 1975, quando tentaram sair em passeata para o culto em memória de Vladimir Herzog. Acusavam o MDB de “complementar a repressão direta”, na busca da “continuidade da política da burguesia, num momento em que a repressão pura e simples não consegue mais sufocar as contradições sociais”.5 As passeatas juntavam dois tipos de estudantes. Na primeira categoria estavam as lideranças das organizações surgidas nas universidades e algumas centenas de seguidores. Na USP predominava o grupo Refazendo. Na Federal da Bahia, o PC do B. Na Universidade de Brasília, ninguém. Só no Rio de Janeiro se percebia a influência do Partido Comunista. Os militantes aparelhados eram severos, hostis à maconha, apenas tolerantes com a liberação sexual. Na segunda categoria estava a multidão. Eram jovens que tinham incorporado aos seus costumes algumas das bandeiras de 1968. Em menos de uma década as mulheres haviam tomado um pedaço da política e do mercado de trabalho. Todos compartilhavam com os trotskistas o refinamento cultural e o horror à ditadura e ao Partidão, nessa ordem. Nas assembléias estava a vanguarda de uma parte da mocidade, unida no seu desprezo pelos hábitos conservadores e pelas alianças táticas da esquerda tradicional. Ana Cristina Cesar escreveu a uma amiga: “Você sabe que o país está começando a se sacudir, há manifestações pelo menos estudantis nas capitais, apoio escrito de professores, MDB, mães de presos... [...] Mal ou bem estou lá, me cagando de medo”.6 (...) O aparecimento dos estudantes nas ruas adicionara um ingrediente inesperado ao jogo político. Com eles, 1977 poderia lembrar 1968. Salvo em São Paulo, a agitação universitária circunscrevera-se, deliberadamente, às escolas. Em termos de organização, ela se movia com dois objetivos. Num, marcava datas para o que denominava Dia Nacional de Luta. No outro, pretendia organizar, em Belo Horizonte, o que seria um Encontro Nacional dos Estudantes, disfarce para um relançamento da UNE. Era coisa coordenada, mas desligada da oposição partidária. Em menos de um mês as manifestações, em diversas cidades, mobilizaram 50 mil jovens.26 Havia-se restabelecido a mística do movimento estudantil. Desde o final do século XVIII, os universitários brasileiros sempre foram a vanguarda da elite. Assim sucedeu na derrubada do Estado Novo e na crise de 1961. Dividiram-se em 1964, viram-se derrotados em 68, mas nunca estiveram numa posição em que associassem sua militância ao atraso imposto ao país pela elite que reabasteciam a cada geração. Em São Paulo, ao som da “Marcha fúnebre” de Chopin e carregando velas roxas, um grupo de estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco enterrara a Constituição, pedindo a volta ao estado de direito.27 Era um sinal. De 1967 a 1974 o Ministério da Justiça dos generais Costa e Silva e Medici fora ocupado por dois ex-diretores da escola, os professores Luiz Antonio da Gama e Silva (redator do AI-5) e Alfredo Buzaid. O regime enfrentou a crise das universidades com cautela. Beneficiou-se da presença de Paulo Egydio Martins, ex-líder estudantil, no governo de São Paulo, e da de Ney Braga, um hábil político paranaense, protegido pela remota condição de coronel da reserva, no Ministério da Educação. Tendo-se agüentado até o final de maio sem maiores conflitos, faltava só um mês para que a maré refluísse, desmobilizada pelas férias escolares de julho. Foi quando alguém teve a idéia de sabotar a reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, marcada para a segunda semana de julho, em Fortaleza. Com 12 500 sócios, a SBPC fazia do seu congresso anual uma festa da cultura, demonstração da vitalidade acadêmica do país. No ano anterior, juntara 7500 participantes em Brasília. O SNI contabilizara que, entre 33 moções aprovadas pela comunidade universitária, onze tinham “caráter nitidamente político e contestatório”. Uma delas falava em anistia.28 Golbery supunha que o governo podia se livrar do embaraço negando verbas e retirando o amparo logístico que sempre dava aos encontros da Sociedade.29 Quase conseguiu. Sem o apoio dos governos estaduais e tendo perdido três dos quatro patrocinadores oficiais, o físico Oscar Sala, presidente da SBPC, tentou tirar o evento da jurisdição federal. A Universidade de São Paulo pareceu-lhe boa escolha, mas o reitor, Orlando Marques de Paiva, não quis receber os professores. A reunião foi cancelada.(...) O movimento estudantil e a ditadura precisavam de um duelo. A tolerância das reitorias inibira a ação da polícia, contendo a agitação nos limites da universidade. A militância paulista conseguiu uma bandeira mobilizadora no dia 1º de maio, a prisão de oito integrantes da Liga Operária.33 Daí em diante, seguiu o manual dos agitprop. Começase pedindo a libertação dos que acabaram de ser presos, passa-se a pedir a soltura de todos os outros. A cada concessão, uma nova reivindicação. Os estudantes tiveram a simpatia de boa parte da sociedade. Dez mil manifestantes marcharam pelo viaduto do Chá. Andaram apenas quinhentos metros e viram-se obrigados a recuar, bloqueados por um forte aparato policial. No caminho, foram saudados pelo povo das calçadas e do alto dos edifícios de escritórios. Como em 1968. O duelo aconteceu em Brasília. Lá, os estudantes acharam no reitor José Carlos Azevedo o dragão de que necessitavam. Oficial da reserva da Marinha, doutor pelo Massachusetts Institute of Technology, o Capitão era um administrador competente e um quadro dos bastidores do regime. Dava-se mal com Ney Braga e, numa eventual restauração, parecia aposta segura para o seu lugar. Os estudantes da UnB e Azevedo encrencaram em dois pontos. Queriam rever a política de jubilamento dos maus alunos (em oito anos haviam sido desligados 1753 jovens) e rediscutir as taxas administrativas cobradas pela universidade, cujos cursos eram gratuitos. Quando a agitação começou, 450 dos 5 mil alunos exigiram a realização de um plebiscito para decidir a respeito da propriedade dessas práticas.34 Era coisa pequena. Azevedo respondeu informando que puniria dezenove alunos envolvidos numa manifestação ocorrida no campus em meados de maio. Nenhum outro reitor tomara esse caminho. Dois mil estudantes reuniram-se em assembléia e decretaram greve. Como em 1968, cantou-se “Caminhando”.35 No sábado em que Geisel jogou o telefone em Heitor Ferreira o governo tinha de um lado a radicalização da UnB e, de outro, a possível realização, em Belo Horizonte, do Encontro Nacional dos Estudantes. O problema de Minas Gerais foi resolvido com 348 detenções e com o bloqueio das estradas que levavam à cidade. O de Brasília foi agravado com a invasão da universidade por uma tropa de 2 mil PMs. A essa altura haviam sido detidos cerca de oitocentos estudantes, e paralisadas as atividades de três das maiores universidades públicas do país (UnB, UFRJ e USP), além das duas grandes escolas católicas (as PUCS do Rio e de São Paulo). Em todas as cidades, o governo persistia na sua política de repressão acautelada, evitando que as lideranças estudantis buscassem em ações repressivas a energia capaz de realimentar as manifestações. Duas passeatas organizadas em São Paulo, bem como o reaparecimento da garotada na avenida Rio Branco, nove anos depois das jornadas de 1968, haviam sido contidas sem providências que estimulassem a radicalização. Essa regra só não valia em Brasília, onde os estudantes se mantinham dentro dos limites da escola. Lá, os universitários e o reitor estimulavam a tensão. Uns estendendo a greve. O outro, perseverando e ampliando as punições disciplinares." GASPARI, Elio. A ditadura encurralada. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Ulysses e Tancredo

