terça-feira, 31 de janeiro de 2017
Nas ruas
"Depois do “Pacote de Abril”, o ronco dos estudantes fez-se ouvir
novamente. Pediam a libertação dos presos políticos, o restabelecimento
das liberdades democráticas, e distribuíam uma carta aberta à
população: “Hoje, consente quem cala”. Na primeira semana de maio a
Universidade de São Paulo iniciou uma greve que tirou 60 mil jovens
das salas de aula, levando 10 mil às ruas, onde se viram aplaudidos
pela população. Quando começou a chuva de papel picado, os jovens se
abraçavam. Alguns choravam.1
A movimentação irradiou-se, com graus variáveis de mobilização,
pelo Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Salvador e Porto Alegre.
Um silêncio mostrava que aquela garotada era mais esperta do que se
pensava e estava mais organizada do que se supunha, ninguém gritava
“Abaixo a ditadura”. De maneira geral, a imprensa respeitava um código
de cumplicidade: não se fotografavam rostos e não se identificavam
líderes.2
Os estudantes marchavam ao largo da oposição legal. Sempre
superestimando a influência dos comunistas, o SNI apontava a
existência de “uma dissenção3 entre ativistas do PCB e da linha
trotskista”. Dizia que o Partidão recomendava moderação e informava
que ele tinha “o apoio da maioria”.4 Em São Paulo, uma das molas
dessas manifestações chamava-se Liberdade e Luta, quintessência do
trotskismo. Apelidada Libelu, batizou a chapa com que os militantes da
clandestina Organização Socialista Internacionalista disputaram (e
perderam) a primeira eleição do DCE-Livre da USP. Não eram majoritários
nem hegemônicos, eram simbólicos. Nas suas festas havia pessoas
bonitas, maconha e Rolling Stones. A Libelu tinha oitocentos militantes
em todo o país, mais da metade na Universidade de São Paulo,
cinqüenta no Rio Grande do Sul e uma ninharia no Rio de Janeiro e em
Salvador. Mal haviam sido percebidos como grupo organizado em 1975,
quando tentaram sair em passeata para o culto em memória de
Vladimir Herzog. Acusavam o MDB de “complementar a repressão
direta”, na busca da “continuidade da política da burguesia, num
momento em que a repressão pura e simples não consegue mais
sufocar as contradições sociais”.5
As passeatas juntavam dois tipos de estudantes. Na primeira
categoria estavam as lideranças das organizações surgidas nas
universidades e algumas centenas de seguidores. Na USP predominava o
grupo Refazendo. Na Federal da Bahia, o PC do B. Na Universidade de
Brasília, ninguém. Só no Rio de Janeiro se percebia a influência do
Partido Comunista. Os militantes aparelhados eram severos, hostis à
maconha, apenas tolerantes com a liberação sexual. Na segunda
categoria estava a multidão. Eram jovens que tinham incorporado aos
seus costumes algumas das bandeiras de 1968. Em menos de uma
década as mulheres haviam tomado um pedaço da política e do
mercado de trabalho. Todos compartilhavam com os trotskistas o
refinamento cultural e o horror à ditadura e ao Partidão, nessa ordem.
Nas assembléias estava a vanguarda de uma parte da mocidade, unida
no seu desprezo pelos hábitos conservadores e pelas alianças táticas da
esquerda tradicional. Ana Cristina Cesar escreveu a uma amiga: “Você
sabe que o país está começando a se sacudir, há manifestações pelo
menos estudantis nas capitais, apoio escrito de professores, MDB, mães
de presos... [...] Mal ou bem estou lá, me cagando de medo”.6
(...)
O aparecimento dos estudantes nas ruas adicionara um
ingrediente inesperado ao jogo político. Com eles, 1977 poderia lembrar
1968. Salvo em São Paulo, a agitação universitária circunscrevera-se,
deliberadamente, às escolas. Em termos de organização, ela se movia
com dois objetivos. Num, marcava datas para o que denominava Dia
Nacional de Luta. No outro, pretendia organizar, em Belo Horizonte, o
que seria um Encontro Nacional dos Estudantes, disfarce para um
relançamento da UNE. Era coisa coordenada, mas desligada da oposição
partidária. Em menos de um mês as manifestações, em diversas
cidades, mobilizaram 50 mil jovens.26
Havia-se restabelecido a mística do movimento estudantil. Desde
o final do século XVIII, os universitários brasileiros sempre foram a
vanguarda da elite. Assim sucedeu na derrubada do Estado Novo e na
crise de 1961. Dividiram-se em 1964, viram-se derrotados em 68, mas
nunca estiveram numa posição em que associassem sua militância ao
atraso imposto ao país pela elite que reabasteciam a cada geração. Em
São Paulo, ao som da “Marcha fúnebre” de Chopin e carregando velas
roxas, um grupo de estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São
Francisco enterrara a Constituição, pedindo a volta ao estado de
direito.27 Era um sinal. De 1967 a 1974 o Ministério da Justiça dos
generais Costa e Silva e Medici fora ocupado por dois ex-diretores da
escola, os professores Luiz Antonio da Gama e Silva (redator do AI-5) e
Alfredo Buzaid.
