terça-feira, 31 de janeiro de 2017
O começo do fim
"Nos primeiros meses de 1975 o governo vagou entre posições
opostas. Ao mesmo tempo que o porão patrocinava uma nova onda de
prisões, desaparecimentos e torturas, outra banda procurava acelerar a
distensão. Ora de um lado, ora de outro, ficava Geisel.
(...)
O divisor de águas continuava onde sempre estivera: a tortura,
encruada na questão dos desaparecidos. O MDB resolvera convocar o
ministro da Justiça ao plenário da Câmara para prestar
esclarecimentos. Além disso sua bancada fornecera 138 assinaturas (35
acima do mínimo exigido pelo regimento) pedindo a instalação de uma
Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar casos de violações
de direitos humanos. Eram 22 os nomes dos desaparecidos.28 (A falta
de informações, o silêncio que envolvia o paradeiro dos guerrilheiros do
Araguaia e o medo contribuíram para que essa lista fosse imprecisa e
magra. No fim de janeiro de 1975, na realidade, os desaparecidos eram
cerca de 130.) O líder do governo na Câmara rebateu, acusando mais de
vinte deputados da oposição de terem recebido o apoio do PCB. Uma
coisa nada tinha a ver com a outra.
(...)
desempenho econômico do primeiro ano de governo foi um estuário
de frustrações. Mario Henrique Simonsen aceitara o cargo supondo que
seria possível segurar a inflação de 1974 nos 20%.1 Em junho, Geisel
esperava contê-la nos 25%.2 Fechou o ano com 35%. Estimava um
déficit comercial de 1,5 bilhão de dólares, resultou o triplo. A conta foi
paga com a perda de 18% das reservas internacionais e um crescimento
de 37% da dívida externa. Os números desmentiram as expectativas de
austeridade dos primeiros meses, mas conseguiu-se o essencial: o
crescimento do Produto Interno ficou em 9,6%,3 mantendo-se nas
vizinhanças dos números mágicos do Milagre. Era isso que importava.
(...)
Durante a euforia do Milagre, semelhante descoberta haveria de
render ao regime a confirmação de sua onipotência. Agora, mal rendia
fé, pois quem desconfiava do exagero acabava duvidando da própria
realidade. Geisel queria impor sua racionalidade ao projeto do governo,
zelando para que o otimismo do delfinato não fosse substituído por uma
descrença nos fundamentos da sua administração. Alterara a essência
da gestão econômica. Tirara as decisões da mesa do ministro da
Fazenda, levando-as para a sua. O Brasil era governado por um general
convencido de que “a iniciativa privada não se interessa pelo real
desenvolvimento do país”, e, por isso, “o Estado tem que dirigir”.7 O
presidente não queria ser apenas um supervisor da economia, pretendia
comportar-se como seu indutor.
(...)O grande empresariado convivera bem com a ditadura enquanto
ela foi previsível na sua intolerância. Sentia-se desorientado diante de
um presidente ditatorial, porém imprevisível. Se alguém pudesse
explicar o que significava, quanto custava e como terminaria a “lenta,
gradativa e segura distensão”, ele poderia fazer sua escolha. Se fosse
possível antever a exata direção da política econômica, também seria
possível escolher. Sempre que o empresariado brasileiro soube ao que
devia aderir, aderiu. A que aderir? Às idéias de Simonsen? Às práticas
de Velloso?
Nem o próprio Geisel tinha essas respostas. Abria aqui e fechava
ali, expandia a economia e contraía o crédito, exaltava o PND e
anunciava freios. Ao lado disso, baixava o chanfalho no sistema
financeiro. Com um mês de governo, rompera a escrita segundo a qual
banco não podia quebrar. Interviera no Halles, do Rio de Janeiro, e
tentara manter sob rédea curta três outras casas que estavam com as
contas em desordem.28 Quatro meses depois, sem estrondo, acertou a
primeira. O Banco União Comercial, do Rio de Janeiro, viu-se obrigado
a fundir-se com o Itaú. Nem o socorro do Banco Central, que lhe abrira
perto de 1,5 bilhão de cruzeiros na carteira de redescontos, conseguira
salvá-lo. Nele Roberto Campos tivera a sua primeira (e única)
experiência com as belezas e as maldades do mercado.29 As duas outras
casas (Aurea e Crecif) duraram alguns meses, até que se extinguiram.
A previsibilidade do delfinato fora substituída por uma paradoxal
mistura de ambigüidade e centralização. Sintetizando-a, disse um
empresário: “O diálogo é fácil, só que não se sabe o que será feito”.30 Em
março de 1975, diante de uma súbita queda das reservas
internacionais, seguida de um aperto monetário, Reis Velloso passara
alguns dias em São Paulo. Regressara com um balde de queixas.
Sebastião Camargo, o maior empreiteiro do país, e Olavo Setubal, dono
do banco Itaú, reclamavam do aperto. Setubal chegara a dizer que se
atravessava uma crise de liquidez sem paralelo.
(...)Graças ao esfriamento da economia e às restrições que impusera
às importações, Geisel fechou 1975 com um déficit comercial de 3,5
bilhões de dólares e um buraco de 7 bilhões nas transações correntes.72
Foram resultados melhores que os do ano anterior, mas cobraram dois
preços. De um lado, derrubaram o crescimento do PIB para 5,2%.73 De
outro levaram a dívida externa a 21,2 bilhões de dólares. Entre 1973 e
1975 a América Latina e o Caribe duplicaram seu endividamento. O
Brasil também.74"
GASPARI, Elio. A ditadura encurralada. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
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