"Petrônio, que vinha conversando em segredo com Thales Ramalho, recebera a garantia de que o caminho seria desobstruído. Thales tinha a palavra dos moderados do MDB. A bancada do partido no Senado já se definira pela abertura da questão. A da Câmara votara contra, mas trinta deputados haviam-se manifestado publicamente pelo acordo.16 A decisão seria sacramentada na manhã de 25 de março, numa reunião do Diretório Nacional. Na noite anterior, um pedaço da cúpula do MDB encontrara-se no apartamento que Ulysses dividia com um colega.17 Tancredo Neves sustentara a conveniência de se permitir a reforma. Ele era um oráculo da ala moderada do partido, mas nesse caso seu raciocínio frio mostrava a sensibilidade do ex-ministro de Getulio Vargas e do expresidente do Conselho dos Ministros na experiência parlamentarista do início dos anos 60. Tancredo não via motivo para se ir a um choque por conta de um tema (os “predicamentos da magistratura”) incompreensível para a opinião pública. Ademais, não fazia sentido lutar por um Judiciário que sempre decidira em favor do regime. Queria transferir o combate para outro campo, noutra ocasião. Era inevitável que o governo propusesse a emenda constitucional cancelando as eleições diretas para os governos estaduais. O líder da ala moderada acreditava que essa seria a hora e o lugar certos para brigar. Às cinco da manhã, quando a conversa terminou, Ulysses apoiara a tática. Combinaram até a coreografia da reunião do Diretório, que começaria quatro horas depois. Caberia a Tancredo o encaminhamento de proposta de liberação da bancada. Em seguida, falaria o senador Franco Montoro, endossando-a. O ex-primeiro-ministro fez um bonito discurso. Analisou o projeto valendo-se de um dos recursos de retórica que mais apreciava, agressivo na condenação do acessório, suave na defesa do essencial. Criticou a emenda e concluiu propondo que o partido votasse livremente. Repetiu o argumento da madrugada: “O confronto, se um dia tivermos que travá-lo, há de ser num instante em que tenhamos ao nosso lado a opinião pública, a imprensa e a consciência democrática da Nação. [...] Ainda não chegou a hora de nos lançarmos ao teste do confronto”.18 No plenário, o senador Paulo Brossard estava disposto a ficar calado. Quando Tancredo terminou, diversos colegas pediram-lhe que falasse. Presidindo a sessão, Ulysses saiu do trato. Em vez de chamar Montoro, chamou Brossard. O senador gaúcho desarticulou a construção dos moderados. Citou as críticas que Tancredo fizera ao projeto, elogiou sua biografia e argumentou que, tendo dito o que dissera e sendo quem era, não podia propor que a questão ficasse aberta. Quanto ao confronto, argumentou que o projeto do governo era parte de algo maior, destinado a emparedar a oposição: “Se uma alcatéia falasse, não teria outra linguagem”.19 Brossard ainda não terminara quando Tancredo percebeu que fora logrado. Levantou-se de sua cadeira, na primeira fila do plenário, e acercou-se de Thales Ramalho: “Vamos votar pelo fechamento da questão, senão vamos sair daqui apedrejados”.20 Por unanimidade, o Diretório fechou a questão. Desfeita a reunião, Ulysses procurou Thales. Tinham combinado almoçar em sua casa, com Tancredo. Ouviu o seguinte: “Na minha casa não tem mais almoço”. Thales e Tancredo comeram a sós, num pequeno restaurante. A partir desse dia as relações de Tancredo Neves com Ulysses Guimarães jamais foram as mesmas. Tão elegantes quanto dissimulados, eles conviveram por mais onze anos sem atritos públicos e sem nenhuma confiança. Distanciaram-se porque seus projetos já não dispunham do nível de fraternidade que a fraqueza política soldara. O futuro de Tancredo dependia de uma saída negociada da ditadura. O de Ulysses, do colapso.21 Tancredo precisava de Ulysses para que suas manobras não fossem apedrejadas. Ulysses precisava de Tancredo para evitar que o radicalismo dos quartéis voltasse a mutilar a oposição. Na sessão do Diretório, ambos perceberam que os projetos se neutralizavam. Naquela manhã, Ulysses neutralizou Tancredo."
"Ulysses era muito refinado, mas, de vez em quando, dava umas derrapadas. Nessas horas, eu o advertia sempre com a frase que ouvi da Lygia Fagundes Telles na televisão: "Tenho horror à vulgaridade!" E ele se continha. Enfim, casada, mudei com meus dois filhos de um pequeno apartamento do Leme para um suntuoso apartamento no 9 andar do número 2.364, hoje edifício Parnaíba, na Avenida Atlântica, em Copacabana. No edifício moravam também o presidente do Senado, Nereu Ramos, no 8, e o senador Auro Moura Andrade, no 2. Nereu tinha acabado de deixar a Presidência da República, completando o mandato de Vargas. Dois anos depois, morreu num acidente da Cruzeiro do Sul. Ulysses e eu ficamos muito chocados com a sua morte. E o Moura Andrade, vocês o conhecem de voz. É a voz mais conhecida da História. Como presidente do Senado, em 61, após a leitura da carta-renúncia de Jango, celebrizou: "Declaro vaga a cadeira de presidente da República." Lembraram-se agora do vozeirão? Por conta disso, Moura Andrade ganhou o apelido de "uma voz à procura de uma ideia". Mas ele, contava Ulysses, teve participação decisiva, logo em seguida, naquele parlamentarismo de araque que garantiu João Goulart na Presidência da República. Imaginem, eu, uma pacata viúva paulista, dando uma guinada daquelas e passando a conviver com toda aquela gente importante, naquele edifício badalado, que tinha uma enorme faixa privativa para aqueles Cadillacs importados? Mudei radicalmente de vida. Mas o Auro Moura Andrade, realmente, teve um papel tão grande na mudança de regime que até quiseram fazer dele o primeiro-ministro, desde que deixasse nas mãos de Goulart uma carta-renúncia assinada. Ele não topou, claro, e quem acabou sendo escolhido foi o homem a quem Ulysses chamava pelo nome completo, todas as vezes em que aprontava alguma coisa: "Doutor Tancredo de Almeida Neves". Até a Geralda, minha cozinheira da vida toda, quando se aborrecia por qualquer coisa, murmurava pelos cantos: "Doutor Tancredo de Almeida Neves". Tancredo Neves morreu achando que Ulysses o traiu em três grandes momentos da sua vida. Os outros, conto depois. Fiquemos só no primeiro, por enquanto. O PSD, a quem cabia a indicação do primeiro-ministro, apresentou três candidatos, e Tancredo, mesmo tendo sido o escolhido, acusou Ulysses de não ter votado nele. Depois, no seu curto governo, criou um ministério - o da Indústria e Comércio - só para acomodar Ulysses. Políticos, vá entendê-los! É por isso que Ulysses sempre ensinava aos novos: - Nunca traga suas desavenças para casa. O sujeito a quem você xinga de mau-caráter, na mesa de almoço da família, poderá ser elogiado por você no jantar do mesmo dia. E quem, para a sua família, acaba sendo o mau-caráter é você. Politicamente falando, Tancredo Neves foi o homem da vida de Ulysses. Foi o seu maior contraponto, ao mesmo tempo em que foi seu grande amigo também. Meu marido costumava falar que mulher de político é "viúva de marido vivo". Eu replicava brincando que, desde que Tancredo entrou nas nossas vidas, passei a ser apenas "amante do deputado Ulysses Guimarães", e a esposa, um certo doutor Tancredo de Almeida Neves. Ulysses respirava Tancredo, acordava Tancredo, dormia Tancredo. PUBLICIDADE Quando Tancredo morreu, muito de Ulysses foi com ele. Foi nítida a transformação de meu marido. Ulysses passou a ter depressão, uma doença que mais tarde o levou a afastar-se da política. Ele perdera a sua principal referência na política. Ulysses, na sessão de homenagem ao presidente morto sem tomar posse, fez, em discurso, a mais bela declaração de amor que já vi um político fazer a outro: - Eu admirava Tancredo. Eu amava Tancredo. Eu temia Tancredo. Até hoje, fico arrepiada ao lembrar-me disso. Claro que cobrei dele, em brincadeira: - Será que, quando eu morrer, vou merecer uma declaração de amor dessas? Ulysses, a quem Jânio Quadros chamava de "O prosador das Arcadas", por ter editado um livro de poesias dos estudantes do Largo São Francisco, respondeu-me: - Você merecerá a maior homenagem que um homem pode prestar à amada: morrer com ela. Mas não é de Tancredo que quero falar hoje. Com o golpe de 64, os partidos foram extintos, e surgiram o MDB e a Arena. Vice-presidente do partido de oposição, Ulysses assume o comando do MDB em 71, com a renúncia do general Oscar Passos. Institucionalmente, passa a conviver com o presidente da Arena, Filinto Müller, seu ex-colega de PSD e ex-chefe da Polícia de Vargas. Ulysses nunca se deu bem com os presidentes que se sucederam nos comandos dos partidos da ditadura, a não ser com Filinto. Petrônio Portela? Ulysses debochava da sua empáfia. E, também, não será aqui nos nossos encontros que deixarei de ser sincera: os paulistas sempre tiveram preconceitos contra os nordestinos. E Petrônio Portela, a estrela civil da ditadura, era do Piauí. Muito do que Sarney passou, por exemplo, deve-se a esse preconceito paulista. Não estou querendo justificar os erros do governo dele. Mas não foi fácil para o Sarney enfrentar a paulistada. Voltando a Filinto Müller, meu marido acabou se tornando confidente dele. Ulysses chegava a casa, em São Paulo, contando as histórias que ouvia de Filinto. Chamavam-lhe muito a atenção os braços enormes daquele homem de quase dois metros de altura. Ulysses considerava Filinto exageradamente paranoico. Ele tinha medo, pavor, de morrer assassinado em emboscada ou sabotagem. Em Cuiabá, sua terra Natal, sentia-se mais seguro hospedado no Hotel Centro-América, no centro da cidade, do que na casa da família. Em Brasília, protegia-se exageradamente. Uns dois meses, ou menos que isso, da morte de Filinto, Ulysses chegando a casa: - Mora, paranoia pega? Eu, que sou líder da oposição ao Médici, nunca tive a paranoia do Filinto. Mas, hoje, o avião balançou tanto que, pela primeira vez, pensei bobagem. - Você acha que, para se livrarem de você, os militares matariam um avião cheio de inocentes? Só em filme! - Ou na cabeça do Filinto - completou meu marido, concordando que estava ficando sugestionado com as histórias do senador. Dias antes do acidente de Orly, que matou Filinto e mais 121 pessoas, entre as quais sua mulher, Consuelo, e o neto Pedro, foi a minha vez de ter um sonho esquisito. Acordei Ulysses: PUBLICIDADE - Tive um sonho esquisito. Você fazendo um curto discurso numa solenidade oficial. E, ao seu lado, Petrônio Portela, não Filinto. Ulysses nem deu bola. O impacto daquele acidente, no qual morreram outras pessoas famosas, foi tão grande que não percebi o meu sonho transformando-se em realidade: Ulysses, no Salão Negro do Congresso, fazendo um discurso curto e formal ao lado do corpo do presidente do Senado, Filinto Müller. Só vim a me lembrar desse sonho 12 anos depois, na última aprontação do doutor Tancredo de Almeida Neves, depois do esforço enorme do país para elegê-lo presidente da República, quando, já anoitecendo, Ulysses despediu-se dele ao pé do seu túmulo." Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/brasil/ulysses-respirava-tancredo-3101442#ixzz4XLJYaXvb © 1996 - 2017. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.

