terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Início da crise

"O processo de distensão política de Geisel dera um passo à frente. Pela primeira vez, desde 1968, a ditadura reduzira seu raio de alcance, abrindo mão, publicamente, de um instrumento de arbítrio. O Estadão passaria a publicar aquilo que seu diretor-responsável, Julio de Mesquita Neto, bem entendesse. Para Golbery, seria melhor assim. Havia anos sustentava que o fim da censura n’O Estado de S. Paulo não libertaria as forças incontroláveis do liberalismo: “Sairá o jornal conservador que ele é. Mais conservador que eu”.2 Geisel ia para o segundo ano de sua presidência com um acervo indecifrado de mudanças. Enterrara o triunfalismo do Milagre Econômico e aceitara uma derrota eleitoral sem precedentes na história republicana. Ao lado disso, no porão torturava-se e matava-se. Em 1974 foram assassinadas cerca de cinqüenta pessoas, a maioria nas matas e nos cárceres militares do Araguaia. Nas cidades, o aparelho de repressão da ditadura exterminava o que sobrara da militância armada e avançava sobre o Partido Comunista. As 67 denúncias de tortura apresentadas nas auditorias deram ao ano um aspecto de trégua parecida com a do fim do governo Castello Branco (66 denúncias em 1966). A Fundação Getulio Vargas estimava que o país crescera 9,6%, enquanto as grandes economias mundiais gramavam a estagnação provocada pela crise do petróleo. Embora tendo sofrido o impacto de um aumento de 116% no preço dos combustíveis, a economia safou-se com uma taxa de inflação de 35%, um terço acima do índice real do ano anterior. (A inflação americana e a européia — exclusive a da Alemanha — estavam entre 13% e 25%.)3 A dívida externa, financiadora do salto, passara de 12,5 para 17,2 bilhões de dólares. Algo havia mudado na vida política do país, mas em janeiro de 1975 era difícil saber o que as mudanças significavam para o futuro. Geisel dizia a Heitor Ferreira que “essa fórmula das prisões indiscriminadas tem que mudar”. Ao governador de São Paulo, Paulo Egydio Martins, contava que se pedisse a ficha de Jesus Cristo aos serviços de informação, “ai dele”.4 A devolução da liberdade a um grande jornal prenunciava a abolição gradual da censura. Três semanários e um diário (Veja, Opinião e O Pasquim, e a Tribuna da Imprensa) continuavam com censores trabalhando em cima dos textos da redação. Os demais órgãos de comunicação tinham de respeitar as ordens contidas nas pequenas notas da Polícia Federal. Mesmo aí sucederam mudanças. Para onze novas proibições específicas expedidas no primeiro mês do mandato, o governo fecharia janeiro de 1975 com apenas uma.5 Era alguma coisa, mas não era tanto, pois persistiam todas as restrições genéricas, que iam do silêncio a respeito do porão ao olvido da existência de d. Helder Câmara. Geisel decidira suspender a censura do Estado seguindo uma costura de Golbery, conselhos de Humberto Barreto, conversas com Paulo Egydio Martins, e até mesmo sugestão do comandante do II Exército, general Ednardo D’Avila Mello.6 O presidente não entendia por que a família Mesquita mantinha jornalistas de esquerda na sua redação." GASPARI, Elio. A ditadura encurralada. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Sem comentários:

Enviar um comentário