terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Ulysses e Tancredo

"Petrônio, que vinha conversando em segredo com Thales Ramalho, recebera a garantia de que o caminho seria desobstruído. Thales tinha a palavra dos moderados do MDB. A bancada do partido no Senado já se definira pela abertura da questão. A da Câmara votara contra, mas trinta deputados haviam-se manifestado publicamente pelo acordo.16 A decisão seria sacramentada na manhã de 25 de março, numa reunião do Diretório Nacional. Na noite anterior, um pedaço da cúpula do MDB encontrara-se no apartamento que Ulysses dividia com um colega.17 Tancredo Neves sustentara a conveniência de se permitir a reforma. Ele era um oráculo da ala moderada do partido, mas nesse caso seu raciocínio frio mostrava a sensibilidade do ex-ministro de Getulio Vargas e do expresidente do Conselho dos Ministros na experiência parlamentarista do início dos anos 60. Tancredo não via motivo para se ir a um choque por conta de um tema (os “predicamentos da magistratura”) incompreensível para a opinião pública. Ademais, não fazia sentido lutar por um Judiciário que sempre decidira em favor do regime. Queria transferir o combate para outro campo, noutra ocasião. Era inevitável que o governo propusesse a emenda constitucional cancelando as eleições diretas para os governos estaduais. O líder da ala moderada acreditava que essa seria a hora e o lugar certos para brigar. Às cinco da manhã, quando a conversa terminou, Ulysses apoiara a tática. Combinaram até a coreografia da reunião do Diretório, que começaria quatro horas depois. Caberia a Tancredo o encaminhamento de proposta de liberação da bancada. Em seguida, falaria o senador Franco Montoro, endossando-a. O ex-primeiro-ministro fez um bonito discurso. Analisou o projeto valendo-se de um dos recursos de retórica que mais apreciava, agressivo na condenação do acessório, suave na defesa do essencial. Criticou a emenda e concluiu propondo que o partido votasse livremente. Repetiu o argumento da madrugada: “O confronto, se um dia tivermos que travá-lo, há de ser num instante em que tenhamos ao nosso lado a opinião pública, a imprensa e a consciência democrática da Nação. [...] Ainda não chegou a hora de nos lançarmos ao teste do confronto”.18 No plenário, o senador Paulo Brossard estava disposto a ficar calado. Quando Tancredo terminou, diversos colegas pediram-lhe que falasse. Presidindo a sessão, Ulysses saiu do trato. Em vez de chamar Montoro, chamou Brossard. O senador gaúcho desarticulou a construção dos moderados. Citou as críticas que Tancredo fizera ao projeto, elogiou sua biografia e argumentou que, tendo dito o que dissera e sendo quem era, não podia propor que a questão ficasse aberta. Quanto ao confronto, argumentou que o projeto do governo era parte de algo maior, destinado a emparedar a oposição: “Se uma alcatéia falasse, não teria outra linguagem”.19 Brossard ainda não terminara quando Tancredo percebeu que fora logrado. Levantou-se de sua cadeira, na primeira fila do plenário, e acercou-se de Thales Ramalho: “Vamos votar pelo fechamento da questão, senão vamos sair daqui apedrejados”.20 Por unanimidade, o Diretório fechou a questão. Desfeita a reunião, Ulysses procurou Thales. Tinham combinado almoçar em sua casa, com Tancredo. Ouviu o seguinte: “Na minha casa não tem mais almoço”. Thales e Tancredo comeram a sós, num pequeno restaurante. A partir desse dia as relações de Tancredo Neves com Ulysses Guimarães jamais foram as mesmas. Tão elegantes quanto dissimulados, eles conviveram por mais onze anos sem atritos públicos e sem nenhuma confiança. Distanciaram-se porque seus projetos já não dispunham do nível de fraternidade que a fraqueza política soldara. O futuro de Tancredo dependia de uma saída negociada da ditadura. O de Ulysses, do colapso.21 Tancredo precisava de Ulysses para que suas manobras não fossem apedrejadas. Ulysses precisava de Tancredo para evitar que o radicalismo dos quartéis voltasse a mutilar a oposição. Na sessão do Diretório, ambos perceberam que os projetos se neutralizavam. Naquela manhã, Ulysses neutralizou Tancredo."
