terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O Monstro

"O resultado da eleição de 1974 encurralou a ditadura. O MDB vencera as disputas para senador em dezesseis dos 21 estados, indicando que dentro de quatro anos conquistaria a maioria no Senado. Um ano depois do almoço de JK no Jornal do Brasil, o “monstro” soltouse no Rio de Janeiro e em Brasília. Cantando “Peixe vivo”, o povo voltou à rua, enterrando o ex-presidente com afeto e lamento. A ditadura militar estava economicamente robusta. Num regime de pleno emprego, a economia crescia, na média, a taxas de quase 7% ao ano. Também tinha prestígio internacional. Faltava só a Argentina para que toda a América do Sul abaixo do Equador fosse governada por generais. Em março de 1976 uma junta instalou-se na Casa Rosada, e acabou-se a exceção. Entre as últimas semanas de 1974 e a jornada de 12 de outubro de 1977, quando Ernesto Geisel demitiu o ministro do Exército, general Sylvio Frota, a anarquia militar e o poder republicano do presidente enfrentaram-se. Era o confronto que o regime evitava desde 1964. À noite, quando Frota transmitiu o cargo ao seu sucessor, Fernando Bethlem, a anarquia estava enquadrada. Coube ao general Ernesto Geisel a defesa do poder constitucional. Logo ele, que participara das desordens militares de 1922, 24, 30, 37, 45, 61, 64, 65, 68 e 69.2 De 12 de outubro de 1977 até o dia em que se escreveu esta Explicação, passaram-se 26 anos. Nunca, na história da República, se viveu tanto tempo sem desordem militar digna de registro. Quando o general Ernesto Geisel morreu, em 1996, sabia a extensão desse legado. Orgulhava-se dele, mas não gostava de discutir o assunto. Temia fazer uma das coisas que mais detestava: falar bem de si próprio." GASPARI, Elio. A ditadura encurralada. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

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