terça-feira, 31 de janeiro de 2017

A chegada de Figueiredo

"A candidatura do general Figueiredo foi para a rua na primeira semana de julho de 1977. Na saída de uma missa de sétimo dia, o chefe do SNI falou com os jornalistas. Perguntaram-lhe se era candidato a presidente da República. Respondeu que a questão dependia de três requisitos: “O primeiro é o presidente Geisel querer. O segundo é eu querer”. O terceiro: “Desde que haja um movimento entre militares e políticos”. No dia seguinte, a resposta estava na manchete do Jornal de Brasília: “Figueiredo admite candidatura se Geisel e políticos apoiarem”.1 (...) Figueiredo, o Figa, cavalgava um tipo, não uma personalidade. Castello Branco fizera o gênero do oficial de estado-maior francês. O chefe do SNI encarnava o Cavalariano estourado, vulgar, enfeitado por um senso de humor autoderrogatório. Ao escolher um codinome, intitulara-se “Bagual”, sinônimo gaúcho de “chucro”.9 Geisel apreciavalhe a capacidade de “dar botinadas”. Suas histórias eram preciosas, baseadas sempre na memória de incidentes com personagens já mortos, sem testemunhas vivas. Contava que, como aspirante, desafiara Getulio Vargas. Por primeiro aluno, recebera o espadim das mãos do ditador, que lhe desejara uma carreira brilhante, tal qual a do pai. “Obrigado, presidente. O único perigo é que eu termine preso, como meu pai.”10 Ainda era tenente, dizia, quando mandara o major Castello Branco “à merda”.11 Coronel, dissera a João Goulart que seu governo seria derrubado.12 Era um interlocutor direto. O general queixava-se do próprio temperamento: “Eu tenho um gênio [...] eu sou um sujeito impulsivo que de vez em quando faço besteiras e depois me arrependo e sou meio violento”.13 Ao contrário das personalidades de Medici e Geisel, que passaram inalteradas pelo poder, a de Figueiredo fora reciclada, nem tanto por sua iniciativa, mas com sua concordância. Oito das dezenove fotografias em que aparecera nas revistas Veja e IstoÉ o mostravam na companhia de cavalos. O cavaleiro atlético escondia um cardiopata teimoso. Agravava os padecimentos da coluna ao persistir no exercício do hipismo. O general severo também era uma construção. Uma exfuncionária do SNI, Edine Souza Correia, viria a acusá-lo de tê-la seduzido nas cavalariças do Torto, em 1971. Ela era menor de idade. Quatro anos depois, foi nomeada auxiliar de censura na Polícia Federal e, em 1976, acabara de ser transferida para o SNI. (Essa relação foi escandalosamente divulgada em 1988 pela senhora. Ela pedia dinheiro a Figueiredo, acusando-o — falsamente — de ser o pai de seu filho. Dois telefonemas gravados, uma ordem de pagamento e um bilhete manuscrito do general permitem afirmar que quando ela estava com dezessete anos ele já a conhecia e que lhe mandou um cartão de boasfestas dizendo: “Meu jardim tem muitas folhas caídas, mas tem uma flor...”. Num telefonema disse-lhe que “te amei”. Em juízo, sempre negando que tivesse intimidade com a senhora, reconheceu que ela freqüentava a granja do Torto.)14 O militar profissional, com estampa e mitologia de troupier, estava no Exército havia mais de quarenta anos, mas passara apenas cinco fora do circuito de uma ajudância-de-ordens, dos cursos e das mesas. Somara mais tempo nos serviços de informação do que em comando de tropa. Não fora à guerra. Mantivera-se ao largo do radicalismo verbal dos oficiais indisciplinados. Como chefe do Gabinete Militar de Medici, estivera na montagem da máquina que entregara ao Exército o comando das operações de polícia política.15 Segundo um oficial do DOI do Rio de Janeiro, em pelo menos uma ocasião vira um preso ser torturado.16 Quando o Ministério Público paulista encurralou o delegado Sérgio Fleury, ele se preocupou: “Se esse camarada falar, é um perigo para uma porção de gente”.17 Havia sido um precoce, leal e ativo defensor da escolha de Geisel para a Presidência. Tinha com ele uma relação disciplinada e respeitosa. Chamava-o de “senhor”. Nos meses que antecederam a formação do governo, fora um operador qualificado, abastecendo o presidente da Petrobrás com fatos, opiniões e conselhos. Geisel pusera-o na chefia do SNI acreditando que fosse capaz de conter as intrigas contra Medici e de regenerar o Serviço. Dissera-lhe: “Você sabe que o SNI, como está, é melhor fechar [...]. Ou nós consertamos o SNI [...] ou então vamos acabar com esse troço, porque como está, não vai. Não processa coisa nenhuma, só veicula boato”.18 Pouco mudara o Serviço. Pelo contrário. Manteve-o como caudatário dos sentimentos, temores e inquietações do porão.(...) Geisel ungiu Figueiredo porque supunha estar fazendo o certo, mas também porque cedeu ao impulso dos governantes que desejam ser sucedidos por um amigo a quem possam influenciar. Nesse sentido, faltou-lhe a simplicidade de Medici, capaz de escolhê-lo sem que tivessem relações pessoais e sem sequer trocarem opiniões a respeito do futuro do país." GASPARI, Elio. A ditadura encurralada. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

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