O papel de Ulysses

"Desde novembro de 1974, quando faltara à Arena a maioria de dois terços no Congresso, condição necessária para a aprovação de quaisquer emendas constitucionais, a ditadura perdera a capacidade de produzir um projeto autônomo de reforma política. Mais que isso: pusera em risco a permanência no poder do arco de interesses que capturara o governo em 1964. Geisel reconhecera, cinco meses depois do desastroso resultado eleitoral, que “um projeto nosso de reforma custaria muito, pois o MDB, para concordar, teria forte poder de barganha”.1 Em janeiro de 1975, referindo-se ao impacto que uma derrota na eleição parlamentar de 78 teria sobre a de seu sucessor, foi claro: “Se essa hipótese de perdermos se verificar, eu não vou contra a vontade do povo”. Golbery rebateu: “O Colégio Eleitoral vai eleger quem o presidente determinar”.2 Durante dois anos, Geisel contemplou o enigma. Chegou a sondar a hipótese da dissolução dos partidos.3 Parecera uma fórmula milagrosa. Bastaria usar o Ato Institucional, permitir a criação de uma ou duas siglas, melar a composição do Congresso e começar tudo de novo. O presidente abandonou-a e explicou a Heitor Ferreira: “Ah, meu caro, se eu tiver que fazer isso, vou fazer muito mais coisas nesse Ato que extinguir os partidos”.4 Para sobreviver, o regime precisava do “muito mais”. Respeitando as regras que ele próprio estabelecera, a hegemonia da Arena tinha data marcada para acabar: no dia 15 de novembro de 1978 seriam realizadas eleições diretas para a escolha dos governadores e para a renovação de dois terços do Senado, de toda a Câmara dos Deputados e de todas as assembléias legislativas. Num cálculo conservador, a oposição era favorita no Rio Grande do Sul, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Em maio de 1975, Geisel achara possível conviver com três dos maiores estados do país sob administração do MDB. Conhecendo o grau de dependência que o governo federal impunha aos governadores, considerava-se “o papaizinho deles”.5 A eventual docilidade dos governadores oposicionistas era apenas um lado da questão. O outro, a natureza do mandato de todos eles, inclusive os da Arena, era bem mais complexo. Em fevereiro de 1977, lidando com esse lado do problema, Geisel já percebera a armadilha em que o governo caíra e vislumbrava uma saída: “Vão terminar o MDB me obrigando a ir para um Ato. [...] Não abro mão da indireta. 22 governadores eleitos pelo povo, o único poder do presidente indireto será o dinheiro”.6 Havia ainda o problema do Senado. Figueiredo explicara-o: “Para um total de 66 senadores, o MDB já tem garantidos vinte [...]; para que tenha a maioria (34) bastará que eleja 14 novos senadores dos 44 a serem eleitos nos 22 estados, o que me parece fácil, já que será comum a eleição, em alguns estados, de um senador de cada partido”.7 Uma ditadura em que a oposição tivesse a maioria no Senado e governasse os estados onde se concentravam quase dois terços do Produto Interno Bruto seria uma contradição em termos. O general começou a cuidar do “muito mais” no final de fevereiro. No dia 23, Heitor Ferreira anotou: “Geisel conversa com Golbery no Alvorada: ‘reformas, sucessão, Figueiredo’”.8 Quando Petrônio Portella anunciou que pretendia discutir com a oposição o projeto de reforma do Judiciário, buscava uma maneira de avançar mudanças que desmontassem as armadilhas em que a ditadura estava presa, preservando-a. Tentava um compromisso que, de saída, liquidasse a eleição direta dos governadores. Não enunciava o desejo, nem trazia propostas, apenas metáforas. Mestre das hipérboles, o senador chamou Ulysses Guimarães para uma conversa fiada no fundo do plenário da Câmara e contou-lhe que se lembrara dele havia pouco tempo, quando Golbery lhe expusera sua teoria das “sístoles e diástoles”. Era uma das construções preferidas do general. Mapeava a história do Brasil como uma sucessão de períodos em que se alternaram regimes centralizadores e regimes descentralizadores. Coisa simples: o poder nacional contraíra-se no Império, irradiara-se na República Velha, voltara a se contrair no Estado Novo e a irradiar-se na redemocratização de 1945. Em 1977, vivia-se o ocaso da sístole iniciada em 64, prenunciando-se a diástole da redemocratização.9 Num de seus melhores momentos, narrado a Luiz Gutemberg, Ulysses manteve o nível metafórico da conversa e lembrou a Petrônio que, além de ser um termo da biologia, “sístole” é também uma expressão da gramática. Denomina o deslocamento do acento tônico de um vocábulo para a sílaba anterior. Depois de uma sístole, Dario vira Dário. “[Sístoles e diástoles] ajustavam o ritmo dos versos, mas não alteravam o significado das palavras”, explicou.10 O presidente do MDB não queria negociar. Petrônio procurou-o formalmente no dia 9 de março. Conversaram por quase duas horas. No dia seguinte, Ulysses reuniu o Diretório Nacional, contou que lhe fora oferecido o sacrifício das eleições diretas dos governadores e o início de entendimentos que pudessem levar a uma reforma política. Pediu aos quinze pares que opinassem. Resultou o óbvio: o sacrifício foi repudiado por 15 x 0.11 Ele repetira, com rapidez e método, o golpe que aplicara ao encontro secreto que tivera com Golbery, em 1975. De novo, transferia ao governo o risco de uma crise que estava nele, e não no MDB. Era Geisel quem não conseguia aceitar o MDB com maioria no Senado, governando o Rio, São Paulo ou o Rio Grande do Sul. Como em 1975, Ulysses contrariava a opinião do secretário-geral do partido. Principal defensor da conciliação, Thales achava necessário conjurar o confronto. Separava-os uma diferença de propósitos derivada de uma compreensão diversa do presente e diversa, sobretudo, da visão do futuro. Refletiam a própria crise interna do MDB. Thales queria negociar o fim da ditadura. Ulysses queria o passo seguinte: o poder. Uma vitória em 1978, com a eleição de governadores do MDB nos principais estados, poderia tirar das mãos do regime o controle da sucessão presidencial. Nas palavras de Carlos Castello Branco, o mais respeitado colunista político do período, mesmo que o governo não fosse para o MDB, poderia acontecer o seguinte: “Como a disputa entre os militares é muito intensa, e o general Figueiredo que é o mais forte está sendo contido pelo Alto-Comando e dificilmente chegará a general de quatro estrelas (o grau hierárquico pra se chegar a presidente), a coisa pode embaralhar e saírem para a solução civil”.12" GASPARI, Elio. A ditadura encurralada. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

FHC e Lula - o surgimento das caras da nova democracia

"Terminava a época das alianças automáticas. Pensava-se que se poderia fundar um partido de esquerda juntando veteranos de 1964, mas o professor Antonio Candido de Mello e Souza surpreendeu-se ao ver que seu amigo Fernando Henrique Cardoso, fugaz militante do PCB nos anos 50, mostrava-se “bastante crítico em relação a nós, antigos socialistas, que visivelmente lhe parecíamos saudosistas”.19 Em 1977, no ABC paulista, militantes da Liga Operária20 foram ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo para pedir aos trabalhadores que organizassem um protesto contra a prisão de três de seus quadros. Foram recebidos pelo presidente, eleito dois anos antes com 97% dos votos dos operários. Ele lhes mostrou que não misturaria sindicato com socialismo. Chamava-se Luiz Inácio da Silva, Lula. Tinha 31 anos, língua presa e sotaque nordestino. Descera de Garanhuns, com a mãe, num pau-de-arara. Chegaram a São Paulo em 1952, buscando o pai, que carregava sacos de café no porto de Santos.21 Vendera amendoim e doces nas ruas, e aprendera a ler aos dez anos.22 Tornara-se metalúrgico aos catorze, mas só entrara na sede do sindicato aos 22.23 Vivera a expansão industrial paulista, durante a qual, num raro processo histórico, a classe operária triplicara.24 Em apenas dezoito anos, a indústria automobilística brasileira saíra da irrelevância para a lista das dez maiores do mundo. Em 1976, o ABC produzia perto de 1 milhão de veículos por ano. Para muita gente, o jovem presidente do Sindicato de São Bernardo ainda era o irmão do militante comunista José Ferreira da Silva, apelidado Frei Chico por conta de uma calva que parecia tonsura. Lula devera sua entrada na diretoria do sindicato ao irmão, mas era um personagem mais complexo, novo. Tivera um dedo decepado por uma prensa. Uma hepatite mataralhe a mulher, grávida. Casara-se com a viúva de um motorista de táxi assassinado.25 Na noite de 4 de novembro de 1969, quando os locutores que transmitiam o jogo Corinthians x Santos anunciaram que a polícia havia matado Carlos Marighella, sua preocupação continuou onde estivera: na vitória do Timão, que fechara o primeiro tempo em 2 x 0. Queimara o rosto estourando rojões na comemoração da conquista da Copa, em 1970. No tempo do Milagre a vida do trabalhador parecera-lhe “um sonho”: “As empresas disputavam os empregados nas portas das fábricas, oferecendo condições e salários melhores”.26 A oferta de empregos para metalúrgicos em São Bernardo crescia uma média de 8,3% ao ano.27 É dessa época a primeira viagem internacional de Lula. Vinte anos depois de ter vindo para o Sul de caminhão, foi para o Japão de jato. Passou pelos Estados Unidos e deixou lembranças no programa de sindicalismo da Universidade Johns Hopkins.28 Conseguira que a Justiça do Trabalho obrigasse as empresas a computar as horas extras no cálculo do 13º salário e das férias, e expandisse a estabilidade das gestantes por dois meses além do parto.29 Tivera o governador de São Paulo na posse e numa festa do sindicato. Afastava-se prudentemente do radicalismo esquerdista.30 Nessa articulação, a professora Maria Hermínia Tavares de Almeida já percebera que os operários de São Bernardo construíam uma “nova corrente sindical”: “Algo próximo do ‘sindicalismo de negócios’ (business union) norte-americano: combativo,’apolítico’, solidamente plantado na empresa, tecnicamente preparado para enfrentar e resolver os problemas gerais e específicos de seus representados”.31 Dissociando-se do corporativismo trabalhista deixado pelo Estado Novo e das clivagens políticas trazidas pela ditadura, era uma novidade."
GASPARI, Elio. A ditadura encurralada. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Jango

"No final da tarde, os sinos da igreja de São Francisco de Borja anunciaram a entrada de João Goulart na cidade onde nascera. Atrás dele vinham quinhentos veículos. Era o segundo filho da terra que, tendo chegado à Presidência da República, regressava morto, num cenário de sacrifício. O outro fora Getulio Vargas, seu amigo e protetor. Havia mil pessoas na praça, debaixo de chuva. “Um silêncio e um medo pavorosos”, lembraria Cláudio Braga, secretário de Goulart desde 1967. Ainda assim, deram-se alguns gritos a “Jango”.59 O velório duraria toda a noite, esperando por seus filhos, que viviam na Inglaterra. Denise Goulart chegou à igreja pouco depois das onze da manhã. Veio com o irmão, João Vicente. O caixão estava coberto pela bandeira brasileira, e um grupo de senhoras pediu a Denise que o cobrisse também com uma faixa branca onde se lia, em letras vermelhas: “Anistia”. Pelo plano da Polícia Federal, o caixão iria para o cemitério no carro fúnebre que o trouxera. Uma multidão calculada em 30 mil pessoas levou Jango nos braços. Foi um percurso de menos de um quilômetro por ruas enlameadas. Perto do jazigo onde discursara em 1954 diante do esquife de Getulio Vargas, Tancredo Neves voltou a falar: “Na mensagem solene que se traduz nesta cerimônia de hoje, há uma advertência que se reflete em todas as consciências: ‘É que ainda existem brasileiros que esperam voltar à Pátria’”.60 A tolerância do governo com o funeral de JK converteu-se em malvadeza no de Jango. A tentativa de impedir que o cortejo do expresidente se transformasse numa coluna do oposicionismo gaúcho produziu uma manifestação humilhada e triste. A ditadura quis tirar qualquer conteúdo político ao funeral de Goulart. Quase conseguiu. Com a faixa de letras vermelhas que colocou sobre o caixão do pai, Denise Goulart deu à morte de Jango uma grandeza imprevista. No dia seguinte a palavra anistia estava na primeira página do Jornal do Brasil.61" GASPARI, Elio. A ditadura encurralada. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