O regime enfrentou a crise das universidades com cautela.
Beneficiou-se da presença de Paulo Egydio Martins, ex-líder estudantil,
no governo de São Paulo, e da de Ney Braga, um hábil político
paranaense, protegido pela remota condição de coronel da reserva, no
Ministério da Educação. Tendo-se agüentado até o final de maio sem
maiores conflitos, faltava só um mês para que a maré refluísse,
desmobilizada pelas férias escolares de julho.
Foi quando alguém teve a idéia de sabotar a reunião da Sociedade
Brasileira para o Progresso da Ciência, marcada para a segunda
semana de julho, em Fortaleza. Com 12 500 sócios, a SBPC fazia do seu
congresso anual uma festa da cultura, demonstração da vitalidade
acadêmica do país. No ano anterior, juntara 7500 participantes em
Brasília. O SNI contabilizara que, entre 33 moções aprovadas pela
comunidade universitária, onze tinham “caráter nitidamente político e
contestatório”. Uma delas falava em anistia.28 Golbery supunha que o
governo podia se livrar do embaraço negando verbas e retirando o
amparo logístico que sempre dava aos encontros da Sociedade.29 Quase
conseguiu. Sem o apoio dos governos estaduais e tendo perdido três dos
quatro patrocinadores oficiais, o físico Oscar Sala, presidente da SBPC,
tentou tirar o evento da jurisdição federal. A Universidade de São Paulo
pareceu-lhe boa escolha, mas o reitor, Orlando Marques de Paiva, não
quis receber os professores. A reunião foi cancelada.(...)
O movimento estudantil e a ditadura precisavam de um duelo. A
tolerância das reitorias inibira a ação da polícia, contendo a agitação
nos limites da universidade. A militância paulista conseguiu uma
bandeira mobilizadora no dia 1º de maio, a prisão de oito integrantes da
Liga Operária.33 Daí em diante, seguiu o manual dos agitprop. Começase
pedindo a libertação dos que acabaram de ser presos, passa-se a
pedir a soltura de todos os outros. A cada concessão, uma nova
reivindicação. Os estudantes tiveram a simpatia de boa parte da
sociedade. Dez mil manifestantes marcharam pelo viaduto do Chá.
Andaram apenas quinhentos metros e viram-se obrigados a recuar,
bloqueados por um forte aparato policial. No caminho, foram saudados
pelo povo das calçadas e do alto dos edifícios de escritórios. Como em
1968.
O duelo aconteceu em Brasília. Lá, os estudantes acharam no
reitor José Carlos Azevedo o dragão de que necessitavam. Oficial da
reserva da Marinha, doutor pelo Massachusetts Institute of Technology,
o Capitão era um administrador competente e um quadro dos
bastidores do regime. Dava-se mal com Ney Braga e, numa eventual
restauração, parecia aposta segura para o seu lugar. Os estudantes da
UnB e Azevedo encrencaram em dois pontos. Queriam rever a política
de jubilamento dos maus alunos (em oito anos haviam sido desligados
1753 jovens) e rediscutir as taxas administrativas cobradas pela
universidade, cujos cursos eram gratuitos. Quando a agitação começou,
450 dos 5 mil alunos exigiram a realização de um plebiscito para decidir
a respeito da propriedade dessas práticas.34 Era coisa pequena.
Azevedo respondeu informando que puniria dezenove alunos
envolvidos numa manifestação ocorrida no campus em meados de maio.
Nenhum outro reitor tomara esse caminho. Dois mil estudantes
reuniram-se em assembléia e decretaram greve. Como em 1968,
cantou-se “Caminhando”.35
No sábado em que Geisel jogou o telefone em Heitor Ferreira o
governo tinha de um lado a radicalização da UnB e, de outro, a possível
realização, em Belo Horizonte, do Encontro Nacional dos Estudantes. O
problema de Minas Gerais foi resolvido com 348 detenções e com o
bloqueio das estradas que levavam à cidade. O de Brasília foi agravado
com a invasão da universidade por uma tropa de 2 mil PMs. A essa
altura haviam sido detidos cerca de oitocentos estudantes, e
paralisadas as atividades de três das maiores universidades públicas do
país (UnB, UFRJ e USP), além das duas grandes escolas católicas (as PUCS
do Rio e de São Paulo).
Em todas as cidades, o governo persistia na sua política de
repressão acautelada, evitando que as lideranças estudantis buscassem
em ações repressivas a energia capaz de realimentar as manifestações.
Duas passeatas organizadas em São Paulo, bem como o reaparecimento
da garotada na avenida Rio Branco, nove anos depois das jornadas de
1968, haviam sido contidas sem providências que estimulassem a
radicalização. Essa regra só não valia em Brasília, onde os estudantes
se mantinham dentro dos limites da escola. Lá, os universitários e o
reitor estimulavam a tensão. Uns estendendo a greve. O outro,
perseverando e ampliando as punições disciplinares."
GASPARI, Elio. A ditadura encurralada. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário