terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Jango

"No final da tarde, os sinos da igreja de São Francisco de Borja anunciaram a entrada de João Goulart na cidade onde nascera. Atrás dele vinham quinhentos veículos. Era o segundo filho da terra que, tendo chegado à Presidência da República, regressava morto, num cenário de sacrifício. O outro fora Getulio Vargas, seu amigo e protetor. Havia mil pessoas na praça, debaixo de chuva. “Um silêncio e um medo pavorosos”, lembraria Cláudio Braga, secretário de Goulart desde 1967. Ainda assim, deram-se alguns gritos a “Jango”.59 O velório duraria toda a noite, esperando por seus filhos, que viviam na Inglaterra. Denise Goulart chegou à igreja pouco depois das onze da manhã. Veio com o irmão, João Vicente. O caixão estava coberto pela bandeira brasileira, e um grupo de senhoras pediu a Denise que o cobrisse também com uma faixa branca onde se lia, em letras vermelhas: “Anistia”. Pelo plano da Polícia Federal, o caixão iria para o cemitério no carro fúnebre que o trouxera. Uma multidão calculada em 30 mil pessoas levou Jango nos braços. Foi um percurso de menos de um quilômetro por ruas enlameadas. Perto do jazigo onde discursara em 1954 diante do esquife de Getulio Vargas, Tancredo Neves voltou a falar: “Na mensagem solene que se traduz nesta cerimônia de hoje, há uma advertência que se reflete em todas as consciências: ‘É que ainda existem brasileiros que esperam voltar à Pátria’”.60 A tolerância do governo com o funeral de JK converteu-se em malvadeza no de Jango. A tentativa de impedir que o cortejo do expresidente se transformasse numa coluna do oposicionismo gaúcho produziu uma manifestação humilhada e triste. A ditadura quis tirar qualquer conteúdo político ao funeral de Goulart. Quase conseguiu. Com a faixa de letras vermelhas que colocou sobre o caixão do pai, Denise Goulart deu à morte de Jango uma grandeza imprevista. No dia seguinte a palavra anistia estava na primeira página do Jornal do Brasil.61" GASPARI, Elio. A ditadura encurralada. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

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