JK - O Povo chora

o anoitecer do domingo 22 de agosto de 1976, na curva do quilômetro 165 da via Dutra, uma carreta carregada de gesso seguia a caminho de São Paulo, e um Opala, com um passageiro no banco de trás, ia para o Rio. Depois dele vinha um ônibus da Viação Cometa. Tocou-lhe a traseira esquerda. Num átimo, desgovernado, o Opala saiu da pista, chocando-se com a carreta, uma Scania-Vabis de doze rodas. Ela o arrastou por trinta metros, destroçando-o.9 O passageiro do Opala ficou irreconhecível. Quando a polícia viu a carteira de identidade do cadáver do banco de trás, o Brasil começou a saber que Juscelino Kubitschek estava morto. Na beira da estrada, alguns viajantes choravam. Quem era aquele morto, isso não se sabia direito. O construtor de Brasília era um cassado, banido da vida pública havia doze anos, intimidado por um processo em que a ditadura o acusava de enriquecimento ilícito. Sentia-se “exilado no seu próprio país”.10 Mantinha um diário onde registrava segredos da vida pessoal, mas evitava transcrever conversas políticas.11 Ninguém julgou necessário incomodar Geisel na granja do Riacho Fundo para levar-lhe a notícia do desastre.
Na hora em que se discutia no Planalto o cerimonial da morte de Kubitschek, no Rio a questão era outra. JK deveria ser levado para o aeroporto Santos Dumont. Como? Sarah Kubitschek aceitou a proposta da rua: “Se o povo quer levá-lo [...] isso deverá ser feito”. Antes que o caixão partisse, tirou uma saudade do arranjo que o enfeitava, quebrou-lhe a haste e colocou a flor na lapela do costume preto.25 JK seguiu no sentido contrário ao de Edson Luis em 1968. De mãos dadas, a família ia à frente de um coro de 3 mil pessoas: Como pode O peixe vivo Viver fora Da água fria? Como poderei viver, Como poderei viver Sem a tua, sem a tua, Sem a tua companhia? Ou ainda: Já podeis, da Pátria filhos, Ver contente a mãe gentil. Já raiou a liberdade No horizonte do Brasil. Em Brasília, o presidente do Senado, Magalhães Pinto, adversário de JK, mandara baixar a meio pau sua bandeira. Embaixadas, empresas e universidades já tinham feito a mesma coisa. Parecia um ato natural. Dois meses antes, na Bolívia, Hugo Banzer decretara luto pela morte do general que depusera.
Às 13h08 a bandeira do palácio do Planalto desceu a meio mastro. Às 16h05 Juscelino Kubitschek retornou a Brasília à frente da maior manifestação popular da história da cidade. A imprensa estimaria em 350 mil pessoas a soma das multidões e dos cortejos que confluíram para o aeroporto, a catedral e o cemitério do Campo da Esperança. A catedral, onde seria rezada uma missa de corpo presente, estava lotada havia mais de uma hora. A aglomeração espichava-se até a praça dos Três Poderes.28
GASPARI, Elio. A ditadura encurralada. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

O começo do fim

"Nos primeiros meses de 1975 o governo vagou entre posições opostas. Ao mesmo tempo que o porão patrocinava uma nova onda de prisões, desaparecimentos e torturas, outra banda procurava acelerar a distensão. Ora de um lado, ora de outro, ficava Geisel. (...) O divisor de águas continuava onde sempre estivera: a tortura, encruada na questão dos desaparecidos. O MDB resolvera convocar o ministro da Justiça ao plenário da Câmara para prestar esclarecimentos. Além disso sua bancada fornecera 138 assinaturas (35 acima do mínimo exigido pelo regimento) pedindo a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar casos de violações de direitos humanos. Eram 22 os nomes dos desaparecidos.28 (A falta de informações, o silêncio que envolvia o paradeiro dos guerrilheiros do Araguaia e o medo contribuíram para que essa lista fosse imprecisa e magra. No fim de janeiro de 1975, na realidade, os desaparecidos eram cerca de 130.) O líder do governo na Câmara rebateu, acusando mais de vinte deputados da oposição de terem recebido o apoio do PCB. Uma coisa nada tinha a ver com a outra. (...) desempenho econômico do primeiro ano de governo foi um estuário de frustrações. Mario Henrique Simonsen aceitara o cargo supondo que seria possível segurar a inflação de 1974 nos 20%.1 Em junho, Geisel esperava contê-la nos 25%.2 Fechou o ano com 35%. Estimava um déficit comercial de 1,5 bilhão de dólares, resultou o triplo. A conta foi paga com a perda de 18% das reservas internacionais e um crescimento de 37% da dívida externa. Os números desmentiram as expectativas de austeridade dos primeiros meses, mas conseguiu-se o essencial: o crescimento do Produto Interno ficou em 9,6%,3 mantendo-se nas vizinhanças dos números mágicos do Milagre. Era isso que importava. (...) Durante a euforia do Milagre, semelhante descoberta haveria de render ao regime a confirmação de sua onipotência. Agora, mal rendia fé, pois quem desconfiava do exagero acabava duvidando da própria realidade. Geisel queria impor sua racionalidade ao projeto do governo, zelando para que o otimismo do delfinato não fosse substituído por uma descrença nos fundamentos da sua administração. Alterara a essência da gestão econômica. Tirara as decisões da mesa do ministro da Fazenda, levando-as para a sua. O Brasil era governado por um general convencido de que “a iniciativa privada não se interessa pelo real desenvolvimento do país”, e, por isso, “o Estado tem que dirigir”.7 O presidente não queria ser apenas um supervisor da economia, pretendia comportar-se como seu indutor. (...)O grande empresariado convivera bem com a ditadura enquanto ela foi previsível na sua intolerância. Sentia-se desorientado diante de um presidente ditatorial, porém imprevisível. Se alguém pudesse explicar o que significava, quanto custava e como terminaria a “lenta, gradativa e segura distensão”, ele poderia fazer sua escolha. Se fosse possível antever a exata direção da política econômica, também seria possível escolher. Sempre que o empresariado brasileiro soube ao que devia aderir, aderiu. A que aderir? Às idéias de Simonsen? Às práticas de Velloso? Nem o próprio Geisel tinha essas respostas. Abria aqui e fechava ali, expandia a economia e contraía o crédito, exaltava o PND e anunciava freios. Ao lado disso, baixava o chanfalho no sistema financeiro. Com um mês de governo, rompera a escrita segundo a qual banco não podia quebrar. Interviera no Halles, do Rio de Janeiro, e tentara manter sob rédea curta três outras casas que estavam com as contas em desordem.28 Quatro meses depois, sem estrondo, acertou a primeira. O Banco União Comercial, do Rio de Janeiro, viu-se obrigado a fundir-se com o Itaú. Nem o socorro do Banco Central, que lhe abrira perto de 1,5 bilhão de cruzeiros na carteira de redescontos, conseguira salvá-lo. Nele Roberto Campos tivera a sua primeira (e única) experiência com as belezas e as maldades do mercado.29 As duas outras casas (Aurea e Crecif) duraram alguns meses, até que se extinguiram. A previsibilidade do delfinato fora substituída por uma paradoxal mistura de ambigüidade e centralização. Sintetizando-a, disse um empresário: “O diálogo é fácil, só que não se sabe o que será feito”.30 Em março de 1975, diante de uma súbita queda das reservas internacionais, seguida de um aperto monetário, Reis Velloso passara alguns dias em São Paulo. Regressara com um balde de queixas. Sebastião Camargo, o maior empreiteiro do país, e Olavo Setubal, dono do banco Itaú, reclamavam do aperto. Setubal chegara a dizer que se atravessava uma crise de liquidez sem paralelo. (...)Graças ao esfriamento da economia e às restrições que impusera às importações, Geisel fechou 1975 com um déficit comercial de 3,5 bilhões de dólares e um buraco de 7 bilhões nas transações correntes.72 Foram resultados melhores que os do ano anterior, mas cobraram dois preços. De um lado, derrubaram o crescimento do PIB para 5,2%.73 De outro levaram a dívida externa a 21,2 bilhões de dólares. Entre 1973 e 1975 a América Latina e o Caribe duplicaram seu endividamento. O Brasil também.74" GASPARI, Elio. A ditadura encurralada. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Início da crise

