terça-feira, 31 de janeiro de 2017
O papel de Ulysses
"Desde novembro de 1974, quando faltara à Arena a maioria de dois
terços no Congresso, condição necessária para a aprovação de
quaisquer emendas constitucionais, a ditadura perdera a capacidade de
produzir um projeto autônomo de reforma política. Mais que isso:
pusera em risco a permanência no poder do arco de interesses que
capturara o governo em 1964. Geisel reconhecera, cinco meses depois
do desastroso resultado eleitoral, que “um projeto nosso de reforma
custaria muito, pois o MDB, para concordar, teria forte poder de
barganha”.1 Em janeiro de 1975, referindo-se ao impacto que uma
derrota na eleição parlamentar de 78 teria sobre a de seu sucessor, foi
claro: “Se essa hipótese de perdermos se verificar, eu não vou contra a
vontade do povo”. Golbery rebateu: “O Colégio Eleitoral vai eleger quem
o presidente determinar”.2
Durante dois anos, Geisel contemplou o enigma. Chegou a sondar
a hipótese da dissolução dos partidos.3 Parecera uma fórmula
milagrosa. Bastaria usar o Ato Institucional, permitir a criação de uma
ou duas siglas, melar a composição do Congresso e começar tudo de
novo. O presidente abandonou-a e explicou a Heitor Ferreira: “Ah, meu
caro, se eu tiver que fazer isso, vou fazer muito mais coisas nesse Ato
que extinguir os partidos”.4
Para sobreviver, o regime precisava do “muito mais”. Respeitando
as regras que ele próprio estabelecera, a hegemonia da Arena tinha data
marcada para acabar: no dia 15 de novembro de 1978 seriam realizadas
eleições diretas para a escolha dos governadores e para a renovação de
dois terços do Senado, de toda a Câmara dos Deputados e de todas as
assembléias legislativas. Num cálculo conservador, a oposição era
favorita no Rio Grande do Sul, em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Em maio de 1975, Geisel achara possível conviver com três dos
maiores estados do país sob administração do MDB. Conhecendo o grau
de dependência que o governo federal impunha aos governadores,
considerava-se “o papaizinho deles”.5 A eventual docilidade dos
governadores oposicionistas era apenas um lado da questão. O outro, a
natureza do mandato de todos eles, inclusive os da Arena, era bem mais
complexo. Em fevereiro de 1977, lidando com esse lado do problema,
Geisel já percebera a armadilha em que o governo caíra e vislumbrava
uma saída: “Vão terminar o MDB me obrigando a ir para um Ato. [...] Não
abro mão da indireta. 22 governadores eleitos pelo povo, o único poder
do presidente indireto será o dinheiro”.6
Havia ainda o problema do Senado. Figueiredo explicara-o: “Para
um total de 66 senadores, o MDB já tem garantidos vinte [...]; para que
tenha a maioria (34) bastará que eleja 14 novos senadores dos 44 a
serem eleitos nos 22 estados, o que me parece fácil, já que será comum
a eleição, em alguns estados, de um senador de cada partido”.7
Uma ditadura em que a oposição tivesse a maioria no Senado e
governasse os estados onde se concentravam quase dois terços do
Produto Interno Bruto seria uma contradição em termos. O general
começou a cuidar do “muito mais” no final de fevereiro. No dia 23,
Heitor Ferreira anotou: “Geisel conversa com Golbery no Alvorada:
‘reformas, sucessão, Figueiredo’”.8
Quando Petrônio Portella anunciou que pretendia discutir com a
oposição o projeto de reforma do Judiciário, buscava uma maneira de
avançar mudanças que desmontassem as armadilhas em que a
ditadura estava presa, preservando-a. Tentava um compromisso que, de
saída, liquidasse a eleição direta dos governadores. Não enunciava o
desejo, nem trazia propostas, apenas metáforas.
Mestre das hipérboles, o senador chamou Ulysses Guimarães
para uma conversa fiada no fundo do plenário da Câmara e contou-lhe
que se lembrara dele havia pouco tempo, quando Golbery lhe expusera
sua teoria das “sístoles e diástoles”. Era uma das construções
preferidas do general. Mapeava a história do Brasil como uma sucessão
de períodos em que se alternaram regimes centralizadores e regimes
descentralizadores. Coisa simples: o poder nacional contraíra-se no
Império, irradiara-se na República Velha, voltara a se contrair no
Estado Novo e a irradiar-se na redemocratização de 1945. Em 1977,
vivia-se o ocaso da sístole iniciada em 64, prenunciando-se a diástole
da redemocratização.9
Num de seus melhores momentos, narrado a Luiz Gutemberg,
Ulysses manteve o nível metafórico da conversa e lembrou a Petrônio
que, além de ser um termo da biologia, “sístole” é também uma
expressão da gramática. Denomina o deslocamento do acento tônico de
um vocábulo para a sílaba anterior. Depois de uma sístole, Dario vira
Dário. “[Sístoles e diástoles] ajustavam o ritmo dos versos, mas não
alteravam o significado das palavras”, explicou.10
O presidente do MDB não queria negociar. Petrônio procurou-o
formalmente no dia 9 de março. Conversaram por quase duas horas. No
dia seguinte, Ulysses reuniu o Diretório Nacional, contou que lhe fora
oferecido o sacrifício das eleições diretas dos governadores e o início de
entendimentos que pudessem levar a uma reforma política. Pediu aos
quinze pares que opinassem. Resultou o óbvio: o sacrifício foi repudiado
por 15 x 0.11 Ele repetira, com rapidez e método, o golpe que aplicara ao
encontro secreto que tivera com Golbery, em 1975. De novo, transferia
ao governo o risco de uma crise que estava nele, e não no MDB. Era
Geisel quem não conseguia aceitar o MDB com maioria no Senado,
governando o Rio, São Paulo ou o Rio Grande do Sul. Como em 1975,
Ulysses contrariava a opinião do secretário-geral do partido.
Principal defensor da conciliação, Thales achava necessário
conjurar o confronto. Separava-os uma diferença de propósitos derivada
de uma compreensão diversa do presente e diversa, sobretudo, da visão
do futuro. Refletiam a própria crise interna do MDB.
Thales queria negociar o fim da ditadura. Ulysses queria o passo
seguinte: o poder. Uma vitória em 1978, com a eleição de governadores
do MDB nos principais estados, poderia tirar das mãos do regime o
controle da sucessão presidencial. Nas palavras de Carlos Castello
Branco, o mais respeitado colunista político do período, mesmo que o
governo não fosse para o MDB, poderia acontecer o seguinte: “Como a
disputa entre os militares é muito intensa, e o general Figueiredo que é
o mais forte está sendo contido pelo Alto-Comando e dificilmente
chegará a general de quatro estrelas (o grau hierárquico pra se chegar a
presidente), a coisa pode embaralhar e saírem para a solução civil”.12"
GASPARI, Elio. A ditadura encurralada. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
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