"Terminava a época das alianças automáticas. Pensava-se que se
poderia fundar um partido de esquerda juntando veteranos de 1964,
mas o professor Antonio Candido de Mello e Souza surpreendeu-se ao
ver que seu amigo Fernando Henrique Cardoso, fugaz militante do PCB
nos anos 50, mostrava-se “bastante crítico em relação a nós, antigos
socialistas, que visivelmente lhe parecíamos saudosistas”.19 Em 1977,
no ABC paulista, militantes da Liga Operária20 foram ao Sindicato dos
Metalúrgicos de São Bernardo para pedir aos trabalhadores que
organizassem um protesto contra a prisão de três de seus quadros.
Foram recebidos pelo presidente, eleito dois anos antes com 97% dos
votos dos operários. Ele lhes mostrou que não misturaria sindicato com
socialismo.
Chamava-se Luiz Inácio da Silva, Lula. Tinha 31 anos, língua
presa e sotaque nordestino. Descera de Garanhuns, com a mãe, num
pau-de-arara. Chegaram a São Paulo em 1952, buscando o pai, que
carregava sacos de café no porto de Santos.21 Vendera amendoim e
doces nas ruas, e aprendera a ler aos dez anos.22 Tornara-se
metalúrgico aos catorze, mas só entrara na sede do sindicato aos 22.23
Vivera a expansão industrial paulista, durante a qual, num raro
processo histórico, a classe operária triplicara.24 Em apenas dezoito
anos, a indústria automobilística brasileira saíra da irrelevância para a
lista das dez maiores do mundo. Em 1976, o ABC produzia perto de 1
milhão de veículos por ano. Para muita gente, o jovem presidente do
Sindicato de São Bernardo ainda era o irmão do militante comunista
José Ferreira da Silva, apelidado Frei Chico por conta de uma calva que
parecia tonsura. Lula devera sua entrada na diretoria do sindicato ao
irmão, mas era um personagem mais complexo, novo.
Tivera um dedo decepado por uma prensa. Uma hepatite mataralhe
a mulher, grávida. Casara-se com a viúva de um motorista de táxi
assassinado.25 Na noite de 4 de novembro de 1969, quando os locutores
que transmitiam o jogo Corinthians x Santos anunciaram que a polícia
havia matado Carlos Marighella, sua preocupação continuou onde
estivera: na vitória do Timão, que fechara o primeiro tempo em 2 x 0.
Queimara o rosto estourando rojões na comemoração da conquista da
Copa, em 1970. No tempo do Milagre a vida do trabalhador parecera-lhe
“um sonho”: “As empresas disputavam os empregados nas portas das
fábricas, oferecendo condições e salários melhores”.26 A oferta de
empregos para metalúrgicos em São Bernardo crescia uma média de
8,3% ao ano.27 É dessa época a primeira viagem internacional de Lula.
Vinte anos depois de ter vindo para o Sul de caminhão, foi para o Japão
de jato. Passou pelos Estados Unidos e deixou lembranças no programa
de sindicalismo da Universidade Johns Hopkins.28 Conseguira que a
Justiça do Trabalho obrigasse as empresas a computar as horas extras
no cálculo do 13º salário e das férias, e expandisse a estabilidade das
gestantes por dois meses além do parto.29 Tivera o governador de São
Paulo na posse e numa festa do sindicato. Afastava-se prudentemente
do radicalismo esquerdista.30 Nessa articulação, a professora Maria
Hermínia Tavares de Almeida já percebera que os operários de São
Bernardo construíam uma “nova corrente sindical”: “Algo próximo do
‘sindicalismo de negócios’ (business union) norte-americano:
combativo,’apolítico’, solidamente plantado na empresa, tecnicamente
preparado para enfrentar e resolver os problemas gerais e específicos de
seus representados”.31
Dissociando-se do corporativismo trabalhista deixado pelo Estado
Novo e das clivagens políticas trazidas pela ditadura, era uma novidade."
GASPARI, Elio. A ditadura encurralada. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

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