"O processo de distensão política de Geisel dera um passo à frente. Pela primeira vez, desde 1968, a ditadura reduzira seu raio de alcance, abrindo mão, publicamente, de um instrumento de arbítrio. O Estadão passaria a publicar aquilo que seu diretor-responsável, Julio de Mesquita Neto, bem entendesse. Para Golbery, seria melhor assim. Havia anos sustentava que o fim da censura n’O Estado de S. Paulo não libertaria as forças incontroláveis do liberalismo: “Sairá o jornal conservador que ele é. Mais conservador que eu”.2 Geisel ia para o segundo ano de sua presidência com um acervo indecifrado de mudanças. Enterrara o triunfalismo do Milagre Econômico e aceitara uma derrota eleitoral sem precedentes na história republicana. Ao lado disso, no porão torturava-se e matava-se. Em 1974 foram assassinadas cerca de cinqüenta pessoas, a maioria nas matas e nos cárceres militares do Araguaia. Nas cidades, o aparelho de repressão da ditadura exterminava o que sobrara da militância armada e avançava sobre o Partido Comunista. As 67 denúncias de tortura apresentadas nas auditorias deram ao ano um aspecto de trégua parecida com a do fim do governo Castello Branco (66 denúncias em 1966). A Fundação Getulio Vargas estimava que o país crescera 9,6%, enquanto as grandes economias mundiais gramavam a estagnação provocada pela crise do petróleo. Embora tendo sofrido o impacto de um aumento de 116% no preço dos combustíveis, a economia safou-se com uma taxa de inflação de 35%, um terço acima do índice real do ano anterior. (A inflação americana e a européia — exclusive a da Alemanha — estavam entre 13% e 25%.)3 A dívida externa, financiadora do salto, passara de 12,5 para 17,2 bilhões de dólares. Algo havia mudado na vida política do país, mas em janeiro de 1975 era difícil saber o que as mudanças significavam para o futuro. Geisel dizia a Heitor Ferreira que “essa fórmula das prisões indiscriminadas tem que mudar”. Ao governador de São Paulo, Paulo Egydio Martins, contava que se pedisse a ficha de Jesus Cristo aos serviços de informação, “ai dele”.4 A devolução da liberdade a um grande jornal prenunciava a abolição gradual da censura. Três semanários e um diário (Veja, Opinião e O Pasquim, e a Tribuna da Imprensa) continuavam com censores trabalhando em cima dos textos da redação. Os demais órgãos de comunicação tinham de respeitar as ordens contidas nas pequenas notas da Polícia Federal. Mesmo aí sucederam mudanças. Para onze novas proibições específicas expedidas no primeiro mês do mandato, o governo fecharia janeiro de 1975 com apenas uma.5 Era alguma coisa, mas não era tanto, pois persistiam todas as restrições genéricas, que iam do silêncio a respeito do porão ao olvido da existência de d. Helder Câmara. Geisel decidira suspender a censura do Estado seguindo uma costura de Golbery, conselhos de Humberto Barreto, conversas com Paulo Egydio Martins, e até mesmo sugestão do comandante do II Exército, general Ednardo D’Avila Mello.6 O presidente não entendia por que a família Mesquita mantinha jornalistas de esquerda na sua redação." GASPARI, Elio. A ditadura encurralada. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

O Monstro

"O resultado da eleição de 1974 encurralou a ditadura. O MDB vencera as disputas para senador em dezesseis dos 21 estados, indicando que dentro de quatro anos conquistaria a maioria no Senado. Um ano depois do almoço de JK no Jornal do Brasil, o “monstro” soltouse no Rio de Janeiro e em Brasília. Cantando “Peixe vivo”, o povo voltou à rua, enterrando o ex-presidente com afeto e lamento. A ditadura militar estava economicamente robusta. Num regime de pleno emprego, a economia crescia, na média, a taxas de quase 7% ao ano. Também tinha prestígio internacional. Faltava só a Argentina para que toda a América do Sul abaixo do Equador fosse governada por generais. Em março de 1976 uma junta instalou-se na Casa Rosada, e acabou-se a exceção. Entre as últimas semanas de 1974 e a jornada de 12 de outubro de 1977, quando Ernesto Geisel demitiu o ministro do Exército, general Sylvio Frota, a anarquia militar e o poder republicano do presidente enfrentaram-se. Era o confronto que o regime evitava desde 1964. À noite, quando Frota transmitiu o cargo ao seu sucessor, Fernando Bethlem, a anarquia estava enquadrada. Coube ao general Ernesto Geisel a defesa do poder constitucional. Logo ele, que participara das desordens militares de 1922, 24, 30, 37, 45, 61, 64, 65, 68 e 69.2 De 12 de outubro de 1977 até o dia em que se escreveu esta Explicação, passaram-se 26 anos. Nunca, na história da República, se viveu tanto tempo sem desordem militar digna de registro. Quando o general Ernesto Geisel morreu, em 1996, sabia a extensão desse legado. Orgulhava-se dele, mas não gostava de discutir o assunto. Temia fazer uma das coisas que mais detestava: falar bem de si próprio." GASPARI, Elio. A ditadura encurralada. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

O Começo da Redemocratização

GOVERNO GEISEL (1974-1979) Em 1974 assume a presidência o general Ernesto Geisel que começa um lento processo de transição rumo à democracia. Seu governo coincide com o fim do milagre econômico e com a insatisfação popular em altas taxas. A crise do petróleo e a recessão mundial interferem na economia brasileira, no momento em que os créditos e empréstimos internacionais diminuem. Geisel anuncia a abertura política lenta, gradual e segura. A oposição política começa a ganhar espaço. Nas eleições de 1974, o MDB conquista 59% dos votos para o Senado, 48% da Câmara dos Deputados e ganha a prefeitura da maioria das grandes cidades. Os militares de linha dura, não contentes com os caminhos do governo Geisel, começam a promover ataques clandestinos aos membros da esquerda. Em 1975, o jornalista Vladimir Herzog á assassinado nas dependências do DOI-Codi em São Paulo. Em janeiro de 1976, o operário Manuel Fiel Filho aparece morto em situação semelhante. Em 1978, Geisel acaba com o AI-5, restaura o habeas-corpus e abre caminho para a volta da democracia no Brasil.
GOVERNO FIGUEIREDO (1979-1985) A vitória do MDB nas eleições em 1978 começa a acelerar o processo de redemocratização. O general João Baptista Figueiredo decreta a Lei da Anistia, concedendo o direito de retorno ao Brasil para os políticos, artistas e demais brasileiros exilados e condenados por crimes políticos. Os militares de linha dura continuam com a repressão clandestina. Cartas-bomba são colocadas em órgãos da imprensa e da OAB (Ordem dos advogados do Brasil). No dia 30 de Abril de 1981, uma bomba explode durante um show no centro de convenções do Rio Centro. O atentado fora provavelmente promovido por militares de linha dura, embora até hoje nada tenha sido provado. Em 1979, o governo aprova lei que restabelece o pluripartidarismo no país. Os partidos voltam a funcionar dentro da normalidade. A ARENA muda o nome e passa a ser PDS, enquanto o MDB passa a ser PMDB. Outros partidos são criados, como : Partido dos Trabalhadores ( PT ) e o Partido Democrático Trabalhista ( PDT ). A Redemocratização e a Campanha pelas Diretas Já Nos últimos anos do governo militar, o Brasil apresenta vários problemas. A inflação é alta e a recessão também. Enquanto isso a oposição ganha terreno com o surgimento de novos partidos e com o fortalecimento dos sindicatos. Em 1984, políticos de oposição, artistas, jogadores de futebol e milhões de brasileiros participam do movimento das Diretas Já. O movimento era favorável à aprovação da Emenda Dante de Oliveira que garantiria eleições diretas para presidente naquele ano. Para a decepção do povo, a emenda não foi aprovada pela Câmara dos Deputados. No dia 15 de janeiro de 1985, o Colégio Eleitoral escolheria o deputado Tancredo Neves, que concorreu com Paulo Maluf, como novo presidente da República. Ele fazia parte da Aliança Democrática – o grupo de oposição formado pelo PMDB e pela Frente Liberal. Era o fim do regime militar. Porém Tancredo Neves fica doente antes de assumir e acaba falecendo. Assume o vice-presidente José Sarney. Em 1988 é aprovada uma nova constituição para o Brasil. A Constituição de 1988 apagou os rastros da ditadura militar e estabeleceu princípios democráticos no país.

Médici e o Milagre Econômico

GOVERNO MEDICI (1969-1974)
Em 1969, a Junta Militar escolhe o novo presidente: o general Emílio Garrastazu Medici. Seu governo é considerado o mais duro e repressivo do período, conhecido como " anos de chumbo ". A repressão à luta armada cresce e uma severa política de censura é colocada em execução. Jornais, revistas, livros, peças de teatro, filmes, músicas e outras formas de expressão artística são censuradas. Muitos professores, políticos, músicos, artistas e escritores são investigados, presos, torturados ou exilados do país. O DOI-Codi ( Destacamento de Operações e Informações e ao Centro de Operações de Defesa Interna ) atua como centro de investigação e repressão do governo militar. Ganha força no campo a guerrilha rural, principalmente no Araguaia. A guerrilha do Araguaia é fortemente reprimida pelas forças militares. O Milagre Econômico Na área econômica o país crescia rapidamente. Este período que vai de 1969 a 1973 ficou conhecido com a época do Milagre Econômico. O PIB brasileiro crescia a uma taxa de quase 12% ao ano, enquanto a inflação beirava os 18%. Com investimentos internos e empréstimos do exterior, o país avançou e estruturou uma base de infra-estrutura. Todos estes investimentos geraram milhões de empregos pelo país. Algumas obras, consideradas faraônicas, foram executadas, como a Rodovia Transamazônica e a Ponte Rio-Niteroi. Porém, todo esse crescimento teve um custo altíssimo e a conta deveria ser paga no futuro. Os empréstimos estrangeiros geraram uma dívida externa elevada para os padrões econômicos do Brasil.

AI 5

"No dia 13 de dezembro de 1968, no Palácio Laranjeiras, é editado pelo então presidente Costa e Silva o Ato Institucional nº 5. Com o AI-5, o regime militar passava a ter o poder de fechar o Congresso, cassar mandatos eletivos, suspender o habeas corpus para crimes políticos e confiscar bens. Começava aí o período mais duro da ditadura militar, que se estenderia por dez anos. A decisão de endurecer o regime veio justamente no fim do “ano que não acabou”. No Brasil e no mundo, 1968 foi marcado pelos protestos dos jovens contra a política tradicional e por mais liberdade. “É proibido proibir” funcionava como uma espécie de mote para a garotada que ocupava as ruas pedindo o fim da ditadura. Ao longo do ano, a Igreja também começava a se articular na defesa dos direitos humanos e líderes políticos cassados se associavam em busca de formas de voltar à política e combater a ditadura. Antigos rivais, Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e João Goulart organizaram a Frente Ampla, iniciada em 1967 e proibida em abril de 1968. Em meados do ano, os metalúrgicos de Osasco entram em greve - a primeira desde o início da ditadura. A linha mais radical do governo se agitava, providenciando ações mais rigorosas contra a oposição e pedindo medidas enérgicas contra manifestações populares de descontentamento. Neste cenário, nos dias 2 e 3 de setembro, o deputado Márcio Moreira Alves, do MDB - o partido de oposição à legenda oficial da ditadura, a Arena -, ocupa a tribuna para pedir ao povo que não participasse dos desfiles militares do 7 de Setembro. Também apela as moças, "ardentes de liberdade", que não saíssem com oficiais das Forças Armadas. Outro deputado do MDB, Hermano Alves, publica uma série de artigos no "Correio da Manhã", considerados provocações no meio militar. O governo pede então a cassação dos dois deputados. Mas em 12 de dezembro, a Câmara recusou, por uma diferença de 75 votos, o pedido de licença para processar Moreira Alves. E houve até colaboração da própria Arena, o partido do "amém" do sistema bipartidário no regime militar. No dia seguinte foi baixado o AI-5. Também foi decretado o recesso do Congresso Nacional por tempo indeterminado. Só seria reaberto em outubro de 1969, para referendar a escolha do general Emílio Garrastazu Médici para a Presidência da República. Com o AI-5, Marcio Moreira Alves e Hermano Alves foram cassados, numa lista inicial de 11 parlamentares que perderam seus mandatos." Leia mais sobre esse assunto em http://acervo.oglobo.globo.com/rio-de-historias/no-palacio-laranjeiras-costa-silva-assina-ai-5-endurece-regime-8899069#ixzz4XL3fUumu © 2017.

De 1967 a 1969

GOVERNO COSTA E SILVA (1967-1969) Em 1967, assume a presidência o general Arthur da Costa e Silva, após ser eleito indiretamente pelo Congresso Nacional. Seu governo é marcado por protestos e manifestações sociais. A oposição ao regime militar cresce no país. A UNE ( União Nacional dos Estudantes ) organiza, no Rio de Janeiro, a Passeata dos Cem Mil. Em Contagem (MG) e Osasco (SP), greves de operários paralisam fábricas em protesto ao regime militar. A guerrilha urbana começa a se organizar. Formada por jovens idealistas de esquerda, assaltam bancos e seqüestram embaixadores para obterem fundos para o movimento de oposição armada. No dia 13 de dezembro de 1968, o governo decreta o Ato Institucional Número 5 ( AI-5 ). Este foi o mais duro do governo militar, pois aposentou juízes, cassou mandatos, acabou com as garantias do habeas-corpus e aumentou a repressão militar e policial. GOVERNO DA JUNTA MILITAR (31/8/1969-30/10/1969) Doente, Costa e Silva foi substituído por uma junta militar formada pelos ministros Aurélio de Lira Tavares (Exército), Augusto Rademaker (Marinha) e Márcio de Sousa e Melo (Aeronáutica). Dois grupos de esquerda, O MR-8 e a ALN seqüestram o embaixador dos EUA Charles Elbrick. Os guerrilheiros exigem a libertação de 15 presos políticos, exigência conseguida com sucesso. Porém, em 18 de setembro, o governo decreta a Lei de Segurança Nacional. Esta lei decretava o exílio e a pena de morte em casos de "guerra psicológica adversa, ou revolucionária, ou subversiva". No final de 1969, o líder da ALN, Carlos Mariguella, foi morto pelas forças de repressão em São Paulo. Fonte: http://www.sohistoria.com.br/ef2/ditadura/p1.php

Castello Branco

"GOVERNO CASTELLO BRANCO (1964-1967) Castello Branco, general militar, foi eleito pelo Congresso Nacional presidente da República em 15 de abril de 1964. Em seu pronunciamento, declarou defender a democracia, porém ao começar seu governo, assume uma posição autoritária. Estabeleceu eleições indiretas para presidente, além de dissolver os partidos políticos. Vários parlamentares federais e estaduais tiveram seus mandatos cassados, cidadãos tiveram seus direitos políticos e constitucionais cancelados e os sindicatos receberam intervenção do governo militar. Em seu governo, foi instituído o bipartidarismo. Só estavam autorizados o funcionamento de dois partidos: Movimento Democrático Brasileiro ( MDB ) e a Aliança Renovadora Nacional ( ARENA ). Enquanto o primeiro era de oposição, de certa forma controlada, o segundo representava os militares. O governo militar impõe, em janeiro de 1967, uma nova Constituição para o país. Aprovada neste mesmo ano, a Constituição de 1967 confirma e institucionaliza o regime militar e suas formas de atuação." Fonte: http://www.sohistoria.com.br/ef2/ditadura/