"Ulysses era muito refinado, mas, de vez em quando, dava umas derrapadas. Nessas horas, eu o advertia sempre com a frase que ouvi da Lygia Fagundes Telles na televisão: "Tenho horror à vulgaridade!" E ele se continha. Enfim, casada, mudei com meus dois filhos de um pequeno apartamento do Leme para um suntuoso apartamento no 9 andar do número 2.364, hoje edifício Parnaíba, na Avenida Atlântica, em Copacabana. No edifício moravam também o presidente do Senado, Nereu Ramos, no 8, e o senador Auro Moura Andrade, no 2. Nereu tinha acabado de deixar a Presidência da República, completando o mandato de Vargas. Dois anos depois, morreu num acidente da Cruzeiro do Sul. Ulysses e eu ficamos muito chocados com a sua morte. E o Moura Andrade, vocês o conhecem de voz. É a voz mais conhecida da História. Como presidente do Senado, em 61, após a leitura da carta-renúncia de Jango, celebrizou: "Declaro vaga a cadeira de presidente da República." Lembraram-se agora do vozeirão? Por conta disso, Moura Andrade ganhou o apelido de "uma voz à procura de uma ideia". Mas ele, contava Ulysses, teve participação decisiva, logo em seguida, naquele parlamentarismo de araque que garantiu João Goulart na Presidência da República. Imaginem, eu, uma pacata viúva paulista, dando uma guinada daquelas e passando a conviver com toda aquela gente importante, naquele edifício badalado, que tinha uma enorme faixa privativa para aqueles Cadillacs importados? Mudei radicalmente de vida. Mas o Auro Moura Andrade, realmente, teve um papel tão grande na mudança de regime que até quiseram fazer dele o primeiro-ministro, desde que deixasse nas mãos de Goulart uma carta-renúncia assinada. Ele não topou, claro, e quem acabou sendo escolhido foi o homem a quem Ulysses chamava pelo nome completo, todas as vezes em que aprontava alguma coisa: "Doutor Tancredo de Almeida Neves". Até a Geralda, minha cozinheira da vida toda, quando se aborrecia por qualquer coisa, murmurava pelos cantos: "Doutor Tancredo de Almeida Neves". Tancredo Neves morreu achando que Ulysses o traiu em três grandes momentos da sua vida. Os outros, conto depois. Fiquemos só no primeiro, por enquanto. O PSD, a quem cabia a indicação do primeiro-ministro, apresentou três candidatos, e Tancredo, mesmo tendo sido o escolhido, acusou Ulysses de não ter votado nele. Depois, no seu curto governo, criou um ministério - o da Indústria e Comércio - só para acomodar Ulysses. Políticos, vá entendê-los! É por isso que Ulysses sempre ensinava aos novos: - Nunca traga suas desavenças para casa. O sujeito a quem você xinga de mau-caráter, na mesa de almoço da família, poderá ser elogiado por você no jantar do mesmo dia. E quem, para a sua família, acaba sendo o mau-caráter é você. Politicamente falando, Tancredo Neves foi o homem da vida de Ulysses. Foi o seu maior contraponto, ao mesmo tempo em que foi seu grande amigo também. Meu marido costumava falar que mulher de político é "viúva de marido vivo". Eu replicava brincando que, desde que Tancredo entrou nas nossas vidas, passei a ser apenas "amante do deputado Ulysses Guimarães", e a esposa, um certo doutor Tancredo de Almeida Neves. Ulysses respirava Tancredo, acordava Tancredo, dormia Tancredo. PUBLICIDADE Quando Tancredo morreu, muito de Ulysses foi com ele. Foi nítida a transformação de meu marido. Ulysses passou a ter depressão, uma doença que mais tarde o levou a afastar-se da política. Ele perdera a sua principal referência na política. Ulysses, na sessão de homenagem ao presidente morto sem tomar posse, fez, em discurso, a mais bela declaração de