terça-feira, 31 de janeiro de 2017

JK - O Povo chora

o anoitecer do domingo 22 de agosto de 1976, na curva do quilômetro 165 da via Dutra, uma carreta carregada de gesso seguia a caminho de São Paulo, e um Opala, com um passageiro no banco de trás, ia para o Rio. Depois dele vinha um ônibus da Viação Cometa. Tocou-lhe a traseira esquerda. Num átimo, desgovernado, o Opala saiu da pista, chocando-se com a carreta, uma Scania-Vabis de doze rodas. Ela o arrastou por trinta metros, destroçando-o.9 O passageiro do Opala ficou irreconhecível. Quando a polícia viu a carteira de identidade do cadáver do banco de trás, o Brasil começou a saber que Juscelino Kubitschek estava morto. Na beira da estrada, alguns viajantes choravam. Quem era aquele morto, isso não se sabia direito. O construtor de Brasília era um cassado, banido da vida pública havia doze anos, intimidado por um processo em que a ditadura o acusava de enriquecimento ilícito. Sentia-se “exilado no seu próprio país”.10 Mantinha um diário onde registrava segredos da vida pessoal, mas evitava transcrever conversas políticas.11 Ninguém julgou necessário incomodar Geisel na granja do Riacho Fundo para levar-lhe a notícia do desastre.
Na hora em que se discutia no Planalto o cerimonial da morte de Kubitschek, no Rio a questão era outra. JK deveria ser levado para o aeroporto Santos Dumont. Como? Sarah Kubitschek aceitou a proposta da rua: “Se o povo quer levá-lo [...] isso deverá ser feito”. Antes que o caixão partisse, tirou uma saudade do arranjo que o enfeitava, quebrou-lhe a haste e colocou a flor na lapela do costume preto.25 JK seguiu no sentido contrário ao de Edson Luis em 1968. De mãos dadas, a família ia à frente de um coro de 3 mil pessoas: Como pode O peixe vivo Viver fora Da água fria? Como poderei viver, Como poderei viver Sem a tua, sem a tua, Sem a tua companhia? Ou ainda: Já podeis, da Pátria filhos, Ver contente a mãe gentil. Já raiou a liberdade No horizonte do Brasil. Em Brasília, o presidente do Senado, Magalhães Pinto, adversário de JK, mandara baixar a meio pau sua bandeira. Embaixadas, empresas e universidades já tinham feito a mesma coisa. Parecia um ato natural. Dois meses antes, na Bolívia, Hugo Banzer decretara luto pela morte do general que depusera.
Às 13h08 a bandeira do palácio do Planalto desceu a meio mastro. Às 16h05 Juscelino Kubitschek retornou a Brasília à frente da maior manifestação popular da história da cidade. A imprensa estimaria em 350 mil pessoas a soma das multidões e dos cortejos que confluíram para o aeroporto, a catedral e o cemitério do Campo da Esperança. A catedral, onde seria rezada uma missa de corpo presente, estava lotada havia mais de uma hora. A aglomeração espichava-se até a praça dos Três Poderes.28
GASPARI, Elio. A ditadura encurralada. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

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