sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

1985

"GEISEL, GOLBERY E FIGUEIREDO
JANEIRO Figueiredo submete-se a uma cirurgia da coluna no Rio. Não passa
o cargo a Aureliano Chaves. Restabelecendo-se, posa para uma fotografia no
jardim da casa de saúde, prostrado. Tancredo vai visitá-lo. Geisel não vai.
Golbery diz que não procura Geisel. Argumenta que mesmo não tendo
apoiado Tancredo abertamente, Geisel será responsável pelo que vier a
acontecer: “Se der certo, muito bem, os louros irão para ele, mas se houver
um desastre, não é justo que venha dizer que nada tinha a ver com isso”.
Numa entrevista, Figueiredo pede aos 70% dos brasileiros que apoiam
Tancredo (“o povão”) “que me esqueçam”.
José Sarney, vice-presidente eleito, encontra-se com Geisel.
MARÇO Com Tancredo internado, Figueiredo recusa-se a passar a faixa
presidencial a José Sarney, deixa o palácio por uma porta lateral, pega o avião e
vai para o apartamento de um amigo no Rio.
Numa conversa, Figueiredo prevê que se Tancredo não resistir “Sarney não
governa” e o desfecho seria o retorno dos militares ao poder.
ABRIL Durante o velório de Tancredo no palácio do Planalto, Geisel e Ulysses
Guimarães cumprimentam-se. Figueiredo não comparece.
Com o fim da ditadura, Geisel, Golbery e Figueiredo afastam-se da vida
pública.
POLÍTICA
JANEIRO Na madrugada da ceia do Réveillon, Tancredo sente-se mal. Sua
irmã, a religiosa Esther, diz que ele precisa ver um médico. Ele responde: “O
SNI vai saber e vão aproveitar”. Dias depois fica febril, liga para seu médico
mineiro e pede um antibiótico oral.
Tancredo Neves é eleito presidente da República por 480 votos contra 180
de Paulo Maluf. Cita o poeta francês Verlaine e diz que recebe a vitória “com
êxtase e terror”. Realizam-se comícios-festas em várias cidades.
Tancredo diz ao médico Renault Mattos Ribeiro que sente dores na virilha.
Tancredo embarca para uma viagem para Itália, França, Portugal, EUA,
México e Argentina. Durante sua passagem por Washington, tem uma dura
conversa com o secretário de Estado, George Shultz. Diz que pretende fazer
um governo de austeridade, honrando os compromissos do país, mas se os
bancos se fecharem as consequências serão imprevisíveis.
MARÇO Tancredo Neves deverá tomar posse no dia 15, uma sexta-feira. No
dia 12, seu estado de saúde se agrava. Na noite de 14, é levado às pressas para o
Hospital de Base, em Brasília, e é submetido à primeira cirurgia.
José Sarney é empossado na Presidência da República, com o ministério de
Tancredo.
No dia 20, Tancredo passa por uma nova cirurgia. Uma semana depois, posa
para uma foto num cenário maquiado. No dia seguinte, é transferido para São
Paulo e vai para a terceira cirurgia.
O Alto-Comando do Exército caroneia o general Newton Cruz na lista de
promoções à quarta estrela e ele é transferido automaticamente para a
reserva.
ABRIL No dia 2, ocorre a quarta cirurgia de Tancredo. Até o dia 12, mais três.
Em 21 de abril, Dia de Tiradentes, é anunciada a morte de Tancredo Neves.
Depois de ser velado em Brasília e Belo Horizonte, ele é sepultado em São João
del Rei (MG).
AGOSTO A deputada Bete Mendes acusa o coronel Carlos Alberto Brilhante
Ustra de tê-la torturado no DOI de São Paulo. O ministro do Exército, general
Leonidas Pires Gonçalves, informa que mantém sua confiança em Ustra.
OUTUBRO Morre o ex-presidente Médici.
ECONOMIA E SOCIEDADE
JANEIRO Realiza-se o primeiro show Rock in Rio.
O FMI diz que não discutirá com o governo brasileiro a sua sétima carta de
intenção. Prometia 60% de inflação no ano.
Em sua primeira entrevista coletiva como presidente eleito, Tancredo diz
que dívida “se paga com dinheiro, não se paga dinheiro com fome, miséria e
desemprego”.
FEVEREIRO O diretor-geral do FMI congela os entendimentos com o Brasil.
Em visita ao Brasil, o banqueiro americano David Rockefeller visita
Tancredo e responde à sua frase sobre a dívida externa: “Dívida é dívida e seu
conceito não varia”.
MARÇO Num dos primeiros atos do novo governo, o Banco Central intervém
no Grupo Brasilinvest, do paulista Mario Garnero. Ele fora um dos mais
destacados líderes empresariais da ditadura.
ABRIL O ministro da Fazenda, Francisco Dornelles, reabre as negociações da
dívida externa com o FMI e os bancos. Ela está em US$ 103 bilhões.
No circuito do Estoril, em Portugal, Ayrton Senna consegue sua primeira
vitória na Fórmula 1.
JUNHO Estreia na TV Globo a novela Roque Santeiro, de Dias Gomes. Ela fora
vetada pela Censura em 1975.
Identificados os restos mortais do criminoso nazista Josef Mengele. Ele
morrera em 1979 em São Paulo e fora sepultado com a identidade falsa com
que vivia.
JULHO O Peru decreta moratória de sua dívida externa.
AGOSTO Francisco Dornelles deixa o Ministério da Fazenda e Sarney coloca
em seu lugar o empresário Dilson Funaro.
NOVEMBRO Jânio Quadros é eleito prefeito de São Paulo, derrotando
Fernando Henrique Cardoso.
DEZEMBRO O ministro Dilson Funaro indica aos bancos credores que o Brasil
pode entrar no caminho da decretação de uma moratória. Em fevereiro de
1986 cumpriria a promessa.
O ano termina com a inflação (IGP-DI) em 235% e o PIB cresce 7,85%."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016.

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