amor que já vi um político fazer a outro: - Eu admirava Tancredo. Eu amava Tancredo. Eu temia Tancredo. Até hoje, fico arrepiada ao lembrar-me disso. Claro que cobrei dele, em brincadeira: - Será que, quando eu morrer, vou merecer uma declaração de amor dessas? Ulysses, a quem Jânio Quadros chamava de "O prosador das Arcadas", por ter editado um livro de poesias dos estudantes do Largo São Francisco, respondeu-me: - Você merecerá a maior homenagem que um homem pode prestar à amada: morrer com ela. Mas não é de Tancredo que quero falar hoje. Com o golpe de 64, os partidos foram extintos, e surgiram o MDB e a Arena. Vice-presidente do partido de oposição, Ulysses assume o comando do MDB em 71, com a renúncia do general Oscar Passos. Institucionalmente, passa a conviver com o presidente da Arena, Filinto Müller, seu ex-colega de PSD e ex-chefe da Polícia de Vargas. Ulysses nunca se deu bem com os presidentes que se sucederam nos comandos dos partidos da ditadura, a não ser com Filinto. Petrônio Portela? Ulysses debochava da sua empáfia. E, também, não será aqui nos nossos encontros que deixarei de ser sincera: os paulistas sempre tiveram preconceitos contra os nordestinos. E Petrônio Portela, a estrela civil da ditadura, era do Piauí. Muito do que Sarney passou, por exemplo, deve-se a esse preconceito paulista. Não estou querendo justificar os erros do governo dele. Mas não foi fácil para o Sarney enfrentar a paulistada. Voltando a Filinto Müller, meu marido acabou se tornando confidente dele. Ulysses chegava a casa, em São Paulo, contando as histórias que ouvia de Filinto. Chamavam-lhe muito a atenção os braços enormes daquele homem de quase dois metros de altura. Ulysses considerava Filinto exageradamente paranoico. Ele tinha medo, pavor, de morrer assassinado em emboscada ou sabotagem. Em Cuiabá, sua terra Natal, sentia-se mais seguro hospedado no Hotel Centro-América, no centro da cidade, do que na casa da família. Em Brasília, protegia-se exageradamente. Uns dois meses, ou menos que isso, da morte de Filinto, Ulysses chegando a casa: - Mora, paranoia pega? Eu, que sou líder da oposição ao Médici, nunca tive a paranoia do Filinto. Mas, hoje, o avião balançou tanto que, pela primeira vez, pensei bobagem. - Você acha que, para se livrarem de você, os militares matariam um avião cheio de inocentes? Só em filme! - Ou na cabeça do Filinto - completou meu marido, concordando que estava ficando sugestionado com as histórias do senador. Dias antes do acidente de Orly, que matou Filinto e mais 121 pessoas, entre as quais sua mulher, Consuelo, e o neto Pedro, foi a minha vez de ter um sonho esquisito. Acordei Ulysses: PUBLICIDADE - Tive um sonho esquisito. Você fazendo um curto discurso numa solenidade oficial. E, ao seu lado, Petrônio Portela, não Filinto. Ulysses nem deu bola. O impacto daquele acidente, no qual morreram outras pessoas famosas, foi tão grande que não percebi o meu sonho transformando-se em realidade: Ulysses, no Salão Negro do Congresso, fazendo um discurso curto e formal ao lado do corpo do presidente do Senado, Filinto Müller. Só vim a me lembrar desse sonho 12 anos depois, na última aprontação do doutor Tancredo de Almeida Neves, depois do esforço enorme do país para elegê-lo presidente da República, quando, já anoitecendo, Ulysses despediu-se dele ao pé do seu túmulo." Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/brasil/ulysses-respirava-tancredo-3101442#ixzz4XLJYaXvb © 1996 - 2017. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.

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