1964

"1964 
  POLÍTICA 
Janeiro • Em Moscou, Prestes assegura a Nikita Kruchev: “Se a reação levantar a cabeça, nós a cortaremos de imediato”. 
Março • 13 Comício da Central. • 19 Marcha da Família, em São Paulo. • 20 O general Castello Branco distribui sua Circular Reservada. • A convenção do PSD lança a candidatura de JK nas eleições previstas para 1965. • 24 Começa a rebelião dos marinheiros. • 30 Jango discursa no Automóvel Clube. • 31 O general Mourão Filho decide rebelar-se. 
Abril • 1° Jango vai para Brasília e de lá para o Rio Grande do Sul. • Costa e Silva proclama-se “comandante do Exército nacional”. • No fim do dia morreram sete civis. • 2 O presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli, torna-se presidente da República. • 9 Baixado o Ato Institucional. Numa primeira fornada, cassa 40 mandatos. • Jango asila-se no Uruguai. • 11 Castello Branco é eleito presidente. 
Junho • Criado o SNI. Golbery vai chefiá-lo. • Aos 27 anos, o capitão Heitor Ferreira, assistente de Golbery, começa seu diário. • Castello cassa JK. 
Julho • O Congresso prorroga o mandato de Castello por um ano, até março de 1967. 
Agosto • Castello faz o discurso das “vivandeiras alvoroçadas”. 
Setembro • O Correio da Manhã começa a sua campanha contra a tortura. • Castello manda Geisel ao Nordeste para investigar denúncias de torturas. 
Outubro • Caduca o artigo punitivo do Ato Institucional. Foram atingidas 4454 pessoas. Delas, 2757 eram militares. 
Dezembro • O ano termina com 20 mortos (nove suicídios) e 203 casos de denúncias de torturas. 
  ECONOMIA E SOCIEDADE 
 Janeiro • Jango sanciona a nova lei de remessa de lucros aprovada pelo Congresso. • A FIESP recusa-se a participar de um ato de solidariedade a Jango, organizado pela CNI. • Jango fecha a carteira de redescontos do Banco do Brasil em São Paulo e no Rio Grande do Sul. • Uma pesquisa feita em oito capitais mostra que 72% dos brasileiros acham necessária a reforma agrária. 
Abril • O secretário de Estado Dean Rusk cria uma comissão para estudar um plano de ajuda imediata ao governo brasileiro. • Castello Branco coloca Octávio Gouvêa de Bulhões no Ministério da Fazenda. 
Maio • Roberto Campos assume o Ministério do Planejamento. • A Superintendência da Moeda e do Crédito acaba com o regime de subsídios. 
Julho • Concluída a renegociação da dívida externa, de 3,8 bilhões de dólares. • Castello baixa a nova fórmula para o cálculo dos reajustes salariais. Surge a expressão “arrocho salarial”. 
Agosto • Chega ao Congresso o PAEG — Plano de Ação Econômica do Governo. Seu principal objetivo é derrubar a inflação. • Institui-se a correção monetária. • Criado o Banco Nacional da Habitação. • Castello sanciona uma nova lei de remessa de lucros. • Golbery relata a Castello: “Os esforços do governo no combate à inflação não têm sido bem compreendidos pela opinião pública”. 
Setembro • Apesar da crise econômica, a Volkswagen revela que bateu seu recorde de produção. 
Novembro • Lacerda ataca a política econômica do governo. Dezembro • Criado o Banco Central. ® O ano termina com a inflação em 92,1%. A economia cresce 3,4%. 
  CULTURA 
 ® A Editora Civilização Brasileira lança O Estado militarista, de Fred J. Cook. Entre 1961 e 1964 a Civilização publicou um livro novo a cada dia útil. ® Herbert Marcuse publica A ideologia da sociedade industrial: o homem unidimensional. ® Depois de um período de ostracismo, reaparece o compositor Ismael Silva. ® Nos cinemas: Zorba, o Grego, com Anthony Quinn e música de Mikis Theodorakis, e 007 — Contra Goldfinger, com Sean Connery. Fevereiro Cassius Clay torna-se campeão mundial de pesos pesados. Março • Primeira exibição (privada) de Deus e o diabo na terra do sol de Glauber Rocha. Uma parte da platéia vai do cinema para o comício da Central. Abril • A Censura apreende as cópias de Deus e o diabo na terra do sol. Depois libera-as. Julho • Anuncia-se o início da colocação da grama no Aterro do Flamengo. • São demitidos 26 artistas da rádio Nacional. Entre eles, Mário Lago e Dias Gomes. Agosto • A Censura proíbe Sete dias em maio, que contava um golpe militar em Washington. Depois o filme é liberado. • Os Beatles chegam aos Estados Unidos, nu ma viagem triunfal. Setembro • Fechada a boate Black Horse, a mais famosa do Rio. Dezembro • Em Nova York, Che Guevara é convidado para uma festa na casa da milionária Bobo Rockefeller. É o “radical-chic”. • Bob Zagury, namorado de Brigitte Bardot, a traz para o Brasil. Vão para Cabo Frio e ficam numa praia desconhecida chamada Búzios. • Estréia o show Opinião, com Nara Leão, Zé Kéti e João do Vale: Podem me bater, Podem me prender, Podem até deixar-me sem comer Que eu não mudo de opinião. 
  MUNDO 
 Abril • Desmancha-se a guerrilha argentina estimulada por Guevara. O chefe do grupo, Masetti, desaparece na mata. • Julius Nyerere, presidente da Tanganica desde 1962, une o seu país a Zanzibar e cria a Tanzânia, que governará até 85. 
Junho • Organiza-se na Colômbia a guerrilha do Exército de Libertação Nacional. Agosto • Depois de um incidente com um destróier no golfo de Tonquim, o Congresso dá poderes ao presidente Johnson para ampliar a intervenção americana no Vietnã. • Falha mais um atentado da Organização do Exército Secreto contra o presidente Charles de Gaulle. 
Outubro • A China comunista explode sua bomba atômica. • Kruchev é deposto na União Soviética. Assume um triunvirato em que prevalece Leonid Brejnev. • Os trabalhistas ganham a eleição inglesa. Harold Wilson torna-se primeiro-ministro, iniciando um predomínio que durará seis anos. Zâmbia torna-se independente e Kenneth Kaunda assume a Presidência, na qual ficará até 1999. 
Novembro • Golpe na Bolívia. Assume o general René Barrientos. 
Dezembro • Juan Perón deixa a Espanha, onde vivia exilado, e voa para a Argentina. Ao fazer escala no aeroporto do Galeão, é barrado e obrigado a voltar. • Martin Luther King Jr. ganha o Prêmio Nobel da Paz." (GASPARI, Elio. A ditadura envergonhada. São Paulo: Companhia das letras, 2002)

O começo

"Escancarada, a ditadura firmou-se. A tortura foi o seu instrumento extremo de coerção e o extermínio, o último recurso da repressão política que o Ato Institucional n° 5 libertou das amarras da legalidade. A ditadura envergonhada foi substituída por um regime a um só tempo anárquico nos quartéis e violento nas prisões. Foram os Anos de Chumbo. (...) O Milagre Brasileiro e os Anos de Chumbo foram simultâneos. Ambos reais, coexistiram negando-se. Passados mais de trinta anos, continuam negando-se. Quem acha que houve um, não acredita (ou não gosta de admitir) que houve o outro." (GASPARI, Elio. A ditadura escancarada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002)