quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Riocentro

"Às 21h15 de 30 de abril de 1981, uma bomba explodiu dentro de um Puma no estacionamento do Riocentro, onde o Cebrade realizava mais um show comemorativo do 1o de Maio.2 No carro estavam o capitão Wilson Machado, Doutor Marcos, chefe da seção de operações do DOI do I Exército, e o sargento Guilherme Pereira do Rosário, o Wagner, que carregava o explosivo. O sargento morreu na hora, com a bomba no colo. O capitão, estripado, sobreviveu. Haviam passado pelas catracas de acesso ao show 9.892 pessoas.3 A jovem Andrea Neves da Cunha chegara atrasada e ia para o corredor que dava acesso à plateia quando viu um homem ferido que pedia ajuda para ser levado a um hospital. Ele tentara abandonar o local num táxi, mas o motorista recusara-se a transportá-lo.4 Neta de Tancredo Neves, Andrea socorreu-o. Doutor Marcos estava lúcido. Ele dizia que não sabia o que acontecera e falava de sua filha de seis meses. Ao chegar ao hospital, pediu a um bombeiro que telefonasse para o número 208-7742. Atendeu uma pessoa que se identificou como Aloisio Reis.5 Era o tenente-coronel Freddie Perdigão Pereira, lotado na Agência Rio do SNI.6
O presidente Figueiredo contou que soube da explosão na manhã seguinte, num telefonema de Heitor Ferreira, e alegrou-se: “Até que enfim os comunistas fizeram uma bobagem”. Meia hora depois chegou-lhe uma nova informação: “Presidente, há indícios de que foi gente do nosso lado”.7
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Até o fim de seus dias, Figueiredo cultivou a imagem de destemido. Contava que, ao receber a espada de aspirante das mãos do ditador Getulio Vargas, ouvira dele palavras gentis mencionando seu pai. O general Euclides Figueiredo lutara ao lado dos rebeldes de 1932 e opunha-se ao governo, que acabara de fechar o Congresso. Getulio desejara-lhe uma carreira brilhante, como a do general. “Obrigado, presidente. O único perigo é que eu termine preso, como meu pai”, respondeu o aspirante.11 Contada décadas depois, essa cena não tivera testemunhas. Durante o governo de Jango, Figueiredo fora chamado para uma conversa com o presidente e lhe teria dito que seu governo seria derrubado. O ajudante de ordens de Jango, presente ao encontro, não ouviu essa observação.12 Noutro episódio, contado em 1991, ainda tenente, Figueiredo teria mandado o major Humberto Castello Branco “à merda”.13 Novamente, não se sabe de testemunhas.
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Ainda na noite da explosão, o ministro Walter Pires mandou um general ao Rio com uma mensagem reservada. Não se conhece o seu teor, apenas seu efeito. Na tarde do dia seguinte, o comandante do I Exército, general Gentil Marcondes Filho, foi ao hospital onde estava o Doutor Marcos. Dali seguiu para o enterro do sargento Wagner, ajudou a carregar seu caixão, prestou-lhe honras militares e determinou a abertura de um Inquérito Policial-Militar para que se apurasse o que acontecera com os dois militares “que “que seencontravam em missão de serviço no Riocentro”.15 Estava dado o sinal de cima.
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Passados mais de trinta anos, acumularam-se versões que tentaram explicar o episódio do Riocentro. De todas, a mais absurda é aquela produzida e sustentada pelos comandantes militares. Ela viria a ser desmontada por um IPM do próprio Exército, arquivado em 1999 pelo Superior Tribunal Militar. Ao
longo do tempo, foi desacreditada também por Figueiredo e pelos generais Octavio Medeiros, Coelho Netto e Newton Cruz, então chefe da Agência Central do SNI.22 Embora tenha ficado sem padrinhos, a versão oficial permanece chancelada pelo Estado brasileiro. Disso decorreu uma natural proliferação de versões, baseadas em circunstâncias. A mais devastadora é a de que a bomba do Puma (ou outras, que jamais foram encontradas) explodiriam dentro do pavilhão, que estaria às escuras. Nesse cenário, o número de mortos poderia chegar à centena. Ela é implausível."
GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016.

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